Dieta das Princesas

“Amamentar é um estranho equilíbrio entre amor e dor.”

o A. mamou até aos três anos e meio. já mamava muito pouco quando, depois de uns dias com o pai, não voltou a pedir. houve momentos de muito cansaço mas nunca de desconforto. se tivesse sentido que não aguentava mais teria sido eu a tomar essa decisão. acabou por ser o A. e fiquei feliz por isso. o A. passava fins-de-semana e férias com o pai desde os 12 meses e sempre manteve a amamentação. longe de mim nem se lembrava, assim que me via pedia. foi um processo sereno mas um equilíbrio difícil como quase tudo nisto de ser mãe. agora, quase a receber esta miúda nos meus braços recordo o que escrevi quando o A. tinha quase dois anos.

 

Quando olho para os momentos que o Tiago tornou eternos sei que estava muito feliz e muito cansada. Ser mãe é isso. Felicidade e cansaço. Amamentar é também esse estranho equilíbrio entre amor e dor. Com o Afonso dar mama tem sido quase sempre muito fácil. Muito sereno. Muito doce. Escrevo “quase” porque em dois momentos apeteceu-me ter um plano b (que nunca ponho em cima da mesa): aos 8 meses quando, depois da amamentação exclusiva terminar, as hormonas da felicidade foram embora, senti-me exausta e achei que a culpa de todas as noites mal dormidas era da mama. Respirei fundo e passou.

Para escrever sobre o cansaço, é preciso estar igualmente cansada. Assumir os momentos em que o nosso maior amor é a causa das nossas dores, é difícil. Para mim, é difícil. Neste momento, em que escrevo, estou tão cansada como naqueles instantes que o Tiago tornou eternos, em passeio por Lisboa. Sei que depois de escrever, logo a seguir, penso em tudo o que tenho e que me compensa o cansaço que sinto. Mas há momentos em que não consigo apagar as saudades que tenho de não fazer nada, mesmo nada, de não ter nenhuma preocupação, ou responsabilidade. Viajar, jantar fora e beber uma garrafa de vinho. Adormecer na praia depois de ler um livro inteiro. Fazer quilómetros infinitos só para ver um lugar. Acordar sem pressa e ler todas as revistas. Devia ser nisso que estava a pensar quando o Tiago guardou para sempre aquele instante em que se vê o meu cansaço.

Quando o cansaço alivia, ou quando o verbalizo, penso apenas na sorte que tenho em ser mãe a tempo inteiro. Penso também nas saudades que vou ter destes momentos de intimidade absoluta. Penso nesta busca por um equilíbrio em que o cansaço nunca seja demasiado, nem me tire o prazer absoluto que sinto em ser mãe.

Amamentar é um estranho equilíbrio entre amor e dor. Mas, dizem, que o amor quando é a sério, vence sempre.

Catarina Beato
2 de Julho de 2013

 

 

fotos de Tiago Figueiredo no projecto Loove

Comentários (11)

  • Amamentar é maravilhoso, cansativo, arrebatador, sereno!

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  • Eu nunca pensei em amamentar.
    Confesso que ficava embaraçada quando via uma mãe a amamentar em público, não achava mal nem nada disso (como podia?) mas não me sentia à vontade. Por isso nunca me imaginei a amamentar, parecia-me mesmo algo estranho.
    Depois, aos 30, fui mãe pela primeira vez e, depois de muitas pesquisas sobre os benefícios da amamentação, decidi que queria tentar. Foi mesmo muito difícil e doloroso (explico tudo aqui: http://goo.gl/Cpaza4) mas, passado um mês e meio, transformou-se numa das experiências mais bonitas da minha vida como mãe. Quando, aos 18 meses, a minha filha deixou de querer mamar senti uma tristeza muito grande… Fiquei desolada.
    Engravidei logo a seguir a ela ter deixado de mamar e estou a amamentar novamente a minha bebé de um mês, desta vez com muito menos dor (viva a experiência) e, amamentarei até ela querer, seja aos 18 meses, aos 2 ou aos 3 anos.
    Muito obrigada por partilhares a tua experiência!

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  • Parabéns pelo blog, é lindo.
    Desculpe o desabafo: os mil links para a mesma publicidade sem qualquer relação com o conteúdo não vai dar para aguentar…

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    • Sofia, isso é uma opção do seu computador… não uma coisa do blog.

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      • Olá, também me acontece! Tanto no computador como no tablet e no telemóvel por isso também pensei que era do blog. Aparece publicidade da Dodot e por vezes outra marca (não me lembro qual porque a ignoro sempre). As janelas abrem por cima do texto que estou a tentar ler. Fecho essas janelas mas elas voltam a abrir. Por vezes desisto e leio o texto por cima das janelas que vão abrindo e outras vezes são as janelas que desistem e deixam de aparecer. 😀 Continuo por cá mesmo com as janelas de publicidade com vida própria!

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        • essas janelas são culpa minha 🙂 ou do blog. pensei que fosse a PUB em cima de palavras.

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  • Adorei as fotos 🙂
    Parabéns pelo post e ao fotografo 🙂
    Beijinhos

    http://saudavelmente.info/suco-para-dar-energia

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  • Muitos parabéns pelo blog. Acabo de ler este texto e parece que estou a ler a minha própria história ☺ fantástico testemunho.
    Também a minha filha mais velha mamou até aos 3 anos e meio apenas parou porque fiquei novamente grávida. Para além lhe dar de mamar fiz questão de todos os dias tirar leite para fazer as papas até aos 14 meses.Quando nasceu foi uma aventura a logística do leite em excesso, tirar com a bomba até mesmo o receio de ficar sem leite… desistir passa pela cabeça principalmente quando tudo é novo e desconhecido.
    Vivo novamente a mesma experiência maravilhosa com a mais pequenina agora perto dos 10 meses. É de facto uma sensação única amamentar. Foi e ainda é das melhores fases pelas quais passei enquanto mãe. É um momento único só nosso que pode parecer egoísta mas são pequenos momentos que ninguém substitui ☺

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  • […] leite materno é o melhor alimento do mundo e merece que se faça um esforço. Mas, e um gigantesco mas, amamentar não define uma […]

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  • […] ajudar algumas mães nesta missão. É verdade: a amamentação é um estranho equilíbrio entre o amor e a dor. Lembro-me de, quando tive o Gonçalo, ele ter sido posto ao meu colo, com um gorro branco e ainda […]

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  • […] cada mulher sabe de si. Eu quero respeito pela minha decisão de amamentar até quando nos apetece. Eu quero respeito pela mãe que decide não dar mama. Eu quero respeito […]

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