Relações

“O mais feio da turma”

bullying

Em miúda, achava sempre que era menos menina do que as minhas amigas. Achava-me maior, mais bruta. Escrevi sobre isto no outro dia, depois de ter visto o filme “I Feel Pretty” (vejam – obrigatório para todas as miúdas). Fez-me pensar em aceitação e fez-me acreditar ainda mais que a beleza, mais do que perfeição, é uma forma de estar na vida. A propósito deste post, recebi um comentário que trouxe um tema sobre a qual vale a pena falarmos: bullying físico em rapazes. Ou “o mais feio da turma”.

Dizia:

“Apesar deste espaço ser mais para meninas deixem-me desabafar. Um dia na mesa da sala de aulas alguém pontuou os rapazes da turma. Andava no 10 ano. Eu fui o pior colocado. Auch, que doeu! Bolas, vou ver o filme também.”

Fala-se na pressão feminina, dos ideais de beleza que nos vendem e que queremos atingir e que quase sempre são inatingíveis, mas depois também há as vulnerabilidades masculinas, tão legitimas e verdadeiras como as nossas. O bullying físico não pesa só nas raparigas. As manifestações é que podem ser diferentes.

 

Pedi à psicóloga clínica Filipa Jardim Silva para comentar. Aproveitei para lhe fazer mais algumas questões sobre o tema. Como agir, como é que isto afeta o lesado, como é que os rapazes e raparigas reagem a este tipo de rótulo, como é que os digerem e qual o papel dos pais e dos professores.

Sobre o comentário…

“É ilusório considerarmos que apenas as raparigas/mulheres sofrem pressões em relação ao seu aspecto. Em ambos os géneros podem existir comportamentos hostis e discriminatórios em relação à aparência física, o que suscitará sofrimento tanto em raparigas como em rapazes.

A adolescência é particularmente uma fase desafiante, pelas inúmeras mudanças físicas e psicológicas que se dão, pela importância de pertença e aceitação no grupo e pelo processo de maturação de identidade/diferenciação pessoal que se dá. Todos estes factores fazem com que um jovem adolescente, seja rapaz ou rapariga, se torne mais vulnerável a opiniões de terceiros e a situações externas que o implicam. É mais difícil ter perspectiva do que está a acontecer em tempo real e facilmente as ocorrências ganham uma proporção e intensidade emocional significativas. Percebemos, por isso, que uma lista que nos avalia de um ponto de vista físico no secundário, pode fazer-nos colocar em causa o quão atraentes somos aos olhos dos outros e equivaler isso ao nosso valor pessoal.”

Normalmente o bullying que nasce da pressão física, da aparência, é mais associado às raparigas. Mas os rapazes também sofrem do mesmo… há diferenças/padrões nos abusos de cada género?
Existirão pontos em comum e outros que se diferenciam. De uma forma geral, nestas situações de bullying os atributos físicos ganham uma importância exacerbada e com base nos padrões standardizados do contexto em que os jovens se encontram, certas características físicas serão consideradas mais ou menos apelativas, e alguns traços mais específicos poderão virar motivo de gozo.

Nas raparigas as roupas que se usam, o tamanho do peito, a quantidade de pelos e o peso assumem-se como factores com grande relevo. Nos rapazes, a altura, a definição muscular, a força e o tamanho do órgão sexual ganham destaque. Toda esta pressão física faz com que os balneários das escolas se tornem em momentos de tortura para muitos jovens que se sentem invadidos na sua privacidade e muitas vezes desrespeitados.

As reacções a estes abusos variam consoante o género? Ou seja, rapazes reagem de uma forma e as raparigas de outra? Quais é que são os sinais a que se deve estar atento?
De uma forma geral, as raparigas tendem a reagir com base em reposicionamentos no seu grupo social (aproximações e afastamentos de determinadas pessoas) ou com um foco compensatório na prestação académica, para se sentirem valorizadas de outra forma. Assim, podem destacar-se pelas suas notas e não pelo seu físico. No seu grupo de pares, podem ripostar com agressões verbais (directas ou indirectas) dirigidas à fonte de bullying e podem inclusivamente utilizar as redes sociais para marcar uma posição ou para se esconder, apagando por exemplo a sua página pessoal.

Os rapazes, muitas vezes, são mais físicos e explosivos na sua resposta, podendo ser agressivos explicitamente ou em contextos de desporto, por exemplo, como que para fazer justiça. Noutras situações, podem dirigir a sua agressividade contra si mesmos ou contra o meio escolar (exemplo: vandalismo nas instalações). Não obstante, pode igualmente verificar-se um foco compensatório no desempenho académico.

Desta forma, importa que familiares e agentes educativos estejam atentos a alterações de humor, apetite e sono, comportamento, e prestação académica. É fundamental compreender o contexto em que se dão estas alterações para se poder precocemente detectar a presença de mal-estar e sofrimento proveniente de situações de mau-trato físico ou psicológico em algum dos meios no qual o jovem se insere.

Os miúdos conseguem ser maus. Pontuar a beleza não nasce nos dias de hoje. Que impactos negativos é que isto tem, sobretudo para quem fica com o título de o mais feio?
O impacto não é linear, uma vez que mais do que a situação em si, aquilo que mais impacto cria é a forma como a situação é vivida a par de circunstâncias específicas do evento. Assim, o nível de impacto dependerá da estrutura de personalidade da pessoa em questão, da fase de desenvolvimento em que se encontra, dos recursos pessoais (cognitivos e emocionais) e sociais que tem a par daquilo que aconteceu especificamente e o seu nível de repetição (situação única ou repetida de forma sistemática).

Naturalmente que este tipo de situações em que se avaliado quantitativamente e de forma comparativa não será agradável para ninguém em nenhum momento das suas vidas, mas o real impacto e nível de sofrimento que suscita variará muito de acordo com factores específicos.

Que ações devem tomar-se? Mais vale deixar resolver ou há medidas que devem ser tomadas pelo adulto?
Os adultos são modeladores das crianças e adolescentes que serão os adultos de amanhã. Existirão vários níveis de intervenção, que terão de ser avaliados caso a caso. Um ponto é certo: ignorar mal-estar ou agressões (verbais ou físicas) entre crianças e adolescentes não é aceitável. É possível respeitar a autonomia de um jovem e ao mesmo tempo certificarmo-nos enquanto adultos responsáveis. Saber que esse jovem tem o que necessita para lidar o mais adaptativamente possível com a situação concreta. Pode intervir-se a um nível reactivo (quando o problema já está instalado) ou preventivo (que será sempre preferível).

É importante, por um lado, investir-se na educação dos jovens para que sejam capazes autonomamente de distinguir o bom do mau e de criar limites, nos seus comportamentos e face aos comportamentos de terceiros. Este investimento na aquisição de valores como respeito e auto-controlo, é potenciado se for feito a par do fornecimento de ferramentas de gestão emocional, ou seja, ensinar-se estratégias para se lidar com emoções mais desafiantes.
Em casos em que os maus-tratos já estão a ocorrer é importante avaliar-se a situação de forma a poder intervir-se e apoiar o melhor possível quer o jovem bully quer o jovem que está a ser vítima, ambos necessitam de apoio de formas diferentes.

O professor deve estar atento a estes aspetos?
Naturalmente os professores têm um papel determinante nestas situações. Enquanto agentes educativos que são o seu papel não é apenas o de ensinar conteúdos programáticos de disciplinas como português e matemática, mas é também o de contribuir para a formação de cidadãos activos e de seres humanos completos. Considerando o seu nível de presença e participação na vida de tantas crianças e jovens, assumem-se como modelos. Quando ignoram uma agressão física ou verbal entre colegas, legitimam de alguma forma esse comportamento que poderá escalar e vir a ser dirigido ao próprio professor, que entretanto deixa de ser visto como uma figura de autoridade a quem se deve respeito.

E os pais?
A par dos professores, os pais são as figuras mais significativas, que deverão estar atentos a alterações dos seus filhos. Mais do que banalizá-las ou problematizá-las precocemente, importa que as explorem e compreendam. Ter uma canal de comunicação com os filhos é fundamental. C om mais ou menos dificuldade, para se assumirem como figuras de apoio e não de repreensão.

Bullying feminino, bullying masculino. É tudo bullying. E é tudo igualmente mau. Do nosso lado, vamos seguir o conselho: estar atento, ouvir, apoiar a e compreender.

 

 

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