Travessias

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Winnicott, um psicanalista inglês, diz que um dos ingredientes da saúde mental, um sinal de maturidade, é a capacidade de se estar só, a possibilidade de se apreciar a própria companhia.

Hoje, por vezes, considera-se que quem está sozinho fracassou, não se empenhou o suficiente para “refazer a vida”, está a caminhar para uma vida triste. Pessoalmente parece-me que triste será uma vida num modo automático e desligado. Só não significa abandonado ou rejeitado. Talvez ninguém “decida” ficar só propositadamente; podemos ter de abandonar uma relação por já não fazer sentido, podemos não conhecer alguém especial, a vida talvez também nos troque as voltas, as prioridades podem ser outras. Seja como for, a solidão oferece oportunidades; desperta igualmente medos mas proporciona-nos condições únicas para nos olharmos e nos conhecermos melhor, sem mediação externa, só nós e o espelho com o nosso reflexo.

Goste-se ou não, surgem abismos nas nossas vidas que teremos de atravessar para continuar o nosso percurso. A tentativa de evitá-los não nos salva: o que faz é deter-nos à sua beira, deixando-nos paralisados, num modo banho-maria. E a vida não se coaduna com ausência de movimento, o objetivo é avançar mesmo sabendo que, na etapa seguinte, não seremos as mesmas pessoas que éramos na casa de partida. Somos mais vividos, sabemos mais sobre nós, conhecemos mais sobre as dores e duelos das relações humanas e, mais importante, mostramos a nós mesmos que conseguimos sobreviver à angústia de uma perda e à desilusão do fim.

Por entre estas jornadas haverá tempo para amar, para nos separarmos, para nos desiludirmos, para sentirmos que jamais voltaremos a ser capazes de amar e para reaprendermos a amar. Haverá tempo para paralisarmos de medo, para nos assustarmos muito, para sentirmos que sozinhos não conseguimos, quiçá para adoecermos; e depois haverá também tempo para segurarmos nas rédeas da nossa vida, para nos enchermos de coragem, para nos tornarmos independentes e mais saudáveis. Haverá ainda tempo para nos zangarmos, para perguntarmos mil vezes “porquê?”, para culparmos; e depois sobra tempo para perdoarmos, para compreendermos e aceitarmos, para deixarmos o tempo passar por nós.Não é fácil atravessarmos abismos mas temos, do outro lado, a nossa vida à espera. Eu não gosto de abismos mas tenho atravessado os meus. Tenho ainda o privilégio de aprender também em travessias que não são as minhas mas de todos aqueles que me oferecem o lugar de co-piloto nas suas vidas durante uns meses. Aprendi, por isso, que quanto mais cedo ganharmos balanço, mais depressa saímos da dor; quanto mais depressa olharmos em frente, mais cedo ficamos disponíveis para o que nos espera, guardando com respeito o que ficou para trás, mas mergulhando plenamente no aqui e agora.

 

 

 

 

 

 

 

[fotografia: Dreamaker]

1 Comment
  1. Liliana says

    Muito bom! Gostei muito do texto! Identifiquei-me completamente na maioria das frases! É bom sabermos que não somos os unicos a ter medos e inseguranças da forma que é aqui descrita. Bom trabalho, beijinhos

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