Relações

Divórcio. “Qualquer projeto de vida tem legitimidade para falhar”

Carolina Jacques. "Qualquer projeto de vida tem legitimidade para falhar"

Escreveu a Carolina Jacques

“Tal como há seis anos, sentámo‐nos lado a lado. Mas em posições invertidas. Desta vez fiquei à direita. A vida a ser irónica outra vez? Fruto do acaso, possivelmente… Demos o sim. Mas desta vez não foi à união. Foi ao fim dela. Com um nó na garganta e as mãos húmidas… Não por não querer dar este passo… Mas por ver finalmente a coisa acabada.”

Este é uma pequena parte de “Vais Amar-te e Respeitar-te e Ser Feliz”, o novo livro de Carolina Jacques (ou Kiki), em pré-venda, que vou ter o prazer de apresentar no dia 6 de junho, na Fnac do Cascais Shopping. E nada é por acaso. Fala sobre o escuro período que é o de uma separação, de um divórcio e de todas as fases e mudanças que isso envolve: sofrer, aceitar, readaptar e seguir em frente. Escolhi esta parte porque simboliza uma espécie de virar de capítulo: depois de um dos anos mais atribulados da sua vida, Kiki foi assinar os papéis do divórcio com o ex-marido. Ao contrário do que aconteceu no dia de casamento, almoçaram antes de oficializarem a separação, para onde se encaminharam  “de braço dado”, depois de uma fase absolutamente difícil e cheia de descobertas.

Mãe, é autora do blogue Família 3 e 1/2 onde relata a vida como mãe, o que envolve, obrigatoriamente, a gestão de vida como mãe solteira. Como eu, sentiu na pele o sofrimento que é ver um projeto de vida falhar. E, como eu – e como muitas outras pessoas, infelizmente – ultrapassou-o, redescobriu-se e é feliz. Mas, até chegar aqui, sofreu. E só pode ser assim. Custa muito. Mas a poeira (equivalente a uma tempestade de areia no deserto) depois baixa e aí somos capazes de ver com clareza o mundo novo que nos aguarda. A esperança volta e a vida encarrega-se de umas quantas voltas que nos trazem coisas muito boas.

“Eu quando casei achei que ia ficar casada para sempre. Ninguém está preparado para ver um projeto de vida falhar”, diz. “Lembro-me que no dia em que nos separamos agarrei nos miúdos e fui com eles para a rua para o pai poder fazer as malas. Quando cheguei, fui ao armário para ver se ainda estavam as coisas dele. Estava vazio. Por mais que possam haver sinais do casamento a morrer, ninguém está preparado.”

Explicar aos filhos que o casamento dos pais acabou

Uma separação é sempre caótica. Mas quando há miúdos há um esforço associado muito grande. O sofrimento tem de ser controlado e canalizado para o momento certo. Por eles, tudo tem de parecer o mais normal possível. A cabeça está virada ao contrário, está à procura de respostas, de encontrar o momento em que tudo falhou, mas é preciso manter uma aparente boa disposição porque, e esta é uma das duas mensagens mais importante, “os filhos têm de ser a prioridade.”

Uma das grandes aflições passa, precisamente, por explicar aos filhos que os pais não estão mais juntos. “Demorei uma semana a conseguir contar-lhes. Custa muito. E também custa contar às pessoas. Custa muito assumirmos que falhou. Custava-me muito dizer que era divorciada.”

Aos filhos, tudo tem de ser explicado com calma, clareza, com as palavras certas e com a garantia de que eles entendem que não têm culpa e de que, acima de tudo, os pais vão gostar sempre deles da mesma forma. Vão surgir perguntas, claro. É preciso responder a tudo, as vezes que forem necessárias, com toda a paciência do mundo. Mas também é fundamental não falar demais: “Só devemos responder ao que os miúdos perguntam, de forma clara. Não devemos dar informação a mais.”

Além disto, (tentar) dar o lado positivo: vão ter duas casas, vão ter dois quartos, vão ver o pai sempre que quiserem. E arranjar mecanismos que atenuem as diferenças nas rotinas da nova vida: “O pai, no primeiro ano, veio buscá-los todos os dias para os levar para à escola”, diz Carolina Jacques. O rancor e a raiva têm de ser controladas, até porque um dia vão desaparecer. Não vale a pena gerar conflitos desnecessários (por causa de horários, fins de semana ou outros pormenores), porque só vai aumentar o sofrimento e intoxicar aquela relação que acabou e que se vai ter de transformar noutra coisa.

“Qualquer projeto de vida tem legitimidade para falhar”

A outra mensagem mais importante é: “Qualquer projeto tem legitimidade para falhar. É fundamental percebermos isto para aceitarmos.”

É uma altura em que são precisas máscaras. Carolina Jacques passava o dia a sorrir e aparentemente bem disposta para os miúdos, como se nada se passasse. Mas, à noite, na escuridão e no silêncio da casa, chorava. A separação, o divorcio, a readaptação a uma nova vida e a nova relação com o ex-marido são alguns dos capítulos pelos quais se divide o livro onde , através da sua experiência, Kiki fala de todas as fases pelas quais se passam e sobre como é que elas se resolvem.

Somos muito mais fortes do que aquilo que achamos”

O período é cheio de etapas e de estados. É como se tivesse passado um tornado que arrasou com todas as estruturas da vida, que têm de, gradualmente, ser reconstruidas. “Aquilo que mais me custou foi ter de gerir tudo sozinha. As contas da água, da luz, as revisões e inspecções do carro. Tudo isto, mais a casa e os miúdos é muita coisa. Ainda fiquei algumas vezes sem água porque me esquecia de pagar”, conta Carolina Jacques. Mas, tudo se ajustou e vieram os automatismos. “Nós ajustamo-nos e habituamo-nos.”

“Somos muito mais fortes do que aquilo que achamos”, diz. Ao mesmo tempo que é um período de tristeza, é também uma altura de descobertas. Descobrimo-nos enquanto pessoa, descobrimos que temos escondidas forças imensas que nem sabíamos que existiam, descobrimos quem é que são os nossos verdadeiros amigos.

“Houve surpresas. Amigos que nem uma mensagem mandaram, amigos que nunca saíram de ao pé de mim, amigos que só queriam saber o que é que se passava por mera cusquice”, diz Carolina Jacques.

A nova relação com o ex-marido. Pragmatismo e racionalidade

Já passei por isto. E digo-vos: a amizade depois da separação dá trabalho, mas compensa. E sim, para todos os pais e mães solteiros, vai ficar tudo bem. Eu vivi isso.

A Carolina Jacques também. Durante o primeiro ano não conseguia olhar para os olhos do ex-marido, apesar de o ver frequentemente, por causa dos miúdos. Mas pensou: ia ser o mais pragmática e racional possível, duas das características que considera serem mais valias muito grandes nesta fase da vida, hiper-emocional. Basta pensar: aquela pessoa não vai desaparecer da nossa vida. Nunca. Os filhos são o símbolo desta união que continua a ser eterna.  Ela continua a ser para a vida, só que noutros moldes. Mesquinhez e rancores de parte, é importante aceitar e perdoar, porque há filhos a quem se deve dar uma estrutura familiar o mais equilibrada possível, ainda que em casas separadas. “É muito difícil, mas não podemos ser mesquinhos.” A resposta e causa são sempre as mesmas: “Os miúdos têm de estar em primeiro lugar. Temos de fazer isso por eles.”

E quando a outra pessoa reconstroi a vida? “Ele já casou. No inicio é natural que haja sentimentos confusos, principalmente porque os miúdos vêm apaixonados pela nova pessoa. Mas o que interessa é que, se eles gostam dela, é porque ela os trata bem. E é só isso que interessa.”

Outro ponto importante neste caminho, é nunca deixar que os amigos falem mal do ex-marido ou ex-mulher. “É natural que as amigas estejam do nosso lado, mas os miúdos não podem ouvir falar mal do pai. É preciso ter muito cuidado com isto. Mesmo que pareça que eles estão a ver televisão e a não ouvir. Nunca podemos deixar que isto aconteça.”

E depois do divórcio?

No período de sofrimento e auto-descoberta, há algumas coisas que fazem a diferença. Uma das recomendações de Kiki é que se mude a casa: “Não é preciso muito dinheiro sequer. Basta trocar as capas das almofadas, comprar um cobertor novo, uma vela com um cheiro diferente. A casa tem memória. Temos de readaptá-la a esta nova fase e transformá-la em nossa. É o nosso espaço.”

Passados cinco anos, Carolina Jacques adora a nova vida que tem. Diverte-se com as amigas, diverte-se com os filhos e tira imenso prazer da sua própria companhia. Aprendeu a gerir a casa sozinha. Adaptou-se às novas rotinas. Paga as contas a tempo e arranjou mecanismos para conseguir tomar conta da nova vida, de forma autónoma e sem ajuda.

E, admite, adora quando tem tempo para si. “Adoro quando os miúdos vão para casa do pai e eu fico sozinha no fim de semana. Sou capaz de nem combinar nada. Fico no sofá a ver Netflix e a aproveitar a casa só para mim.”

Mas, para quem sente que o casamento está em risco, é importante insistir e tentar salvá-lo. É legitimo falhar, mas continua a ser um projeto de vida. E como qualquer projeto de vida, é importante saber que se fez tudo o que estava ao alcance para preservá-lo. “Recebo várias mensagens de pessoas que estão a passar por fases atribuladas no casamento. Não é por eu adorar a vida sozinha que acho que as pessoas devam desistir. Bem pelo contrário: é preciso conversar, passar um fim de semana fora, fazer tudo o que é possível para que o casamento se reerga.”

“Vais Amar-te e Respeitar-te” de Carolina Jacques, editado pela Zero a Oito, vai ser apresentado a 6 de junho no Cascais Shopping (vou estar lá), a 8 no Norte Shopping, no Porto e dia 10 na Feira do Livro, em Lisboa.

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