Maternidade

birras, o meu guia prático

quando o Gonçalo era pequeno eu achava que era a melhor mãe do universo: o meu filho não fazia birras. até podia choramingar quando as coisas não corriam como ele queria mas era apenas isso e com uma duração tão cura que nem podia dizer que o miúdo chorava, quanto mais que tinha feito birra. fui mãe aos 24 anos e confesso que, visto a esta distância, foi uma sorte.

todas as minhas manias e certezas foram destruídas com o birrento Afonso. eu era a mesma mãe, aliás bastante mais disponível e regrada, e o raio do puto não cedia quando era contrariado. não consigo dizer que foram os dois anos, os três ou os quatro, nem posso sequer dizer que eram birras a toda a hora, mas fui percebendo que quando era um birra era das sérias. o que é um birra a sério? aquelas que envolvem cenas dramáticas na rua, lágrimas, gritos, e lançamentos ao chão como se o mundo fosse acabar * [e a nossa capacidade de ser calmas também].

querida Maria Luiza, agradece ao teu irmão Afonso porque, venha o que venha, eu estou preparada. mesmo que seja preparada para assumir que tenho que aprender tudo de novo porque cada filho é uma pessoa diferente.

ainda assim consegui estabelecer algumas regras que servem para todas as idades [sim porque na adolescência também há birras ainda que com outro formato *]. e acreditem que estas regras servem para qualquer relação íntima, filhos, namorados, maridos.

 

Birras, como faço em minha casa?

gritos geram gritos. isto aprendi com a minha querida mãe-professora que nunca levantava a voz enquanto dava aulas. se começarmos a falar alto quem está a falar connosco tende a levantar a volume para sentir que vai ser ouvido. custa, eu sei que custa, e não é só com os filhos, mas devemos manter o mesmo tom de voz. perante as birras podemos mudar a forma como olhamos, até a postura física mas não vale a pena gritar.

só comprar guerras que podemos ganhar. ou nunca impor algo que depois não conseguimos cumprir. quando o Gonçalo tinha quatro anos disse-lhe que ficava cinco dias sem televisão. o resultado foi tão traumatizante para mim que nem me lembro da causa. para ele não ver televisão eu também não podia – a casa era pequena – e ao segundo dia ele queria brincar comigo, eu precisava de trabalhar e são tinha vontade de chorar. aguentei os cinco dias mas sofri muito mais eu do que ele. os miúdos são inteligente, felizmente, e se perceberem que cedemos vão deixar de nos levar a sério. ou seja, pensemos muito bem na consequência que estamos a anunciar e tenhamos a certeza absoluta que a vamos cumprir. só assim é que aquilo que dizemos pode ter impacto. justiça e firmeza, não esquecer.

às vezes ignorar é o melhor remédio. estamos na rua e o cenário é dramático. ou em casa num jantar com outras pessoas, mesmo que sejam amigos íntimos. estamos num momento em que a nossa paciência é mínima [o final do dia está cheio desses momentos]. se não estamos com capacidade para agir [ou reagir] mais vale estar quieta. a minha sugestão é mesmo fingir que nada está a acontecer. e se for preciso pegar ao colo, de forma querida e amoroso e não arrastando, e retirar do cenário. uma birra pode ser uma reação à frustração mas também uma chamada de atenção. não é obrigatoriamente falta de educação [embora quase sempre se transforme nisso]. e por isso vamos à última dica.

dar um abraço daqueles apertados e bons. este é um recurso estranho mas que resulta quase sempre nas birras mais estridentes. a parte física do disparate acalma. o disparate no geral acalma. é assim tipo “estás a ser parvo mas eu estou solidária com o teu sofrimento”.

– depois das coisas acalmarem é importante conversar. mas não podemos esquecer que não falamos a mesma linguagem, nem a capacidade de atenção deles permite ou absorve grandes sermões. falar à altura deles: fisicamente [ou eles estão sentados ou nós nos pomos mais baixos] e em termos de conteúdo. ser firme naquilo que dizemos mas ter a certeza que perceberam o que dissemos.

Comentários (5)

  • […] todas as minhas manias e certezas foram destruídas com o birrento Afonso. eu era a mesma mãe, aliás bastante mais disponível e regrada, e o raio do puto não cedia quando … Ver artigo completo no Blog […]

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  • Olá Catarina,
    Não sou mãe mas sou filha e, até os dias de hoje, os meus pais e a minha irmã fazem questão de contar as birras insuportáveis que eu fiz até aos 3 anos. Eu era de me atirar para o chão, na rua, a chorar e espernear. Já a minha irmã não fazia birras e, claro, a educação foi a mesma.
    Concordo com as tuas dicas e também concordo que um abraço apertado, às vezes, é meio caminho para acabar com uma birra. Seja em que idade for 🙂

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  • Por aqui um caminho parecido 🙂

    Primeiro filho: um docinho, nada de birras, super bem comportado, odiava se a mãe se chateava com ele.

    O Segundo filho: birras sempre que é contrariado (a atirar o que puder ao chão; melhor ainda: começa a cuspir a ver se faz ainda mais efeito; a guinchar de um modo aterrorizador – penso sempre qual é o dia em que os vizinhos me vêm bater à porta; um dia o segurança de um parque de estacionamento deu umas voltas ao pé do meu carro pq achava que eu estava a raptar o miúdo tal eram os gritos; e coisas do estilo).

    Concordo com as dicas todas, mas em relação ao abraço apertado e bom… nem sempre eles querem! Aí é que fico parva… Porque o meu petiz às vezes afasta-me ou diz que nâo quer, enquanto berra mais um bocado… lol

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  • […] por acaso deste post sobre birras fiquei a olhar para esta foto. o Afonso ainda não tinha dois anos nesta fotografia. fazia poucas birras mas daquelas difíceis de quebrar. esta nem sequer era uma birra, tinha acordado de mau humor. o Afonso é doce quando acorda, excepto quando ainda tem sono. detesta ser acordado. a Maria Luiza é igualzinha: se acordar naturalmente fica logo com um sorriso, se acordar com um barulho ou ainda com sono, chora. eu entendo, sou muito pior, preciso de bastante tempo [talvez porque acordo muito antes da minha necessidade ou vontade de continuar a dormir]. conta a minha mãe que em adolescente era insuportável ao ponto de lhe perguntar: mas porque é que acordas assim bem disposta? [a beleza da insuportável adolescência.] […]

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  • […] Aqui fica, para recordarem e tirarem alguma dica que vos possa ser útil: o meu guia para lidar com birras. […]

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