Maternidade

“Alguns pais acham que é feio dizer vagina. E eu pergunto: e joelho não causa embaraço porquê?”

"Chamar as coisas pelos nomes protege as crianças de abusos sexuais"

“Chamar as Coisas pelos Nomes” é o novo livro da sexóloga Vânia Beliz, que tem feito um excelente trabalho nisto de nos libertarmos de preconceitos e de falarmos abertamente com os nossos filhos sobre temas tão fundamentais e estruturais para a vida como a sexualidade. Depois de “A Viagem de Peludim”, chega-nos esta espécie de manual, esta nova ferramenta que esclarece educadores para a importância da educação sexual no desenvolvimento da criança, que deve ser livre de medo e de pudor. Informar não terá de ser sinónimo de banalização, mas sim de normalização. Educar é isto mesmo: não deixar perguntas por responder, explicar com calma e, claro, com os nomes certos.

Pedi à Vânia que respondesse a algumas questões sobre o novo livro e sobre isto de falar sobre a sexualidade e, muito importante, sobre o impacto positivo que isto tem na vida deles. Posso adiantar-vos: a informação protege e a desinformação põe em perigo.

Que coisas é que mais frequentemente não são chamadas pelos nomes?

Tantas. Desviamos tanto estes assuntos. Mas o mais evidente são, por exemplo, os nomes que insistimos em dar aos genitais. Falamos de todas as partes referindo os nomes corretos, mas chegados aos genitais e é um mundo de outros nomes que só confundem as crianças. Porque é que dizer vulva é complicado? Ou pénis?

Depois há temas dos quais fugimos, como os primeiros relacionamentos, as primeiras relações sexuais, as questões relacionadas com a orientação sexual, as especificidades em crianças e jovens portadores de alguma deficiência…

E que nomes é que se costumam utilizar (e não deviam), alusivos a estas mesmas coisas?

Pipi, loló, rola, coisinha, fofinha… são os nomes mais frequentes que chamam à genitália feminina que é a vulva e a vagina. Piloca, pau, pirilau, pilinha ao pénis masculino…

Na prática, que consequências é que isto tem para o desenvolvimento da criança?

Quando nos envergonhamos de falar de uma parte do nosso corpo isso traduz a ideia de que é porque existe algum problema. Alguns pais dizem que é feio dizer vagina e que as crianças não precisam passar por isso, mas pergunto eu, e dizer joelho, perna, não causa embaraço porquê?

Existem muitas investigações que referem que chamar as coisas pelos nomes pode proteger as crianças, por exemplo, em relação ao abuso e violência sexual. Uma criança que fala do seu corpo e que o conhece e consegue falar dele, tem mais capacidade de comunicar e de compreender os seus limites. Dizer: “Não deixes que te toquem no pipi (ou pilinha)” é vago e perigoso. O que é o pipi? A vagina? A vulva, os dois? E a pilinha?

É importante que não se confunda normalização com banalização. É importante que os jovens aprendam a proteger a sua intimidade e o valor dos relacionamentos.”

Porque é que os pais não chama as coisas pelos nomes?

Porque os pais também foram educados da mesma maneira a maior parte sem nunca ter falado com as famílias de nada. Ainda vejo mulheres com 25 ou 30 anos a quem não lhes falaram da menstruação e do perigo da gravidez… e que sentem que descobriram tudo sozinhas. Veja-se como para a genitália das meninas se encontram nomes delicados, frágeis e para os meninos se hipervaloriza tantas vezes o órgão. Isso terá consequências mais tarde no desempenho e nos papéis de género dentro da intimidade.

Há temas que só devem ser introduzidos em determinadas idades? Quais?

Não existem temas que devam ser introduzidos em determinadas idades, existem é formas diferentes de comunicar com as crianças de acordo com a sua idade e capacidade de entendimento.

Podemos falar de pornografia com as crianças desde muito cedo. A forma como o fazemos é que é diferente se têm 6 ou 12 anos. Muitas vezes os temas são trazidos pelas crianças, mas para isso precisamos de estar atentos ao seu mundo. Muitos pais referem que não falam com os filhos e filhas sobre sexualidade, mas eles estão rodeados de erotismo e de mensagens sexualizadas. Alguém já escutou atentamente a maior parte das letras de funk que as meninas dançam logo a partir dos 4 anos? Alguém repara na violência dos jogos em que as crianças se envolvem? Nos programas que veem e nos canais que seguem? A maior parte das meninas segue contas de instagram de mulheres que vivem da sua imagem, do culto do corpo, do consumo de produtos de beleza, de moda… O que é ser mulher e ser homem hoje? Como estamos a deixar que os eduquem? Vamos continuar a ignorar estas influencias e estes riscos?

E quando os miúdos perguntam antes?

Quando as crianças perguntam é porque querem uma resposta e é importante que não se fechem as portas. É importante compreender de onde surgiu a questão ou dúvida, saber o que sabe sobre o que pergunta, tentar responder de forma adequada, tendo em conta o seu conhecimento e desenvolvimento, e verificar se a nossa informação ficou compreendida. Evitar responder, deixar para outro dia ou mentir não é solução. Não é justiça que no 4º ano as crianças não saibam como se faz um bebé e como é que ele nasce. Há meninas férteis aos nove anos, que precisam de saber os conceitos da reprodução de forma simples. Não devemos depois estranhar que mais velhas não se conheçam e se coloquem em risco. Falei das meninas, porque nesta altura apresentam uma curiosidade normalmente maior, mas urge informar ambos.

Porque é que a normalização da sexualidade por parte dos pais é positiva para os filhos?

É importante que não se confunda normalização com banalização. É importante que os jovens aprendam a proteger a sua intimidade e o valor dos relacionamentos. Somos pessoas, não somos objetos que se consomem e que deitamos fora quando estamos fartos. A banalização da sexualidade preocupa-me. Sabemos que podemos ter sexo apenas por desejo sem grande envolvimento, mas a nossa sexualidade deve ser vivida com responsabilidade e respeito porque não estamos sozinhos. A sexualidade não é apenas a busca incessante por prazer, porque a sexualidade não é apenas sexo. É importante que os pais possam falar desde cedo com os filhos sobre relacionamentos, diversidade, respeito, empatia… Tudo isto depois se complementa.

Existem muitas investigações que referem que chamar as coisas pelos nomes pode proteger as crianças, por exemplo, em relação ao abuso e violência sexual.”

Não correm o risco de ter comportamentos precoces?

Não. A investigação é clara. Falar de sexualidade não incentiva à prática sexual! Se falamos nas escolas de tabagismo, consumo de álcool e de drogas, porque não falamos de sexualidade? Quando falamos de consumos de drogas, os miúdos vão a correr experimentar? Porque o fariam com a educação sexual? Verifico que os jovens aumentam a sua capacidade de decisão e isso é muito importante para a sua saúde e bem-estar. A educação sexual também não é contra os valores das famílias. É importante respeitar as crenças de cada um desde que isso não viole os seus direitos e os dos outros.

O facto de mantermos os miúdos às escuras durante muito tempo (e de nunca nos abrirmos em relação à sexualidade) gera desinformação? Pode dar exemplos concretos, tendo em conta a sua experiência com jovens e adolescentes?

Tenho muitos exemplos, alguns que podem parecer impossíveis à luz de 2018. Tenho um projeto de esclarecimento gratuito através do WhatsApp e todos os dias recebo mensagens de jovens. Os rapazes ainda perguntam muitas vezes se a masturbação faz mal, se vicia… As raparigas têm dúvidas sobre contraceção referindo muitos esquecimentos. Na prática sexual, sentem-se muitas vezes inseguros e pouco satisfeitos. Eles acham que demoram muito pouco tempo e que dão pouco prazer. Elas sentem dor e frustração por não sentirem os orgasmos que acham que deviam sentir. Nas escolas, no primeiro ciclo, há muitas dúvidas sobre concepção. No segundo as raparigas têm um grande desconhecimento em relação à menstruação. Não sabem porque sangram, não sabem de onde vem o sangue, acham que colocar um tampão tira a virgindade… Já tive uma mãe que a olhar para o copo menstruar perguntou: “Dra, então depois como é que elas fazem xixi?”. Os adolescentes ainda têm muitos mitos associados à primeira vez e à relação sexual. Se a primeira vez dói, se há sangramento, se a primeira vez engravida.

Talvez seja importante admitirmos as nossas dificuldades e desconhecimento porque, de outra forma, vamos sentir-nos incapazes de comunicar com os nossos filhos sobre os nossos temas mais sensíveis

Que estratégias devem ser implementadas para diminuir o constrangimento nas conversas sobre a sexualidade entre pais e filhos?

As famílias não devem achar que precisam de ter uma especialidade para falar sobre sexualidade, mas é importante que façam uma reflexão sobre alguns temas. Estarão confortáveis para enfrentar o desafio de ter um filho ou filha com outra orientação sexual? Conseguirão lidar com a primeira relação amorosa e sexual? Estarão conscientes de como o seu comportamento influencia a forma como os filhos vão ancorar os papeis de género, hoje tão importantes para o bem-estar de homens e mulheres?

Se não o conseguirem, o importante é procurarem apoio e reforço para esta tarefa. Não existem receitas porque cada criança e jovem são únicos, pelo que devemos adequar sempre a forma como comunicamos como eles, porque só assim seremos compreendidos.

“Chamar as Coisas pelos Nomes” vai ser lançado a 19 de setembro, às 19 horas, na Fnac do Chiado.

 

Depois de “Chamar as Coisas pelos Nomes”, vamos lembrar a “Viagem de Peludim“.

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