Vida Saudável

Educação física tem que ser uma prioridade! Escreve quem aprendeu a saltar à corda aos 35 anos

educação física

Um relatório do Instituto de Avaliação Educativa divulgou dados diz que “um terço dos alunos do 2.º ano que fizeram a prova de Expressões Físico-Motoras no ano passado teve dificuldade em participar num jogo de grupo, 46% não conseguiram dar seis saltos consecutivos à corda e 40% não conseguem dar uma cambalhota para a frente mantendo a direcção e levantando-se de pés juntos”. Dizem que a educação física não é uma prioridade na escola pública.

Eu acrescento, continua a não ser uma prioridade. Nem no primeiro ciclo nem em ciclo nenhum…

Venho por este meio contar, a quem ainda não saiba, que tinha 35 anos quando aprendi a saltar à corda e a dar uma cambalhota decente (obrigada ao meu treinador Mikael), tinha 39 anos quando fiz o pino (obrigada ao Pedro Pereira). E aos 40 anos ainda faço as pazes todos os dias com o exercício físico (e ganho anos de vida e amor próprio em cada treino).

A memória que guardo das aulas de educação física a partir do 6º ano são a base de muitos dos meus traumas e dores. Na verdade, no meu tempo, a educação física começava no quinto ano mas tive a imensa sorte de, nesse ano, ter um professor muito especial, o Prof. Octávio, na escola António da Costa, que fazia exactamente o contrário de tudo aquilo que me vou queixar já a seguir (foi quem me deixou o gosto pela corrida).

Voltemos ao meu 6º ano. Regressemos aos anos dolorosos.. Voltemos às aulas de educação física, esse espaço potencial de bullying agravado.

Eu não era uma miúda com jeito para desportos com bola, nem ginástica, nem dança. Assim talento natural não tinha (nem tenho) para nenhum desporto. O foco nos desportos colectivos levavam-me a uma sensação de rejeição e falha perante o grupo. Coitada da equipa que tinha de levar com a minha falta de jeito. Os professores reforçavam esse fosso entre aqueles que tinham um jeito natural para os desportos e os que não tinham jeito nenhum. Eu, que até era uma miúda com um excelente relação social na escola, vivia aterrorizada com as aquelas aulas. E fui, devagarinho, achando que era incapaz, questionando as minhas capacidades, escondendo-me do desporto. Afastando-me dessa sensação de incapaz de que me queria proteger.

Às vezes brincamos com isso mas vocês percebem que há poucas sensação tão desesperantes como não ser escolhida para uma equipa. Entendem o drama dessa metáfora numa adolescência?

 

Aquilo que é urgente não é avaliar a perfeição das cambalhotas ou ou a quantidade dos saltos à corda. É preciso investir na confiança e amor próprio. 

É urgente investir na Educação Física. E nquanto um espaço e tempo fundamental para promover a actividade física mas também a inclusão e o amor próprio. É urgente investir na Educação Física desde o pré escolar com espaço para experimentar vários movimentos e modalidades. Individuais e colectivas.

É urgente investir para que no primeiro ciclo todas as crianças possam aprender. Com mais ou menos jeito, coisas tão importantes como saltar à corda, fazer a cambalhota e apanhar uma bola sem medo. Mas também dançar ou correr sem vergonha.

É urgente investir num modelo de avaliação que considere a evolução de cada um e não o seu talento natural que deve, também, ser premiado. Um professor de educação física é muito mais do que isso. É um coach. É alguém que será fundamental para a confiança de uma criança.

 

Educação Física não é só fazer desporto, é promover hábitos de vida saudáveis e a construção do amor próprio. E agora vou sossegar a adolescente traumatizada com aquelas aulas de volei porque este assunto deixou a um bocadinho afectada.

 

Sim, os pais também têm influência nisto da educação física mas isso deixo para outro post. Aqui falávamos de educação na escola.

 

Comentários (10)

  • Revejo-me tal e qual neste POST.
    Nas aulas de educção física eram feitas equipas e o “capitão” de cada um delas ia chamando os elementos que queria, eu era das últimas a ser chamada. Motivação Zero
    Os professores viam isto como normal e portanto desporto era algo que eu achava que não gostava e não tinha jeito. Ainda hoje…
    Assim era a saúde escolar dos desportos. Como querem que as crianças crescam a gostar de desporto se na escola nada é feito para as motivar, para encontrar algo em que elas são boas. Podem ser más no basquet e ótimas na corrida…
    Acho que não houve melhorias para os dias de hoje, a ver vamos quando os meus chegarem ao 5 ano.

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  • Tão isto!… a última a ser escolhida para as equipas…de óculos ,muito magra e toda desengonçada…nem no que dia em que consegui marcar um cesto basquete achei que era pura sorte e não aptidão…amor próprio lá em baixo…

    Agora aos 44, viciada nas corridinhas e a preparar-me para a minha primeira maratona, no ginásio a fazer reforço muscular sempre que a vida deixa…com amor próprio lá em cima:)

    …como explico isto tudo a um filho com 16anos que tinha tudo para ser bom em ed Fisica, excepto o que herdou do meu “desengonçado” e o convenço a aproveitar o que de bom nos faz á cabeça o exercício fisico????

    bj

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  • […] Venho por este meio contar, a quem ainda não saiba, … Ver artigo completo no Blog […]

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  • Tal e qual!!! Sempre a última a ser escolhida para as equipas… sempre detestei desportos coletivos! As únicas aulas que achava piada eram as de ginástica desportiva (as cambalhotas, traves e afins…) e as de corrida pura e dura (sem estafetas, que odiava… lá está a equipa!), mas eram raras essas aulas, sempre os desportos coletivos em destaque!!
    Cheguei a perguntar ao meu médico se me podia passar uma declaração para ficar dispensada das aulas de educação física, que ele recusou!!!
    Hoje o meu filho mais velho passa quase pelo mesmo, infelizmente herdou a falta de jeito para o desporto da mãezinha dele e as aulas de educação física não mudaram em nada!

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  • A culpa é sempre da escola. Tenham dó. Sou professora, não sou de EF. Vejam quantos atestados são entregues para os meninos não fazerem a aula. Os pais é que devem de educar, motivar. Mas estes pais de hoje vão para o restaurante com crianças e a primeira coisa que fazem é espetar-lhes com um telemóvel ou tablet à frente. Assim não chateiam e os papás comem descansados. Quando saem da escola têm esplicações a tudo e mais um par de botas. Não sabem andar sózinhos, não sabem tomar banho, não mexem numa faca. Aquecer algo no fogão, ai Jesus e por aí fora. E se isto não parece ter nada a ver, tem e muito. Na escola não se podem cansar, logo aparecem os atestados que atestam tudo e mais alguma coisa, ou os recados na caderneta com desculpas tristes. Se o professor chama a criança à atenção, no dia a seguir lá estão os papás muito indignados a fazerem queixa na direção e posteriormente ao ministério.
    Acordem papás, deixem os vossos filhos brincarem, sujarem-se, rasgarem a roupa, esfolar os joelhos. Deixem-nas dar uns pontapés numa bola, mexer na terra. Eles têm que aprender a crescer e têm que saber que não podem viver num redoma de vidro. Quando vejo pais a darem gadgets às crianças no restaurante só me apetece dar-lhes um valente par de estalos. As refeições devem ser alturas em que o diálogo, a brincadeira, o convívio estreitassem laços entre a família. Mesmo com crianças que ainda não falem, deve-se estimular, sorrir, brincar. Mas, claro, é muito mais fácil espetar-lhes com a porcaria do tablet à frente.
    Parem de uma vez por todas de pôr a culpa na Escola e nos professores que muitas vezes fazem das tripas coração e até trazem material de casa ou o compram para tentar incentivar os alunos.

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    • Maria, Maria
      O comentário era da educação física à 20 atrás… Acho que está na mesma. Que fizeram os meus professores para me motivarem? ZERO. Mas atenção não guardo mágoa deles, apenas nunca gostei de desporto e em parte por causa da escola.

      Mas mesmo não gostando, nunca faltei às aulas. Os meus pais nunca me arranjaram um atestado. Na minha altura não havia os gadgets tecnológicos que há hoje. TV só ao fim de semana de manhã. Fui muito feliz a correr no campo, a apanhar caracóis, a andar de biclicleta, a fazer bolos com a minha mãe.

      Os dias de hoje, os meus filhos…
      Vêem pouca TV, usam pouco o TLM e o Tablet. Lemos muito e fazemos muitas atividades em casa, desde pinturas, trabalhos manuais, jardinagem. Andamos muito na rua, fazemos caminhadas, vamos muito à praia e a parques, passeamos muito pelo país.
      Na escola tem ginástica (um), judo (outro), com os pais piscina e equitação..

      Sabem cozer com agulha, ajudar nas tarefas domésticas…

      Quando saiem da escola e bom o tempo permite vamos andar de bicicleta, ao parque, etc…

      É notário a falta de capacidade física nas crianças e por isso tento que não aconteça aos meus.!

      Agora o que é que isto tem haver com as nossas aulas de educação física?

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    • E diz que é professora?

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  • Completamente de acordo! Para mim a educação física no liceu era um terror, aulas à chuva, balneários horríveis… eu não tinha jeito nenhum, identifico-me completamente com o post e só descobri o gosto pelo exercício em aulas de grupo pré parto, pós parto e mantive esse gosto e faço agora aulas de grupo num ginásio. Tenho 40 anos, 3 filhos e a minha relação com o peso e o corpo, principalmente na adolescência, nem sempre foi fácil… Casei com um desportista e costumo brincar que ainda bem que os meus filhos saem ao pai e que têm gosto e jeito para o desporto, mas o que eles têm é mesmo uns pais que saem de casa com eles, que os levam a subir às árvores, que os levam para o jardim. Eu mal sei andar de bicicleta, que quando éramos pequenas não podíamos sujar os vestidos… Na escola do meu filho mais velho, em Lisboa, têm boas aulas de educação física, mas no espaço de recreio é uma miséria e nem à bola podem jogar – e têm 2 horas de almoço – para não se magoarem! E quanto menos se exercitam, menos aptos ficam…

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  • Olá Catarina,

    Tenho 37 anos e concordo com algumas coisas que referes mas não com todas, confesso. A minha primária, em Almada, numa escola pública, não teve qualquer atividade extra salvo a letiva. Mas os meus pais sempre me inscreveram na ginástica infantil (onde aprendi a dar as tais cambalhotas, pinos e afins)- e não eram abonados, simplesmente achavam importante que eu, como criança, tivesse uma atividade física incorporada na minha rotina. Depois fui para a António da Costa onde o(maravilhoso) Prof. Otávio nos incentivou muito para a prática desportiva. Nessa altura o meus pais passaram-me para a natação (na Lisnave) porque achavam que eu tinha de aprender a nadar bem, era uma questão de segurança. Quando cheguei ao 7ºano, na Emídio Navarro, já ia com alguma bagagem de atividade física incentivada pelos meus pais e, como não achava que as aulas de educação física contribuíssem muito para a minha evolução física, passei a frequentar o Ginásio Clube do Sul onde fazia dança jazz, que depois se tornou em aeróbica, step e spinning e todos os afins e modas que vieram desde então. Hoje corro meias-maratonas e estou a treinar para a minha primeira maratona no próximo ano. Portanto, a conclusão a que chego é que sim a escola pode fazer mais. Mas os pais também.

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  • Bom dia,
    Li o texto e todos os comentários com muita atenção.
    Os professores ficam exaltados pois consideram-se atacados, há quem defenda que os pais foram imprescindíveis pelo seu gosto pela educação física… Eu vou falar-vos da experiência cá de casa.
    Concordo em tudo com o texto da Catarina.
    Tenho duas filhas, vivem na mesma casa, com os mesmos país, com as mesmas oportunidades.
    Uma é atleta de competição a outra não pode ver desporto à frente.
    Até há um ano estavam as duas na mesma escola e ambas têm a mesma opinião. As aulas de educação física são péssimas. E estamos a falar de um colégio. A professora apenas valoriza e dá boas notas aos supra-sumos do desporto.
    A que é atleta de competição (vai a campeonatos nacionais de primeira divisão e a taças internacionais), mudou de escola (agora está na pública) e as aulas são óptimas. Fazem dança, experimentam de tudo, o professor “puxa” por todos, não admite gozos e bocas, e tão depressa estão a jogar volei como estão a dançar danças de salão.
    A minha outra filha sofre horrores nas aulas e ganhou uma aversão imensa ao desporto (apesar de não ser atleta sempre praticou desporto, mesmo mudando de actividade todos os anos. Agora nem quer ouvir falar em desporto). É gozada pelos colegas em conivência com a professora, esta não valoriza minimamente o esforço dela (mesmo com dores de barriga, dores de cabeça ela faz a aula), já aconteceu esquecer-se de levar o equipamento e desenrascou um com as colegas para não deixar de fazer a aula e a nota dela nunca passa de um 3. Ela que precisa de ter uma boa média para o próximo ano e está a ser tranada pela educação física, ou melhor pela forma como estas aulas são feitas, estão pensadas e construídas. Porque eu concordo com a disciplina mas não com a forma como é dada.
    E sim, as minhas filhas trepam às árvores desde pequenas, comem sozinhas, estudam sozinhas e não têm país que vão à escola reclamar dos e com os professores (apesar desta bem merecer).
    Como diz a minha filha, passo a citar “ninguém é gozado por ter má nota a matemática mas é infinitamente gozado e posto de parte por não conseguir encestar ou marcar golo”… Isto tem de ser revisto. Os professores não podem continuar a alimentar este bullying.
    Fico triste e preocupada pela minha filha. O desporto faz-lhe falta. Ela é uma menina de 14 anos que está a sofrer com o seu corpo, com a não aceitação do grupo e muito graças à educação física (mostrei-lhe o post da Catarina no Instagram e ela disse: É mesmo isto, mãe!). Fora destas aulas dá-se muito bem com as meninas, é aceite é chamada para todas as festas, com os rapazes não. Eles não perdoam o facto dela não ser boa a educação física e gozam-na tornando difícil o convívio nos recreios. Este ano muda de escola. Espero que na nova escola o método seja outro, que os professores sejam melhores e mais humanos e que, efectivamente, eduquem para a educação física e não para o desporto.
    Um abraço

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