Era uma vez uma princesa que não se achava princesa até se descobrir!

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Este texto foi escrito por uma paciente da psicóloga Filipa Jardim da Silva que preferiu manter o anonimato. Quem leu o livro Dieta das Princesas sabe que me identifico com muitas destas palavras. Se tenho uma relação totalmente saudável com a comida? Não. Se vale a pena procurar esse equilíbrio? Claro que sim.

Não me lembro de alguma vez me ter sentido bem com o meu corpo. Em pequenina, a minha avó tinha uma gaveta com doces. Era o “cofre secreto” onde podia ir sempre que achasse que eu me tinha portado bem. O facto de ter passado tanto tempo com ela não ajudou a que ganhasse hábitos saudáveis e por isso entre batatas fritas e hambúrgueres e doces fui crescendo, gordinha mas bonitinha. Felizmente nunca fui gozada por nenhum colega e tinha muitos amigos mas sentia-me maior que as minhas colegas.

Com a entrada na faculdade, aos 18 anos, fui viver sozinha para outra cidade e assim se instalou o caos. Não tinha horários regrados e a cozinha estava por minha conta. Nos três primeiros meses engordei 10 kg. Passava as manhãs na faculdade (quando não faltava) e o resto do dia a comer e a chorar. Foi então que começaram os primeiros episódios de ingestão compulsiva. No espaço de uma hora era capaz de comer uma caixa de cereais com leite, um pacote de bolachas, bolos e gomas. Estava constantemente a petiscar, sozinha e, quando dava conta, tudo tinha desaparecido. Olhava para as embalagens vazias e assustava-me, por isso tratava de despachar o lixo rapidamente: não queria deixar “provas do crime”. À frente de todos comia pouco porque, realmente, às refeições sempre tive pouco apetite. Usava a roupa para disfarçar as gordurinhas extra e recusava vários convites sociais por vergonha de me expor.

Sentia-me mais triste, culpada pelas justificações inventadas, o que me levava a comer mais para depois me sentir ainda pior. Perdi alguns amigos que se cansaram da ausência e desculpas esfarrapadas. Na altura não sabia dar nome ao que me estava a acontecer, achava simplesmente que era gulosa e fraca, mas sentia que era algo mais forte do que eu. Comecei a identificar-me com um viciado, mas em vez de drogas ou álcool, eu era viciada em açúcar. Cheguei a ir à estação de serviço mais próxima à 1h da manhã para comprar chocolates e bolachas. Por vezes, ia a três pastelarias diferentes comer um bolo em cada uma, para não passar vergonha de comer tanto numa só. Cheguei a simular telefonemas a perguntar quantos bolos queriam que levasse para o lanche mas na verdade era tudo para mim.

Toda aquela comida era a minha fiel companheira mas o conforto que me dava e a companhia que me fazia tinham uma fatura muito pesada. A angústia era imensa e assim que metia um doce na boca tudo parava, era como se ficasse anestesiada. Quando passava o efeito, a culpa e o mal-estar eram tão grandes que me levavam a mais uma dose de doce anestesia. Como prenda de Natal nesse ano, recebi um pacote de tratamento estéticos e aí começou um ciclo sem fim. Durante os anos seguintes fazia tratamentos para emagrecer, tomava suplementos, fazia algum exercício, começava uma dieta nova e emagrecia e depois engordava um pouco e depois emagrecia e depois engordava. Ninguém fazia ideia do que se passava comigo. Era muito boa a esconder tudo.

Aos 20 anos, iniciei uma psicoterapia que durou dois anos e que foi muito importante. Aos 21 ou 22 anos, partilhei, pela primeira vez, com uma amiga o que se passava comigo. Descobri as palavras bulimia não purgativa e compulsão alimentar (binge eating) que descreviam as minhas alternâncias: por vezes comia muito e não fazia nada para compensar o que tinha ingerido; e noutros períodos recorria a diuréticos, laxantes e comprimidos para inibir o apetite, procurando compensar os exageros alimentares.

Hoje, com 33 anos, tenho um peso normal e cuido da minha alimentação. Já terei feito as pazes com o espelho? Tem dias… Se tenho uma relação totalmente saudável com a comida? Não. Em momentos de maior stress e ansiedade os doces tendem a surgir como escape. Ainda me defino pelo corpo que tenho? Não, percebo que sou muito mais. Como sinto que ganhei o controle? Tenho-me informado, inspirado, cuidado de mim, procurado conhecer-me mais. Integrei um grupo terapêutico de comportamento alimentar na Oficina de Psicologia e foi muito útil. Deu-me informações que não tinha ainda tão claras, e percebi claramente que regular e aceitar as minhas emoções é essencial. Foi especialmente inspirador ver diferentes pessoas na mesma sala, com ideias e pesos distintos, mas com o mesmo problema: a relação com a comida. Desabafar com o meu companheiro atual é precioso, recorrer a amigas que sabem deste problema também, mexer-me e suar ajuda muito.

Se eu consegui qualquer pessoa pode conseguir. É um desafio em jeito de caminho, a cada etapa existem novos obstáculos e tentações mas estou decidida a ser feliz nesta vida.

 

outros artigos da psicóloga Filipa Jardim da Silva:

Quando apetece devorar tudo PARE! 

“Não consigo parar de comer.”

Travessias

Filipa Jardim da Silva
Psicóloga Clínica Oficina de Psicologia
2 Comentários
  1. mia says

    Adorei! Felicidades a esta princesa!

  2. Life in Pink says

    Óptima partilha, na qual me revejo imenso – na altura da faculdade ia a pastelarias diferentes, pela necessidade de ingestão de doces, e a vergonha de estar sozinha a comer tudo aquilo. Hoje a relação com a comida é melhor, a psicoterapia ajudou, o desporto ajuda muito, mas nunca será uma relação “normal”. Consegue-se um equilíbrio, mas é preciso lutar todos os dias um bocadinho para o manter.

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