Maternidade

Aleitamento materno: a minha história (que no fundo são três)

aleitamento materno

Estamos na semana do Aleitamento materno, sabiam? E porque é que isso é importante? Porque é mais um momento para repetir como o leite materno é o melhor alimento do mundo, tanto a nível nutricional como em termos de segurança. Importa repetir igualmente que, apesar do forte vinculo que o momento da amamentação permite, isso não define uma mãe. É importante conhecer as inegáveis qualidades, é importante existirem condições e acompanhamento para que as mãe possam dar de mamar mas, em última instância, é uma decisão íntima. Costumo dizer que entendo uma mulher que afirma não querer amamentar mas não gosto quando afirmam que o leite adaptado é igual ao leite materno (não é, apesar de dar resposta às necessidades).

Quem conhece a minha forma de estar em relação à amamentação (aquela coisa da Catarina sempre com a mama de fora) não acreditará que, antes de ser mãe, afirmava que nunca iria dar de mamar. Tive pesadelos horríveis. Com 24 anos, grávida do Gonçalo, sem grande informação, e apenas a memórias das fotos em que estou a mamar, decidi não pensar no assunto. Logo se via.

Naquela madrugada, do dia 14 de Dezembro de 2002, em que nasci como mãe, puseram-me o Gonçalo a mamar. E ele, como se soubesse exactamente o que fazer, ali ficou. A sensação física era completamente diferente daquilo que imaginara. Doía mas era assim algo mamífero, calmo e natural. Na verdade viria a descobrir que era o tal botão do off que o acalmava sempre. Aos 24 anos e perante um primeiro filho fui permeável a todos os comentários. “Não dorme porque mama.” “Chora porque mama.” “Estás muito cansada porque o bebé mama.” Eu acreditei. Nem sei responder quanto tempo o Gonçalo mamou mas terá sido pouco mais de um ano. Fizemos um desmame violento e o Gonçalo continuou a dormir mal e eu continuei a estar cansada.

Quando fiquei grávida do Afonso, por força de todas as circunstâncias, agarrei-me a única certeza: não queria saber dos que os outros diziam. Era a única certeza que tinha. As seguranças fui construindo. O início foi muito fácil, os oito meses duríssimos. Duvidei muitas vezes de mim e das minhas opções. Chorei muitas noites enquanto dava de mamar. Exausta, a tentar não culpa a mama. Senti-me muito sozinha, muitas vezes. O Afonso mamou até aos três anos e meio. Conto isto a muitas mães em processos de separação com filhos pequenos: o Afonso já passava noites em casa do pai e sempre continuou a mamar. Pedia assim que chegava. Numas férias do Natal voltou e não pediu. Eu fechei-me na cozinha, chorei uns segundos e agradeci. O meu maior apoio nesta história com três anos e meio foi o Gonçalo, o irmão que respondia por mim a todas as pessoas que nos olhavam de lado: “ainda mama?” O Afonso lembra-se das últimas vezes que mamou e conta-o de forma doce.

Passados 5 anos, com Maria Luiza na barriga, comentavam: “que fazes se o Afonso pedir mama?” Eu pensava que raio de ideia, o desmame tinha sido natural, porque pediria? Não pediu. E perante o chorou da irmã dizia sempre “ela quer maminha mãe, eu sei”, “maminha resolve tudo!”.

Fui mãe solteira duas vezes, em idades e cenários completamente diferentes. Desta vez fui mãe numa relação e reconheço a importância do pai nesta história de amor que é a amamentação. Talvez não como escrevem nos guias da gravidez. Acredito profundamente que o pai tem que encontrar vínculos – com o bebé e a mãe – sem culpar a amamentação. O pai não dá mama mas o pai faz as coisas tão bem como a mãe. A mama (e a mãe) sabem calar o bebé mas o pai sem mama também sabe. Eu sei que as hormonas são lixadas mas é preciso que a mãe deixe espaço para o pai ser pai (sem mamas). Assim serão dois a responder a quem perguntar “ainda mama?”.

Maria Luiza deixará de mamar quando quiser (ou quando eu decidir se me fartar primeiro que ela).

Já deixei algumas dicas para que o aleitamento materno (que às vezes é fácil mas também pode ser dramático) corra o melhor possível (podem ler aqui). Se tiver que deixar apenas uma: respirem fundo. Não há metas, nem prazos, nem dar de mamar define uma mãe. Mas acreditem que somos mamíferas, capazes para os nossos bebés, muito mais fortes do que imaginemos. Respirem fundo e tentem.

 

Estamos na semana do Aleitamento Materno e, como vos dizia, existe a vontade de uma mãe mas é preciso tudo o resto. Independentemente de ocorrer numa cabana de uma aldeia rural ou num hospital de uma grande cidade, colocar os recém-nascidos no peito da mãe durante a primeira hora após o nascimento dá-lhes a maiores oportunidades de sobreviverem, crescerem e de desenvolverem todo o seu potencial. Estes benefícios tornam o início da amamentação uma medida fundamental dos cuidados essenciais para o recém-nascido no Plano de Ação para Todos os Recém-Nascidos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a UNICEF recomendam que as crianças iniciem a amamentação na primeira hora de vida e que sejam alimentados via amamentação exclusiva durante os primeiros seis meses de vida. A partir dos 6 meses, as crianças devem começar a ingerir alimentos complementares seguros e adequados, continuando a amamentar por até dois anos e mais. Segundo o documento da UNICEF “Capture the Moment: Early Initiation of breasteding: The best start for every newborn” amamentar imediatamente após o nascimento da criança aumenta as hipóteses destas aderirem à mama.

Melhorar as condições para que o aleitamento materno seja possível podia salvar mais de 800 mil crianças, com menos de cinco anos, todos os anos. Não é por acaso que se diz que o leite materno é o melhor alimento do mundo: tem todos os nutrientes essenciais para os bebés crescerem de forma saudável, melhorando o desenvolvimento do cérebro e fornecendo armas para se proteger contra o excesso de peso e obesidade. Para as mães também há vantagens: diminuem a probabilidade de ter cancro nos ovários, na mama ou diabetes tipo dois. Neste momento, apesar de apenas 42% dos bebés mamarem no tempo estipulado, os números são melhores do que em 2005.

 

Que o aleitamento materno seja uma liberdade da mãe, e não uma prisão. O melhor para o bebé será sempre.

 

Na foto é a minha mãe. e nunca é demais dizer-vos para irem ver este projecto: Loove.

Comentários (1)

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