Relações

“ser mais feliz significa aceitar os meus maus momentos”

Ser mais feliz

Que grande orgulho. Digo-o sem vergonha. É o quinto livro. E é um resumo de tudo aquilo que, com um esforço imenso, fui aprendendo ao longo destes anos, principalmente desde a morte do meu pai, quando a vida mudou à força. Como disse na apresentação em Lisboa, nunca fui uma miúda muito feliz. Sempre fui muito existencialista, sempre questionei o sentido de tudo, mas principalmente sobre quem somos e o que é que andamos para aqui a fazer. Sinto-me grata todos os dias por tudo o que tenho e pelo caminho que fiz. Com esforço e com trabalho diário (a escrita e o blogue ajudaram-me muito) tornei-me mais positiva e consigo ser mais feliz, todos os dias. Neste post estão excertos da entrevista que dei à revista Fora da Estante à Fnac. Foi uma conversa longa. E o resultado é maravilhoso. Muito obrigada.

 

Sobre ser feliz…

“Há a falsa ideia de que alguém feliz é alguém que está sempre muito sorridente. Não. A felicidade é um estado de espírito que cada um sabe gerir à sua maneira. Se calhar para uma pessoa é estar sempre sorridente, mas para outra é estar sempre calma, independentemente do semblante. (…) Acredito que a imperfeição é importante para ser mais feliz. Para mim, ser mais feliz significa aceitar os meus maus momentos. Estar em paz quando estou num momento triste, quando estou com a neura ou chateada. E é isso que convido as pessoas a fazerem.”

 

Sobre a busca pela perfeição…

“Acho que a culpa não se pode atribuir nunca a um só fator, porque as coisas evoluem num todo. Por exemplo, agora não gostamos que os miúdos estejam sempre agarrados às tecnologias, da mesma forma que a minha mãe não gostava que eu enchesse a casa de pósteres. Cada um vive num determinado tempo com determinadas características. (…) Para melhorar isto, a solução não é encher de repente as redes sociais de fotografias com os bebés de birra e nós cheios de sono, a mostrar o nosso pior, nada disso. Mas é não ter vergonha de falar no mal.

 

Sobre as redes sociais…

“As redes sociais enquanto tal são fabulosas. Permitiram-me reencontrar amigos de escola, permitem-me ter notícias de pessoas que de outra forma não teria. (…) O mal é quando as redes sociais se tornam a vida de uma pessoa. Quando alguém se isola e vive exclusivamente para o feedback que recebe. A solidão sempre existiu. A questão é que as redes sociais permitem uma falsa solidão, na medida em que alguém que está profundamente sozinho passa a viver para os likes. Sempre existiram pessoas na solidão, pessoas que olham para as vidas dos outros e as acham perfeitas sem saber o que acontece dentro de casa. Não acho que as redes sociais tenham aí qualquer culpa.”

 

Sobre o blogue…

“Antes de me ter casado era uma pessoa que, numa determinada altura do ano, ficava sempre deprimidíssima. Achava que nunca nada de bom me iria acontecer. E o facto de ter o blogue e poder ir aos arquivos fez-me perceber que aquilo era cíclico: todos os anos, na mesma altura do ano, os mesmos sentimentos. Isso é terapêutico. Acho que o exercício da escrita é fundamental.”

 

Sobre o livro “Ser Feliz Todos os Dias”…

“Entre os meus 24 e 37 anos gostava que me tivessem dado este livro em todos os momentos, mas se tivesse de escolher apenas dois acho que seriam aqueles em que percebi que não ficaria com os pais dos meus dois primeiros filhos, quando questionei se estaria a fazer tudo errado. Porque quando as relações falham, mesmo que tenhamos a certeza absoluta de que estamos a fazer o nosso melhor, há sempre uma sensação de projeto falhado.”

 

Sobre a negatividade…

“Acho que o nosso maior problema é a não aceitação. Ser negativo é uma característica normal. Faz parte do nosso instinto de sobrevivência. O medo também. (…) Fomos exigindo cada vez mais e não olhando com olhos de agradecer para aquilo que temos. Não é uma questão de negatividade, mas de aceitarmos aquilo que não podemos mudar.”

 

Sobre o conformismo…

“Às vezes achamos que aquela pessoa que aceita a sua “vidinha” é alguém conformado. Mas não. Pode ser alguém que é feliz assim, que aceitou as coisas como elas são. Podem dizer-lhe: “Podias ter um emprego muito melhor.” Mas a pessoa não quer, porque não é dali que retira a sua satisfação. Se calhar é alguém que tem um emprego que nós consideramos medíocre, mas que depois passa os seus fins de semana a pescar e isso é algo que a faz feliz.”

 

 

Sobre a minha Almada…

“Acho que o ser de Almada me define, porque a adolescência lá é diferente. Querendo ou não, o subúrbio tem uma essência que a cidade não tem. Lisboa tem muitos encantos, mas o subúrbio, exatamente por não estar no centro, tem de criar a sua própria identidade. (…) Almada tem muitas características que me ficaram marcadas para sempre. A nível político, sou assumidamente de esquerda e tenho toda uma história com os meus pais. O som do 25 de Abril, as passagens de ano, os barcos da Lisnave… tudo isso marcou a minha vida. É fácil ser mais feliz.”

 

Sobre ser uma eterna adolescente…

“Sou uma eterna adolescente porque nunca consegui largar algum existencialismo: questionava-me sobre o que estamos cá a fazer, de que forma podemos ser mais felizes e todas essas coisas. Acho que ser uma eterna adolescente é gostar de continuar a usar as botas que usava em adolescente, as camisas que usava em adolescente, a música que ouvia em adolescente. Se tiver de perceber a minha verdadeira essência, acho que ainda sou aquela miúda num quarto em Almada a olhar para o Tejo.”

 

Sobre vocês, que me lêem. obrigada.

“Vamos ser brutalmente honestos: um blogue sem leitores é uma coisa, um blogue com leitores é outra. São eles que me permitem, por exemplo, escrever livros. Se não tivesse aquelas pessoas que me leem, nunca teria o interesse de uma editora de livros. (…) Por outro lado, acho que é fácil tornarmo-nos um bocadinho dependentes do carinho daquelas pessoas, porque, em termos narcísicos, elas aconchegam-nos o ego em dias em que duvidamos de tudo o resto. E depois há pessoas que nos leem e que, por circunstâncias da vida, se tornam amigas. Tenho duas ou três pessoas que se tornaram fundamentais na minha vida e que vieram através do blogue.”

 

 

Sobre ser mais feliz.

Comentários (4)

  • […] Que grande orgulho. Digo-o sem vergonha. É o quinto livro. E é um resumo de tudo aquilo que, com um esforço imenso, fui aprendendo ao longo destes anos, principalmente desde a morte do meu pai, quando a vida mudou à força. Como disse na apresentação em Lisboa, nunca fui uma miúda muito feliz. Sempre fui muito existencialista, sempre questionei o sentido de tudo, mas principalmente sobre quem somos e o que é que andamos para aqui a fazer. Sinto-me grata todos os dias por tudo o que tenho e pelo caminho que fiz. Com esforço e com trabalho diário … Ver artigo completo no Blog […]

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  • Bom dia.
    Antes de mais muitos parabéns, e muito êxito para o seu livro.
    Sobre as problemáticas da existência que a si mesma coloca, – “sempre questionei o sentido de tudo, mas principalmente sobre quem somos e o que é que andamos para aqui a fazer.”- Tendo a concordar consigo de que, realmente, o sentido de tudo é, se não uma incógnita indesvendável, pelo menos de muito difícil decifração.
    Já quanto ao “quem somos e o que andamos para aqui a fazer” francamente, senhora Catarina: isso é de uma simplicidade quase infantil. Lê-se a + Picante e o derramamento de conhecimento sobre quem somos e para que existimos até nos afoga.

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  • Gostei muito da entrevista e parabéns pelo livro!
    P.S. -Devo ser muito distraída, nunca tinha reparado nas tatuagens da Catarina. Gostava de ler um post sobre o assunto 🙂

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  • Sobre o conformismo…

    Trabalho em casa (embora por conta de outrém) numa área com bastante procura – sou eng. Informática. Sei que se trabalhasse em Lisboa poderia ser mais ambiciosa, ter um salário melhor, etc. Mas opto por não o fazer porque nada paga o previlegio que é cuidar do meu filho diariamente, não apanhar trânsito. Mas não me sinto conformada. São prioridades. Estas são as minhas 😀

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