Maternidade

Será que devemos forçar os nossos filhos a partilhar?

forçar os nossos filhos a partilhar

Temos falado muito sobre a questão de destralhar. Na semana passada escrevi sobre as formas como podemos juntar as crianças ao nosso movimento de “destralhanço”. Na base de tudo está a importância que objectos têm na nossa vida. Hoje falamos sobre a partilha (não só de objectos mas também). E nisto de “ter que partilhar”: terão os nossos filhos que dizer sempre “sim” no momento de partilhar um brinquedo? Será que devemos forçar os nossos filhos a partilhar?

Trata-se de uma questão de consentimento e a expressão “ter que” é demasiado forte para um tema destes. Surgem, e bem, as questões da necessidade de desenvolver empatia, bondade, compaixão e colaboração com os outros. Estarão estas qualidades relacionadas com o ato de partilhar?

As autoras do livro “Humility is The New Smart: Rethinking Human Excellence in the Smart Machine Age”, Katherine Ludwig e Ed Hess, explicam que este tema traz rasteira. As nossas crianças são os futuros adultos. Inevitavelmente terão que trabalhar em equipa, resolver problemas emocionais, relações com outros adultos. Terão que ter inteligência emocional e social e capacidade para cultivar confiança. Terão que ter, em certos momentos, a capacidade de se focarem menos neles próprios e mais nos outros. Resumindo: a forma como as crianças se relacionam vai-se espelhar na vida adulta.

Não julgo os pais que acreditam que é a obrigar os seus filhos a partilhar que lhes vão incutir essa capacidade. Porém, há uma diferença considerável entre obrigar a algo e explicar genuinamente a importância da partilha. Forçar a que os nossos filhos tenham comportamentos socialmente corretos, não quer dizer que lhes estejamos a dar as ferramentas certas para que criem laços com os outros. As crianças precisam de ser guiadas e que lhes seja dada a oportunidade de pensar. É a tal questão de fazerem porque acreditam e não apenas porque estamos a mandar.

 

Encontrar estratégias adequadas para criar filhos que partilham, que são educados e humildes, traz muito mais benefícios do que obrigações que os fazem ser apenas decentes na sociedade e perante os outros pais. Para tornar tudo mais claro, deixo aqui 5 estratégias possíveis, introduzidas pelas autoras do tal livro que vos referi.

Será que devemos forçar os nossos filhos a partilhar? Forçar não! Ensinar a importância da partilha, sim

 

1 – Força-los a partilhar vai fazer com que para eles seja um ato não-natural

Forçar a partilha não só é ineficiente no que toca a aprendizagem, como pode realmente provocar ressentimentos e até desenvolver tendências egoístas. O mesmo se passa com os adultos. Pensemos: obrigar uma criança a partilhar um brinquedo pode ser comparado a obrigar um adulto a emprestar o seu carro sem saber se o terá de volta.

 

2 – Moldar e ensinar

Escrever num papel “obrigada” não é a mesma coisa do que praticar o agradecimento. Forçar crianças a serem politicamente corretas, não é a mesma coisa do que lhes incutir bondade e humildade. Os miúdos aprendem muito mais com o que nós, pais, fazemos do que o que lhes dizemos para eles fazerem.

 

3 – Falar e explicar

Expô-los a questões práticas. “Como te sentias se fosses tu a ver aquele menino a brincar com um brinquedo e não te emprestasse?”. Fazê-los pensar pela própria cabeça.

 

4 – Deixá-los aprender com as consequências

Experienciar as consequências das suas ações. O que acontece se o nosso filho decidir não emprestar um brinquedo? E o que acontece se emprestar? Se previamente lhes disserem como fazer, a aprendizagem natural deixa de existir. Se eles não experienciarem a repercussões das suas ações, não as interiorizam.

 

5 – Fazê-los perceber a diferença entre o que eles querem e o que eles precisam

Perceber o conceito de espera e paciência. Se uma criança está a brincar com um puzzle, por exemplo, que o nosso filho quer, é importante explicar-lhe que terá que esperar que a outra criança termine a sua lógica (que não deve ser interrompida), para ele poder depois brincar. A ideia principal é: respeitar o tempo. As coisas não se conseguem só porque se quer. É essencial desenvolver interesse genuíno – tanto pelas coisas em si, como pelos outros.

 

Então: Será que devemos forçar os nossos filhos a partilhar? Qual a vossa opinião?

Comentários (3)

  • Acho que forçar os filhos a partilhar, ou a dizer-lhe que têm que compartilhar, é contraproducente para o seu desenvolvimento futuro porque limitados no raciocínio assumem isso como uma obrigação.
    À obrigação de “ter que”, mãe disse, o pai disse; espoleta um sentimento de revolta e uma ou mais interrogações que não sendo ainda compreendidas, mais acentua essa revolta e paralelamente o sentido de egoísmo.
    Por que tenho “que dar” dar o que é meu? Ora isso no contexto do que é o raciocínio de uma criança faz todo o sentido. É dela por que vai dar?
    Não lhes mostrar que o que eles têm a mais por comparabilidade com o que outros têm a menos, também não é aconselhável para o que um pai e uma mãe esperam do desenvolvimento de um filho, porque, apercebendo-se de que têm e outros não, – e nisto as crianças têm um sentido de perspicácia quase ilimitado, – para lá do desenvolvimento de um egoísmo exacerbado criam um sentido de prepotência e poder que mais tarde não encontrarão.
    Penso que compete aos pais, mostrarem. Por exemplo: olha, e se fôssemos dar isto àquele menino que não tem, tu tens mais, ou tu já nem ligas àquilo. O que achas? Ele ia ficar feliz, não ia?
    Só uma criança que já tenha nascido egoísta é que não diz logo, radiante de felicidade.
    – Vamos, mãe. Coitadinho dele.
    Exemplos. Creio que já tive a oportunidade de dizer aqui, mas se não disse digo agora.
    Os filhos, todos os filhos, independentemente dos seus próprios caracteres e personalidades, espelham sempre nos seus procedimentos futuros o reflexo do comportamento dos pais.
    Isto é o que eu penso, e defendo, mas aceito perfeitamente que outros não.

    PS: Particularmente não me custa compartilhar ou dar. Menos no futebol que quero que o Benfica ganhe tudo sem dividir com ninguém.
    🙂

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    • Percebo o contexto, mas abomino o “coitadinho”.

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      • Pois, mas no contexto de uma criança tem e não vai dizer:
        – Vamos mãe! infelizmente as limitações económicas dos pais dele obrigam a outras prioridades que não a inutilidade de tantos brinquedos.
        E aí avança:
        – Vamos mãe: coitadinho dele

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