Maternidade

Telemóveis: será problema dos filhos ou dos pais?

Presença ausente

Uma história que tem pano para mangas e um tema que de consensual tem muito pouco. Tecnologias e crianças: por onde começar? Devemos, não devemos, cedemos, negociamos, faz bem, faz mal… e podíamos ficar muito tempo nisto. Sabem o que é presença ausente?

Neste texto sobre as férias e as memórias, falei sobre a importância de termos a consciência de que filhos imitam pais, inclusive nesta questão de se estar ao telemóvel. Se estamos, eles vão querer estar. Parece óbvio mas pensamos poucas vezes que o problema passa por os pais estarem desligados dos filhos.

Estarmos presentes fisicamente na vida dos nossos filhos não implica que estejamos ligados a eles. A especialista em teorias da tecnologia, Linda Stone alarmou-nos recentemente para um conceito: “atenção parcial contínua”. Que é como quem diz: os pais estão, mas não. Esta nova forma de interação entre pais e filhos pode quebrar laços familiares e emocionais e deteriora a forma de comunicação, essencial para uma boa relação.

Quando interrompemos uma conversa ou uma brincadeira com os nossos filhos para “apenas” mandar uma mensagem ou dar um vista de olhos rápida ao Instagram, estamos a fazer com que eles se distraiam também. Interrompe-se a lógica, o pensamento, a concentração. Resumindo, o processo de aprendizagem torna-se muito mais volátil. Mais: interrompendo esta ligação, a probabilidade de haver uma birra como chamada de atenção aumenta drasticamente!

Nunca foi, nem nunca será, fácil encontrar um equilíbrio perfeito entre as necessidades e desejos de pais e filhos. Ingénuo é quem acredita que os nossos filhos serão para sempre o centro das nossas atenções… Não vai ser assim! Estas separações/interrupções de atenção curtas e deliberadas podem, naturalmente, ser inofensivas e até mesmo saudáveis, principalmente quando os miúdos entram na fase em que precisam de mais independência. Atenção aqui, que não vale confundir conceitos: dar-lhes mais liberdade para estarem sozinhos não significa desatenção. Porque, de facto, a desatenção prende-os fisicamente – bloqueando-lhes a autonomia – e dá-lhes uma visão de pai/mãe ausente. Dará aso, claro está, a chatices quando eles quiserem atenção e os pais não quesirem ser interrompidos no que estão a fazer.

Percebo, e bem, a dificuldade que pode estar em não interromper brincadeiras ou conversas com o telemóvel que é, no meu caso, também uma ferramenta de trabalho. Uma agenda e disciplina podem ser a chave para resolver todas estas questões.

É bom que estejamos cientes de que será sempre mais fácil projetarmos a culpa nos mais fracos. Antes disso, convém tentar avaliar a situação de fora e perceber de onde está a vir o problema. A verdade é que podemos fazer mais pelos nossos filhos se fizermos… menos (independentemente das horas que passamos com eles). Como para dançar o tango são precisos dois, o meu conselho é que se faça útil o tempo com eles. Se for possível, sem telemóveis por perto. E se com telemóveis que seja um momento partilhado.

 

 

E percebam que sou a primeira a fazer esta gestão. A tentar evitar isso da presença ausente.

Comentários (6)

  • Olá Catarina, sigo o seu Instagram há pouco tempo e há menos tempo o blog e gosto da forma simples e descomplicada com que aborda as vicissitudas da vida, quando 90% das pessoas faz um drama.
    Este assunto está longe de ser novo, agora as coisas são muito mais mediáticas e rápidas, pois os miúdos vêm “quitados” com ferramentas que antes não tinhamos. Mas a verdade, é que esta “polémica” e drama à volta das novas tecnologias não é nova é apenas novidade. Ou seja, as distrações parentais que podem gerar vicio nos filhos sempre existiram e ainda existem hoje, mas tornaram-se banais.
    Quantos pais vimos descurar os filhos porque estavam a ler o jornal, ou a maltratar um filho porque estava a brincar feliz durante o relato do futebol. Quantas mães não afastaram os filhos para o lado com a febre das telenovelas????
    Hoje não é diferente de há 30 anos atrás, apenas as distrações são diferentes. A diferença reside, como sempre residiu, na sapiência e carater dos humanos-pais para equilibrar todas as actividade para que um filho cresça de mente aberta e saudável.
    Não esqueçamos que vivemos num país onde se fala muito, mas no que toca às diferenças de estilos de vida as mentalidades mudam devagarinho. Há uns meses atrás mudei-me para a cidade onde nasci e onde residem os meus pais e outros familiares, por questões que sairam do meu controlo tive de ficar temporariamente em casa da família, mas quando finalmente consegui casa lá mudei. Porém os comentários não deixaram de ser ridiculos, a questionar para que iria eu viver sozinha (note-se que tenho 38 anos e sempre fui independente) afinal estava solteira….. e a cidade onde moro “parece” muito evoluida.
    Sou grata pelo papel que cumprem juntem da sociedade, ao contribuir para mudar consciências. Pois muitas consciências ainda parecem viver na idade da pedra.

    Responder
  • […] sobre o tempo que passamos a olhar para o telemóvel (o post de ontem) recebi este […]

    Responder
  • […] sobre o tempo que passamos a olhar para o telemóvel (o post de ontem) recebi este […]

    Responder
  • Olá Catarina, em primeiro lugar parabéns pelo blog, sou novo nestas andanças, mas tenho-o seguido com muita atenção e é uma das minhas referências de leitura e opinião. Também eu tenho um blog que iniciei recentemente e alguns artigos tiveram inspiração no que li e refleti no seu espaço virtual.

    Sou pai de uma bebé de 9 meses, a minha primeira filha e tem sido verdadeiramente uma aventura. Tudo é uma descoberta, para eles e para nós pais. Focando-me só na parte das tecnologias, a Maria Leonor já vai percebendo que no telemóvel há algo chamativo, como uma música do Avô Cantigas por exemplo. Sei o impacto que os telemóveis e novas tecnologias têm nas crianças de hoje em dia, se for algo feito de forma descontrolada, pode trazer sérias dificuldades num futuro próximo. No entanto, também acho que não podemos ser tão radicais e impedir que as crianças simplesmente não tenham acesso a algo que faz parte do dia-a-dia deles e dos pais. Sou apologista do meio termo, nem muito, nem pouco. Para já, ela é muito pequena ainda, temos usado o telemóvel apenas em situações pontuais, como por exemplo numa viagem mais longa. O tempo disponível, temos tentado aproveitar ao máximo para brincar com a pequena. O meu grande receio vai para o treino que tenho de fazer para que a minha filha não imite alguns dos meus comportamentos. O telemóvel é usado, muitas vezes, de forma inconsciente, para ver as horas, responder a uma mensagem, ver as novidades nas redes sociais. Muitas vezes penso que a Maria não percebe, mas tenho de treinar estas questões, pois ela já vai percebendo praticamente tudo e qualquer dia, como diz e bem, estou a interromper uma conversa ou brincadeira para ver o telemóvel e ela faz birra ao perceber. Isso não quero que aconteça. O seu artigo foi importante para refletir estas questões.

    Rui Matos
    http://licencaparaserpai.blogspot.com/

    Responder
  • […] é um hábito negativo com que também temos de acabar e de que falei ainda ontem. Menos tecnologias significa mais tempo para coisas importantes. Significa mais […]

    Responder

Escrever um comentário