Maternidade

O pai faz as coisas tão bem como a mãe?

O pai faz as coisas tão bem como a mãe

No sábado à noite fui ver o filme Tully. Tinha visto a apresentação e acreditei que iria ver uma metáfora à dureza da maternidade (isso a que chamam comédia dramática e não faço ideia do que seja). Não há nada de cómico neste filme.

Quando procurava o link deparei-me com esta crítica. É óbvio que este homem não faz ideia do que seja uma depressão pós parto ou a privação de sono ou não lhe chamaria um “drama psicológico, suave e cheio de implicações geracionais”.

É mais do que um drama psicológico “suave”. E é transversal a todas as mães que perceberão que o corpo de Charlize Theron não tem “uns quilos extra” mas sim as transformações brutais de uma gravidez.

Não vos conto mais porque quero que vejam o filme. E se puderem façam-se acompanhar pelos pais das crianças (ou dos bebés).

Mas sem pormenores relativamente à história trago um dos maiores problemas do pós parto: a partilha das responsabilidades deste novo ser com o pai.

Quantas mulheres com quem converso, cansadas, “afogadas” na maternidade, a quem proponho “mas deixe o bebé com o pai e respire”, me dizem: “mas o pai não sabe fazer” ou “o pai não faz tão bem”.

O pai faz as coisas tão bem como a mãe?

Faz sim. Faz diferente mas faz bem. Desde que tenha oportunidade para isso.

É óbvio que ninguém nasce ensinado e as mães levam a vantagem (ou o problema, mas já lá vamos) das hormonas que andaram a aprimorar o instinto durante cerca de nove meses. Mas o pai fará igualmente bem, ainda que diferente, desde que lhe seja dada oportunidade para isso. E sim, muitas vezes a oportunidade tem que nascer de uma obrigação.

As hormonas, o raio das hormonas, trazem um lado animal que muitas mulheres afirmam “nunca serei assim” até passarem por isso. É um raio de sensação em que parece que o mundo acaba se largarmos a pequena criatura que acabámos de parir. Como se fossemos animais em vez de mulheres racionais. Em que precisamos urgentemente de respirar e parece que não conseguimos. Em que estamos exaustas e não nos deixamos descansar.

É nessa fase que as mulheres acabam por colocar os pais em segundo plano nas suas funções e obrigações. Por sentirem que eles não são capazes, tornam-nos incapazes. O pai faz as coisas tão bem como a mãe?

“Mas ele não quer ajudar.” Primeiro um pai não ajuda, faz. E segundo, fará muito pouco se nós não largarmos as crianças.

Entreguem os 50% de responsabilidade e saiam de casa. Nem que seja apenas para respirar no sentido literal e simples do verbo. Deixem-nos perceber que sabem fazer, mesmo que diferente, igualmente bem. Deixem-nos ter oportunidade de sentir as hormonas a aprimorar o instinto. Deixem-nos ser animais nisto da criação de um pequeno ser.

Arranjem as estratégias que funcionarem na vossa família.

Eu sei que as regras do jogo, as licenças e o mercado de trabalho, não ajudam. Mas vamos fazendo o que podemos com as coisas assim. E aceitar que o pai faz as coisas tão bem como a mãe (mesmo que diferente).

 

[Ressalvam-se as excepções. Há pais que fazem tudo mal. E mães também. Mas eu diria que esses não são pais nem mães.]

 

Comentários (9)

  • Sei tão bem o que isso é. Ser esse animal que pensa que os outros não sabem nada!

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  • […] É mais do que um drama psicológico “suave”. E é transversal a todas as mães … Ver artigo completo no Blog […]

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  • Ainda não vi o filme (quero muito ver) mas, felizmente, não me identifico com as mães que acreditam que os pais não fazem as coisas tão bem. Percebo mas não me identifico.
    Talvez por nunca ter tido grande instinto maternal, quando eu e o meu namorado decidimos ter filhos, foi mesmo um projeto a dois em absolutamente tudo, menos na amamentação. Hoje, vamos a caminho do terceiro filho em 5 anos (temos duas meninas de 4 e 2 anos e um menino quase a chegar) não temos uma rede de apoio, e fazemos tudo em equipa. E, se calhar por ser bastante otimista, acho que até corre muito bem. Mesmo nos dias de birras incontroláveis e de cansaço extremo. 😀 Ajudou muito o pai ter mudado o rumo profissional para ter mais tempo para as crianças.
    As crianças ficam tão bem com um como com o outro e o pai faz mesmo tudo o que a mãe faz. As diferenças entre nós devem-se apenas à personalidade.
    Escrevi sobre as características dos pais de hoje (que acredito que vão cada vez mais no sentido de formarem uma boa equipa com as mães) com foco no pai cá de casa, aqui: http://www.vinilepurpurina.com/os-pais-de-hoje-385299

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  • Catarina, tive pré-eclâmpsia seguida de uma depressão pós-parto não imediatamente assumida (por mim, bem entendido). Eramos ambos pais de primeira água, sem qualquer experiência. O meu marido nem era particularmente ligado a crianças. Todavia, posso afirmar sem filtros que foi pai e mãe nos primeiros meses. Enquanto eu tentava desesperadamente (re)encontrar-me, ele tratava do nosso filho, que sossegava muito mais nos seus braços, do que nos meus. Não houve preparação, nem negócio. Simplesmente aconteceu assim. Ainda que me vá doer para o resto da vida não ter sido a mãe que gostaria, nos primeiros meses, enche-me de orgulho e de emoção a relação que eles os dois criaram, mantêm e alimentam.

    Quanto ao filme, que também fui ver, creio que a classificação advém do humor que nasce da vivência de situações desesperadas. No entanto, o relevante, quanto a mim, é o caminho de auto-superação durante o processo.

    Obrigada por me fazeres reflectir.
    Um beijo,
    Marta

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  • Eu tive uma depressão pós-parto. O primeiro ano de vida da minha filha foi muito duro. Foram duros os primeiros meses até ter o diagnóstico e começar o tratamento. E os meses seguintes foram duros, porque eu estava a fazer um tratamento, ao mesmo tempo que voltava ao trabalho, que cuidava da minha filha bebé e da casa, e de todas aquelas que são as responsabilidades de um adulto. O apoio do meu marido foi fundamental. Ele foi o colo, a segurança emocional para a minha filha quando eu estava incapaz de ser mãe. Ele foi as mãos que cuidaram dela quando eu precisava ir a consultas, à terapia, ou simplesmente para sair, para respirar. Eu tive esse espaço porque ele estava lá. E entre eles criou-se uma relação de cumplicidade maravilhosa. É comovente olhar e ver a doçura, a ternura que existe entre eles 🙂

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  • Adoro o texto!!
    Quero muito ver esse filme, mas só está nas Amoreiras? 😕

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  • A maior parte das mulheres que se queixa de que os maridos não as ajudam em casa não podem culpar ninguém além delas próprias.
    Conheço várias que não delegam nada, não partilham nada e quando se lhes pergunta “mas porque é que não dizes ao teu marido para pôr a loiça na máquina?” ou “porque é que não vens jantar connosco e deixas o bebé com oteu marido” ? ficam a olhar para mim com um ar horrorizado, como se deixar estas tarefas para o homem que escolheram para viver fosse a pior solução possivel e potencial causadora de ferimentos graves na criança. Homens cujas mulheres se comportam assim, como é óbvio, desistem. Desistem porque estão constamente a ouvir “não é assim que se põe a loiça na máquina ” , “não podes preparar o biberon dessa forma” , “a sopa não está bem passada”. Eu se fosse homem e estivesse constantemente a ser chamado à atenção também deixaria de fazer, porque é impossivel agradar a pessoas assim. Fala-se muito em feminismo e emancipação, mas este tipo de mulher é injusta para com os homens e pior, injusta para com o bebé.

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    • Sara, concordo plenamente.

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