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viver sem cartão multibanco…

viver sem cartão multibanco

Viver sem cartão multibanco?

Na casa onde cresci existia uma gaveta onde o meu pai guardava o dinheiro que levantava no banco para cada semana. Lembro-me com exatidão de uma bolsa azul escura com o símbolo do banco timbrado a dourado e duas partes em plástico transparente onde estavam as notas muito direitas e brilhantes. Na verdade talvez as notas estivessem gastas e sujas, mas para mim o encanto daquela bolsa emanava luz. Acho mesmo que, na minha infância, aquilo era uma espécie de arco de tesouro na fascinante gruta escondida que era a gaveta do meu pai.

Voltemos ao presente e ao meu problema crónico e irritante de perder cartões multibanco. Já me deram centenas de dicas, já tentei outras tantas estratégias, mas acabo sempre por concluir que lá desapareceu outro. Quase sempre desaparecem de formas tão ridículas como ir para o caixote do lixo quando deito os restos de uma refeição de centro comercial. Ele estava em cima do tabuleiro.

O episódio mais grave terá sido quando, em véspera de férias, perdi o cartão multibanco, fui ao banco pedir um provisório e consegui voltar a perdê-lo no mesmo dia. Podem chamar-me irresponsável. Aliás ficam a saber que o meu filho adolescente usa esta fraqueza durante as conversas em que o repreendo por ser distraído.

No final de julho, mais uma vez, perdi o meu cartão multibanco, com as atenuantes de um cérebro de grávida e do regresso stressante de uma consulta dos miúdos. Enervada, zangada e bastante cansada da minha pessoa impus-me o castigo de não ter multibanco até regressar de férias. “Viver sem cartão multibanco é possível, tenho a certeza!” No dia seguinte fui ao banco e levantei o valor que considerei necessário para uma semana. Não tendo nenhuma bolsa com a carisma daquela que suportava o orçamento familiar de casa dos meus pais, optei por um envelope guardado num local seguro. Já usei esta técnica em momentos de maior contenção — separar por envelopes o valor destinado a cada item de gastos do mês –, evitando assim estar a gastar o que já tem destino, mas já há bastante tempo que não o fazia.

A meio da primeira semana já o envelope estava quase vazio. Duas razões: ter o dinheiro disponível fez com que andasse com mais do que o necessário e, por outro lado, entre os antigos levantamentos e pagamentos nas lojas as contas da semana tinham sido excessivamente otimistas. Na segunda semana cheguei ao fim com dinheiro no envelope. Obriguei-me a gerir e a anotar o que gastava — exercício que tantas vezes aconselho a quem sente que anda a gastar demais sem perceber como.

Mantenho-me a viver sem cartão multibanco. Já estive tentada a pedir um novo, mas tenho que cumprir o castigo. E, mais do que uma penalização, isto de olhar para as notas reluzentes e fazer com que sobrem no final de cada semana obriga-me a rever todas as dicas de poupança que conheço e que, assim como os malditos cartões, me esqueço mais vezes do que devia.

 

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