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A morte é um lugar estranho

A morte é um lugar estranho

Talvez me tenha tornado uma pessoa que detesta atender o telefone quando, há 16 anos, a minha tia ligou para me dizer que fosse rapidamente ter com a minha mãe ao hospital. Não foi ao telefone que ouvi que o meu pai tinha morrido mas foi como se fosse. Acho sempre que um telefonema pode esconder uma má notícia. Ainda que a morte não tenha sempre que ser sinónimo de desespero e possa ser um sítio sereno. A morte é um lugar estranho.

No sábado estava aninhada aos miúdos na cama, na nossa casinha de férias, quando a minha mãe ligou. Eu já sabia o que tinha acontecido antes de atender. O meu avô, com 96 anos, há algum tempo que mostrava estar demasiado débil. Desejei muitas vezes que a morte chegasse durante os sonos a que se tinha entregue nos últimos tempos. E assim foi. Se acreditasse nessas coisas diria que a lua estranha o deixou descansar. Não acreditando sei que foi um corpo cansado que não aguentou mais. E percebi que a morte pode ser serena. Ainda que seja sempre um lugar estranho.

Voei para ao pé da minha mãe. Zangada apenas por isso. Por ter sido novamente esta mulher a enfrentar a morte. Pedindo-lhe desculpa por não estar ao pé dela. Voei para ao pé da minha avó. Por imaginar essa dor de perder o homem com quem se viveu mais de 70 anos. Mas apenas imaginar porque estou tão longe de saber. Sei que se despediu com um beijo: é o último beijo, meu marido.

É estranho amparar a minha mãe numa dor que conheci antes dela. Um pai é insubstituível. Eu sei. Mas a morte é um lugar sereno se vier num sono tranquilo numa vida que foi vivida e esgotada. Dói na mesma. Mas pode ser calma. Uma despedida doce.

A morte é um lugar estranho. Porque no meio de todas as lágrimas há reencontros, gargalhadas, as mãos que se apertam com muita força, a família que se confirma, as memórias que se partilham. É essa estranheza que partilhei no Instagram (e aproveito para agradecer novamente todas as mensagens carinhosas que recebi):

Gostava que um funeral fosse lugar para tirar fotografias. Que raio, como é que um acontecimento triste como a morte pode fazer acontecer um dia tão doce, tão cheio de amor, tão cheio de abraços dos meus, de reencontros, de gargalhadas em surdina, de mãos dadas muito apertadas. Gostava que um funeral fosse lugar para tirar fotografias e tinha a minha família, toda junta.

 

 

 

 

Comentários (6)

  • A morte é um lugar estranho sem dúvida Catarina. Há 3 anos presenciei a morte da minha avó minutos antes tinha-a acompanhado a fazer a sua ultima higiene e despedi-me dela dizendo até amanha como era habitual pois a sua saúde estava frágil ao que ela respondeu:” Até amanhã querida amiga será ou não…” fiquei com um peso enorme no coração fiquei acordada não conseguia dormir ainda não tinha passado uma hora ou então até já tinha passado não sei o tempo ficou suspenso ouvi um barulho e fui a correr para o quarto ela parecia procurar pelo candeeiro da mesa de cabeceira mas algo não estava bem quando olhei para os seus olhos soube naquele minuto que a minha avo estava a partir naquela derradeira viagem os seus olhos já não tinham brilho apesar de ainda respirar. Não paro de pensar que a centelha da vida esta no olhar nós somos energia e luz e no dia que os meus olhos deixarem de brilhar e se apagarem a minha centelha se juntará a dela e de mais entes queridos que já partiram mas não sabemos o que acontece depois da morte mas também nos não sabemos o que aconteceu antes de nós nascermos será isto o ciclo da vida nascer e morrer ou morrer e nascer e no meio disto tudo voltamos a reencontrarmos-nos? Um Abraço grande adoro a forma como escreve .<3 Sílvia

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  • Como eu entendo a primeira frase. Ninguém entende a minha “fobia” de não gostar de atender o telefone mas também foi assim que recebi as piores noticias da minha vida.

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  • Boa tarde Catarina

    Um beijinho grande de força para esta sua perda , viver assim feliz até aos 96 e morrer no sono deixa nos um pouco mais “serenos e consolados” claro que é sempre um momento triste …especialmente para a sua mãe, …queremos que eles sejam eternos .Há cerca de dois anos perdi o meu pai…assim.. sem esperar…ao almoço falava com ele… na tarde teve um ataque cardíaco…cada palavra que escreve sobre o seu …infelizmente percebo a tão bem…lido muito mal com funerais e cemitérios e passado dois anos ainda não consegui lá ir… entro em pânico só de pensar nisso…ao mesmo tempo tenho aquele sentimento que não o vou ver( na ultima morada dele) como a minha mãe diz…tenho momentos que nem sei se faço mal se faço bem…a morte é mesmo um lugar estranho…um beijinho grande …têm uma família linda

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  • Um beijinho muito grande Catarina. Também perdi cedo o meu pai e a notícia da morte do meu avô também a recebi pelo telefone. Sei que finalmente descansaram e estão em paz. ❤

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  • […] O meu avô faleceu no fim de Julho. A morte pode ser uma mudança. O meu avô faleceu durante a noite, felizmente durante o sono. Sou muito grata pelo tempo que passei com o meu Avô Zé. O homem que me ensinou história. O homem que me embalava com o Amor de Perdição. O homem a quem pedia que me cantasse “Simão aquele estudante apaixonado por aquela fidalguinha de Viseu”. O melhor bolo de iogurte, as torradas cheias de planta. O amor apaixonado pela minha avó. […]

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  • […] O meu avô faleceu no fim de Julho. A morte pode ser uma mudança. O meu avô faleceu durante a noite, felizmente durante o sono. Sou muito grata pelo tempo que passei com o meu Avô Zé. O homem que me ensinou história. O homem que me embalava com o Amor de Perdição. O homem a quem pedia que me cantasse “Simão aquele estudante apaixonado por aquela fidalguinha de Viseu”. O melhor bolo de iogurte, as torradas cheias de planta. O amor apaixonado pela minha avó. […]

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