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Fertilidade natural. “É uma forma de cada mulher (re)conhecer o seu corpo”

Fertilidade natural. "É uma forma de cada mulher conhecer o seu corpo"

Ouvimos falar em fertilidade natural e pensamos logo em engravidar sem recorrer a métodos contraceptivos. Ou o contrário: pensamos em prevenir uma gravidez, sem recorrer a qualquer tipo de ajuda, excepto com o controlo dos ciclos do corpo. A Bárbara Bárbara Yü Belo tem 44 anos é de Matosinhos e mãe de quatro. É autora da página Fertilidade Natural e lançou um E-Book chamado “Como Prevenir uma Gravidez Naturalmente” escrito em conjunto com a Francisca Guimarães (autora do Miss Kale e sobre quem já falei aqui no blogue).

É ela que explica o verdadeiro significado do termo: trata-se, antes, de um conhecimento profundo sobre a forma como nós, mulheres, funcionamos. Sobre como é que os nossos ciclos são capazes de influenciar os nossos comportamentos e emoções, sobre como é que os desequilíbrios a que nos sujeitamos (ou somos sujeitas, sem sabermos) são capazes de moldar o nosso estado de saúde e de espírito.

 

O que é a fertilidade natural?
Na verdade, o termo “natural” não deveria estar associado à fertilidade. É quase um pleonasmo, uma vez que, idealmente, toda a fertilidade deveria ser algo natural. Sinto sempre esta necessidade de fazer este acréscimo, em contraponto com os métodos de reprodução assistida, que são actualmente, vistos de uma forma rotineira, como se fosse o trajecto normal para quem quer engravidar e não consegue “à primeira”.

Respondendo directamente à questão: fertilidade natural é uma forma de cada mulher (re)conhecer o seu corpo, a sua saúde menstrual, os seus ciclos e os princípios relacionados com a concepção, para que lhe seja possível gerir a sua fertilidade e ir ao encontro dos seus objectivos: engravidar, prevenir uma gravidez de forma natural e segura ou “apenas” conhecer o seu corpo. Há pouco tempo conheci freiras que vivem em regime de clausura a fazer formação em fertilidade natural – certamente, não seria para engravidar ou prevenir uma gravidez.

 

Porque é que é tão importante para a mulher?
Porque a fertilidade e a saúde menstrual são um reflexo da saúde geral de uma mulher. Os nossos ciclos conseguem dar-nos informação preciosa que, uma vez identificada, pode orientá-la para a sua resolução eficaz.

 

A título de exemplo, que aspetos é que podem ser-nos esclarecidos pela compreensão das várias fases do nosso ciclo menstrual e do nosso corpo?
Um exemplo: através da informação que o nosso ciclo nos dá, conseguimos perceber se estamos a ovular, que é um sinal de saúde. Podemos menstruar sem saber se chegámos a ovular (é estranho, mas é verdade e é mais comum do que pode parecer). Quando uma mulher tem vários ciclos anovulatórios, é sinal de que algo no corpo que necessita de atenção (e não falo do aparelho reprodutor em particular). Pode estar com um défice de progesterona (que é uma hormona importantíssima para o nosso bem-estar e equilíbrio hormonal), pode estar com outro défice hormonal ou mesmo ter alguma outra questão a nível fisiológico que requeira cuidados.

Outros aspectos poderão ser a insuficiência do corpo lúteo (bons níveis de progesterona são fundamentais para se conseguir engravidar e para o desenvolvimento embrionário, por exemplo), níveis excessivos de estrogénio em relação aos de progesterona (que poderão desencadear desde tensão pré-menstrual a, em situações limite, alguns cancros de mama ou de endométrio), etc.

O Ciclo Menstrual foi considerado o quinto sinal vital pela Academia Americana de Pediatria, em 2015, e isso não diz respeito apenas a adolescentes e jovens, mas sim a todas as mulheres até à menopausa. Aliás, para vivenciar a menopausa em plenitude (o que hoje em dia parece um paradoxo), devemos cuidar dos nossos ciclos na idade fértil. Como? Procurando um equilíbrio hormonal, por exemplo.

 

A contracepção natural nem sempre é vista com bons olhos. Que leitura faz disto?
Infelizmente, os métodos naturais de gestão de fertilidade têm má fama por serem considerados pouco seguros na prevenção de uma gravidez. Na minha opinião, isso deve-se a dois aspectos distintos, ou melhor, complementares:

– Existe a tendência para colocar os diversos métodos no mesmo saco. Ora, diversos estudos que têm sido desenvolvidos ao longo das últimas décadas têm vindo a demonstrar que existem métodos com menor eficácia e outros com uma taxa de eficácia perto da pílula (ou mesmo superior, se estivermos a olhar para a eficácia de uso e não a teórica). Por exemplo, o método sintotérmico [um dos utilizados na contracepção natural] tem uma taxa de eficácia de 99,6% (teoria) e 97% (uso), a pílula contraceptiva tem uma eficácia de 99,7% (teoria) e 92% (uso). O preservativo tem uma eficácia de uso de 85%.

– Por outro lado, são raros os profissionais de saúde que estão verdadeiramente por dentro destes métodos. Esta informação não lhes foi transmitida na faculdade (ou se o foi, foi sempre com a conotação negativa de que falei anteriormente). Algumas mulheres que acompanho levam a informação sobre os seus ciclos menstruais para as consultas e são poucos os médicos que efectivamente têm essa informação em consideração – o que é uma pena.

Como não se sentem à vontade com determinada metodologia, não se sentem confortáveis para a apoiar. É a realidade que temos. Pelo menos por agora, porque eu tenho esperança de que a realidade venha a melhorar aos poucos. Sou uma sonhadora, eu sei.

 

Que métodos é que existem de contracepção natural?
São imensos. Para enumerar alguns: método do calendário, temperatura, sintotérmico, Billings… cada um rege-se pelas suas regras e considera diferentes indicadores de fertilidade e, por essa razão, têm taxas de eficácia distintas.

 

Como é que a Bárbara se começou a interessar por este tema?
Este tema começou a despertar curiosidade em mim desde 2005, quando fiz a formação de doula, em que tive acesso a informação preciosa sobre o corpo feminino e as suas diferentes formas de expressão, nomeadamente, a concepção, gravidez e parto.

Há uns anos atrás, porém, devido a um acontecimento marcante na minha vida, vi-me confrontada com a necessidade de tomar uma resolução relacionada com a minha fertilidade. Na altura senti que não tinha alternativa e tomei (ou fui orientada) uma decisão que me levou para um caminho sem retorno, repleto de riscos para a minha saúde e para os filhos que eventualmente poderei vir a ter. Quando tive consciência da dimensão do que me aconteceu, tomei a decisão de fazer o que estivesse ao meu alcance para partilhar a informação de que todas as mulheres são livres de escolher com responsabilidade, informação e consciência e não têm que acatar o que os outros decidem que é melhor para elas.

 

Quais é que são as maiores dúvidas das mulheres em relação a isto?
Penso que os principais desafios se prendem com as nossas próprias crenças, com o que nos foi incutido desde muito cedo (quantas de nós fomos levadas pelas nossas mães à ginecologista com 16/17 anos para que nos fosse receitada a pílula?), ainda que com boas intenções por parte das pessoas que nos rodeiam e que, muito provavelmente, não conhecem outra realidade. Temos um histórico de mais de 50 anos de mulheres que tomam diariamente medicação anovulatória sem se questionarem.

Tal como a Lisa Lester, uma autora que admiro, eu não sou anti-pílula (que pode ser uma solução em determinada altura da vida de uma determinada mulher), sou sim a favor (e muito fã, devo acrescentar!) das mulheres que procuram tomar decisões informadas e em consciência sobre a sua fertilidade e saúde reprodutora.

Existe algo que pode derrubar todas as dúvidas e hesitações: a informação. Clara, inequívoca e baseada em evidências científicas. Não estou a falar de rituais só-porque-sim, que é muitas vezes o que se pensa que são os métodos naturais de fertilidade. Estou a referir-me à Mulher como um todo, com as suas componentes física, intelectual e espiritual. A ciência é importante porque nos dá informação rigorosa, mas é importante que cada mulher promova esse auto-conhecimento, essa reconexão.

 

Depois da fertilidade natural, e da importância de conhecer o corpo, relembremos a entrevista com a sexóloga Vânia Beliz.

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