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“a culpa de uma agressão nunca é da vítima.”

A culpa de uma agressão nunca é da vítima. Não me interessa que o crime tenha sido cometido por 33 homens. Que tenha sido partilhado nas redes sociais, ou que tenha envolvido armas ou não. Podia ser apenas um homem e com falinhas mansas.

A questão é apenas uma – e é aqui que percebemos que isso dos direitos iguais entre homens e mulheres ainda é uma luta para muitos anos: nenhuma mulher merece ser abusada. E entenda-se que “abusada” pode ser física, ou psicologicamente, com maior ou menor gravidade, porque será sempre igualmente inadmissível.

Uma mulher veste-se como quiser, bebe o álcool que quiser (não estou a falar de saúde), toma as drogas que quiser (mesmo que eu seja contra todas elas). Uma mulher comporta-se como quiser e nunca, repito nunca, está a pedir para ser abusada. E pode até estar a seduzir um homem e a insinuar que o deseja, que quer ter relações sexuais. Se depois de tudo isso lhe disse que não, não é não.

A culpa de uma agressão nunca é da vítima. Simplifiquemos com um exemplo que nos revolte menos as entranhas. Se a minha casa foi roubada porque deixei a porta aberta posso ser esquecida. Mas ninguém tem o direito de entrar no meu espaço, é a minha intimidade.

 

Servem estas palavras, exatamente iguais para mulheres ou homens. Mas a verdade é que nunca vi ninguém dizer que um homem está vestido como um prostituto, ou mesmo a pedir para ser abusado. Ou que “aquele oferecido está mesmo a pedi-las”.

A verdade é esta: existe sempre uma atenuante para estes homens, eles não sentiram uma vontade incontrolável de abusar em conjunto daquela miúda, e nem sequer inventaram um crime. A industria pornográfica continua a ser a imagem das mentalidades, mas também as estimula. Pesquisem. Não existem filmes em que várias mulheres estão a “usar” um homem, não existem filmes em que as mulheres abusam dos homens (com a exceção do sadomasoquismo, em que a mulher abusa porque o homem pagou, ou pediu explicitamente para isso — gostos são gostos), não existem filmes em que o sexo é agressivo para as mulheres que estão sempre em posição de submissão.

Não! Não é normal! Não é assim que as coisas acontecem no mundo real, não é disso que as mulheres gostam e nem sequer acredito que seja isso que dá prazer a um homem. A mudança das mentalidades também pode começar por aí.

Crónica Dinheiro Vivo

Comentários (12)

  • Disseste tudo Catarina. Estou absolutamente de acordo.

    Bjs

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  • Um texto que resume em muito este problema. Só acrescentaria uma nota, é que nestas situações muitas vezes as mulheres não são amigas das mulheres. São elas proprias que acusam as outras de oferecidas e, situações há, em que são capazes de dizer que estavam a pedir, “a vestir-se assim” ou a “agir assim”. Muito tem de mudar na visão que os homens (alguns) têm das mulheres, mas muito tem de mudar na forma como as próprias mulheres se defendem umas às outras. Em resumo é uma mudança social que nos inclui a todos. E sim, pelo que vemos, ainda vai demorar tempo.
    Beijinho

    http://embuscadafelicidade.blogs.sapo.pt/

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  • Concordo com a Catarina, é mesmo isso. E também concordo com a Cátia 🙂

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  • Este texto diz tudo na perfeição e é preciso mesmo mudar a mentalidade deste mundo. A professora das minhas filhas aconselhou as meninas da turma (4º ano) a não levarem calções curtos para a escola porque isso significava que estavam a dizer aos rapazes que queriam “algo mais”… E é esta a sociedade em que vivemos! Fiquei tão irritada, tão revoltada… Tive de explicar que isso é tão, mas tão errado e que alguém com tanta responsabilidade na vida dos nossos filhos não pode passar esse tipo de preconceitos. Agora vou ter uma “batalha” pois as miúdas estão com vergonha de usar calções… Têm dez anos caramba. Tivessem 20 anos, isto não se faz. Têm de vestir o que quiserem, conforme se sentirem confortáveis e isso não dá o direito a ninguém de associar intenções depravadas à indumentária….

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  • Tens toda a razão Catarina, mas infelizmente a campanha mundial que se formou, escolheu a vitima errada para protagonista. Quem for ver as entrevistas que a miúda tem dado, percebe claramente que ali não houve violação nenhuma. Porque nenhuma mulher violada, no dia seguinte, volta ao local da violação para ir buscar o telemóvel. Nenhuma vitima de violação, ao fim de poucos dias, quer voltar à favela e ir de novo aos “bailes” (dito pela própria mãe numa das entrevistas). Nenhuma vitima de violação dá ‘n’ entrevistas a falar sobre o assunto, tão pouco tempo depois e com a calma com que ela fala, numa das entrevistas até goza com algo que a mãe diz, e começa a rir-se. Para não falar que em cada entrevista diz uma coisa diferente. Que há coisas que ela conta que são impossíveis de ser verdade. Enfim… Ela tem todo o direito de ter sexo com quantos homens quiser, isso não está em causa, eu não julgo ninguém por isso, e não é isso que faz dela menos vitima, mas a história não está bem contada e parece tudo menos verdade, e isso só é prejudicial. Uma história assim só serve para descredibilizar as verdadeiras vitimas, que durante muito tempo vão ser comparadas a esta.

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  • Sempre a surpreender. Exactamente tudo isso.
    Mas a maioria das pessoas (não todas) vivem numa (ir)realidade. Não sei se é mais assustador viver nisso ou saber que existem pessoas que vivem isso.
    Que existam mais pessoas a pensar e quem não pense que reflicta sobre estas palavras.
    Obrigada por ser assim realista.
    : )

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  • […] a culpa de uma agressão nunca é da vítima, escrevi eu há algum tempo. mas a culpa que esta mentalidade subsista é um bocadinho de todos nós. e é urgente mudar. […]

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  • […] Porque a culpa da agressão nunca é da vítima. […]

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  • […] abuso de poder sobre mulheres? Sempre. O mesmo sobre homens? Também. Já escrevi sobre isso:  “a culpa de uma agressão nunca é da vítima.” Nunca! E não tenho qualquer dúvida que a mudança passa pela […]

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  • […] Eu sei que não devia ver os vídeos que aparecem. Eu sei que devia desviar os olhar quando as imagens passam na televisão. Mas hoje não aguentei. Estou agoniada desde que vi aquela mulher (grávida), deitada no chão, com a cara tapada, naquele pânico silencioso, depois de ter sido (mais uma vez) espancada por uma besta. Não questiono porque está com aquela besta. Já passei por isso. Já apanhei e achei que era culpada. Já desculpei, uma, duas, três vezes. Era uma miúda. Cresci sem qualquer exemplo de violência. E aceitei. Até ao dia em que consegui libertar-me e ver as coisas como realmente eram. Estou agoniada porque imagino a dor, mais do que a física, conheço a dor da vergonha, da humilhação, das dúvidas, do medo. Eu sei que devia ter desviado o olhar, mas às vezes é preciso olhar e falar. Para que nenhuma outra mulher (ou homem) aceite. Porque “a culpa de uma agressão nunca é da vítima.”. […]

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  • […] É óbvio que uma mulher violada é tratada desta forma porque o preconceito leva alguém a acreditar que teve responsabilidade naquele acto que lhe destruiu a vida. A culpa de uma agressão nunca é da vítima.  […]

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  • […] és vítima de violência pede ajuda. Não estás sozinha, não és a única, não és culpada, não […]

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