Vida Saudável

Mudar de vida, ser feliz: “Os meus primeiros 10 quilómetros.” *

começar a correr

Até ao final do ano passado nunca tinha corrido. Aliás, nunca sequer isso me tinha passado pela cabeça e achava que eram loucos todos os que o faziam. Até que comecei a achar que estava na altura de fazer um pouco por mim e pelo meu corpo. O mesmo que, nos últimos oito anos, me tinha dado três filhos e tinha estado adormecido para qualquer tarefa para além dessa. Em Novembro decidi começar a treinar com um PT que viesse a casa e me obrigasse a levantar o rabo (gordo) do sofá. Daí a apetecer-me começar a correr foi um instante.

Dia 24 de Dezembro, depois de uma conversa inspiradora, passei de não correr mais do que 200m seguidos para correr 3,5 Km sem parar. Senti-me a super mulher. Afinal, eu também conseguia. Durante os meses que se seguiram fui treinando e correndo com alguma regularidade. Corria normalmente 4 ou 5 km. Um dia acordei e decidi que tinha chegado a altura de me tentar superar: resolvi inscrever-me numa corrida de 10 Km que se iria realizar em Junho. Tinha três meses pela frente para me preparar.

Uma semana depois de me ter inscrito nessa corrida de Junho recebo uma mensagem, a uma sexta-feira, a perguntar-me se queria correr 12 quilómetros no domingo seguinte: uma pessoa tinha desistido e havia um dorsal a mais. A primeira reacção foi sorrir e pensar: olha, não se lembrou que eu ainda não corro mais de 5 quilómetros. Mas depois percebi que era a sério. Alguém acreditava que eu era capaz. Mas eu não, aliás estava muito longe de acreditar nisso. Pensei, corro 7, ando 5 e passo um domingo divertido.

Chegou o dia da prova, a hora tinha mudado nessa noite, acordei ainda estava escuro. Estava frio, chovia e eu estava apavorada. Tudo o que tinha pensado ao aceitar o desafio estava muito pouco claro na minha cabeça. Não queria fazer má figura, sentia que ia ser a última a cortar a meta, que ia ficar sozinha. Basicamente sentia que não era capaz. Nesse momento, por pouco não comecei a chorar. Só queria correr mas era para fora daquele filme em que me tinha metido. O meu marido tentou acalmar-me e disse-me que ia comigo, que me acompanhava. Até que o grupo da corrida chegou e tudo mudou. Percebi que não ia correr com o meu marido. Que ia correr com a Catarina, com o Zé e com o Francisco. E nesse instante percebi que ia mesmo ter de correr os 12 quilómetros. Custasse o que custasse.

Da corrida propriamente dita lembro-me de pouco. Lembro-me das palavras da Catarina, logo no início da corrida, quando o nosso corpo ainda não se apercebeu do que lhe está a acontecer e a cabeça ainda não teve tempo de reagir. Lembro-me que me acalmaram o fôlego e me lembraram que aquela sensação passa e que depois dos primeiros quilómetros entramos em velocidade cruzeiro. Lembro-me da corrida ter sido uma festa para os meus companheiros, o que me ajudou a estar entretida e não pensar muito no que estava a acontecer. Lembro-me de ter chegado a metade da corrida e pensar: “já só faltam seis, e seis consegues!”

A partir do sexto, cada quilómetro que corria era festejado como uma vitória. Na subida da Guia, ao quilómetro 8, o corpo começou a dar de si e, sem me aperceber, dei dois passos a caminhar. O Francisco olhou-me nos olhos e implorou-me para não parar. Fui buscar forças não sei onde e continuei a correr. Por volta do quilómetro 10 vejo o Pedro, ao fundo. Ele, que me treina todas as semanas e me tinha metido naquela empreitada. Percebi que já faltava pouco, que estava quase a conseguir. Curiosamente, a presença dele funcionou para mim como a presença dos pais em casa dos avós. E, de repente, ao senti-lo preocupado comigo, fui-me um pouco abaixo, quase me apeteceu fazer uma birra. Tive tonturas e abrandei um pouco.

O último quilómetro foi, sem dúvida nenhuma, o que mais me custou. Não minto ao dizer que me passou pela cabeça desistir quando já só faltavam 200 metros. Finalmente passei a meta. Deixei de ver, de sentir e até de respirar. Chorei descontroladamente. Abracei os meus companheiros de corrida e pensei: Conseguiste miúda!


Carolina Ferreira Storch

nota: a esta data a Carolina já correu uma meia maratona e continua a treinar [ainda vais à maratona!].

 

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Comentários (6)

  • Muito parecido com os meus primeiros 8km, na corrida da ponte 🙂 é, de facto, inesquecível, o final da primeira corrida! Agora é continuar a acreditar que conseguimos ainda mais 🙂

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  • História inspiradora 🙂

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  • <3

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  • Há 4 meses decidi também eu mudar de vida, comecei a ter cuidado com a alimentação, a ir ao ginásio regularmente e a treinar com um PT uma vez por semana. No início de Março pensei "Se tivesse começado antes gostava de me preparar para fazer à mini-maratona da Ponte 25 de Abril.". Tive alguém que acreditou em mim e me ajudou na "preparação": fui correr 2 ou 3 vezes, e o máximo que corri foram 5km, mas decidi ir à minimaratona… A meio achei que não ia aguentar, que as pernas iam desencaixar-se no resto do corpo mas no final consegui correr os 8km (fui enganada: achava que eram menos) e quando cheguei à meta senti algo inexplicável!
    Desde aí continuo o exercício mas não tenho corrido com regularidade, mas ontem desafiaram-me a inscrever-me numa prova de 10km… Não sei se acredito em mim, mas alguém acredita e vou-me esforçar por treinar arduamente nestes 15 dias!
    Eu vou, nem que seja a última a passar a meta!!

    Obrigada por estas histórias e exemplos de superação 🙂

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  • Eu tb nunca gostei de correr. O ano passado no verão ja estava a correr 5km mas depois parei. As desculpas de sempre. Tenho de voltar a correr

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  • Bem adorei a tua historia… como te percebo … eu em abril corri pela primeira vez na minha vida… entre lutar pelos quilos a mais ganhos na faculdade e exames meti a ideia de ir correr para ver como seria… nada como ter alguém em casa que acredita em Nós mais do que nós mesmas naquele momento … corri 6 km de uma só vez, a primeira vez que corri …bem … fiquei doida de sentir que era capaz de tanto.

    A 3ª vez eu corri estava mal pro causa dos exames mega stressada, corri os 6 km …terminei sem conseguir respirar e a chorar…a corrida arranca o stress de dentro de nós… a mente foi 6km inteirinhos a massacrar me para desistir.

    O difícil não é correr, mas sim lutar contra uma mente preguiçosa e doente que nos impede de continuar. Essa é a verdadeira batalha… o corpo corre sozinho…a mente está sempre a dizer para parar , para não ir, Tem sido essa a minha verdadeira luta…

    Corri meia dúzia de vezes e fiquei um verão inteiro sem nada fazer… bem Ontem votei a ganhar coragem e lá fomos nós, corri 7.5 km … afinal somos capazes demais, dormi que nem um bébe…as pernas levaram uma massagem com Voltaren antes de dormir para hoje não acordar com dores.

    Hoje foi dia de caminhada matinal até ao trabalho(5km) e á volta para casa a mesma coisa, Sábado há mais corrida… com o namorado ao lado a lutar contra os meus diabinhos da mente.

    Um dia não precisarei dele para correr..no dia que for correr sozinha os meus kms … ai sim …sei que venci a minha mente, que sou dona de mim mesma!!

    Força a todos … correr andar…seja o que for… desde que seja longe do sofá!

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