Dieta das Princesas

Jean-Pierre Oliveira: “‘ser’ humano é uma experiência avassaladora”

Jean-Pierre Oliveira: "o yoga muda-nos por fora e por dentro"

O Jean-Pierre Oliveira defende um princípio sobre o qual já vos falei: viver a vida mais devagar, um conceito que ele identifica como sendo tão simples, mas ao mesmo tempo, tão difícil de compreender [tento seguir esta máxima, mas a realidade é que nem sei bem como se faz]. Este é o tema e o nome do livro que o professor de yoga lançou recentemente – o Slow Living Yoga, editado pela Arena. O post de hoje conta-nos a sua aventura pelo mundo desta prática, que alterou completamente a forma como ele olha para a vida. Como todos nós, vivia para metas e numa correria com um destino pouco concreto. Passados 30 anos desde que ouviu pela primeira vez a palavra yoga, é uma das maiores referências no país, impulsionador do hot yoga, uma variante desta pratica que acontece numa sala aquecida a 40 graus, na academia que criou, Yoga Spirit (também podem ver o Facebook). Foi também quem guiou a mega sessão que decorreu no Wanderlust, o festival de iogies (onde eu tive o prazer de estar!). Hoje conhecemos a sua história.

Em que dia e como é que descobriu o Yoga?

Esse dia já vai longe! Tinha eu uns 16 ou 17 anos e ainda vivia em casa dos meus pais. Penso que dei atenção pela primeira vez a esta palavra, no momento em que a minha irmã, Ana Cristina, explicou-me que tinha iniciado aulas de Yoga. Na altura não havia Google que me pudesse esclarecer sobre o significado da palavra e, sem saber o que era realmente, senti logo interesse pelo exotismo e mística indiana.

A palavra Yoga ficou-me gravada na mente, despertando e aguçando a minha curiosidade. Como as coincidências não são fruto do acaso, no mesmo ano, o meu pai, ofereceu-me um livro pelo meu aniversário: O Bhagavad Gita (bíblia Hindu), onde são apresentados por Krishna (avatar de Visnhu) quatro tipos de Yoga. O meu pai não tinha a menor ideia do que era este livro. Já lá vão 30 anos….E hoje parece-me que o universo já tinha o um plano para mim.

Antes, como é que era a sua vida?

Antes, a minha vida era como a da maioria das pessoas: hiperativa e acelerada. Estava sempre extremamente ocupado, até quando estava de férias tinha de cumprir os meus imperativos de calendário e os itinerários planeados antecipadamente, porque não queria ter a sensação de estar a perder o meu tempo, tempo esse, valioso e sujeito aos erros da minha mente: pois acreditava que o facto de estar “muito” ocupado é que dava conteúdo e valor à minha existência.

Estava sempre à procura de mais adrenalina, à procura de experiências novas para lhe dar mais sentido para que “valesse a pena”. A minha vida era, portanto, muito preenchida em todos os aspetos, mas, no fundo, também me deixava com um sentimento de grande vazio e com uma fome de viver cada vez maior porque nunca me sentia plenamente satisfeito. Quanto mais a minha agenda estava preenchida, mais descontente estava comigo próprio.

“Ser” humano é uma experiência avassaladora. Todos nós estamos sujeitos às dificuldades inerentes à nossa convivência com os “outros”.

Refere na biografia do site Yoga Spirit que “precisava de se entender a si próprio e procurava o seu lugar na sociedade, queria encontrar as respostas aos motivos das suas frustrações e desapontamentos”. Que frustrações e desapontamentos eram estes?

Desde muito pequenos, somos condicionados à obtenção de resultados, são-nos atribuídos imensos objetivos quantitativos e qualitativos. Exames, testes e concursos, disto ou daquilo, para nos encaixarmos numa sociedade Utra-competitiva. Explicam-nos que precisamos de lutar para vencer e oferecem-nos prémios de bom comportamento. Cada vez que se vence uma “luta”, a próxima já nos espera num desenrolar sem fim de desafios que somos levados a superar sob ameaça de sermos postos de parte, à margem da vida social. Queremos ser aceites, reconhecidos e valorizados e, por isso, queremos cumprir as “nossas obrigações”.

Como muitos, queria sempre estar no banco da frente, na linha dos vencedores e respondia às exigências que me eram impostas com outras exigências que me autoimpunha e, apesar de obter resultados positivos, continuava na corrida contra o relógio para responder aos desafios seguintes, repetindo este mesmo processo sem descanso. As situações podiam ser diferentes, mas o stress era sempre o mesmo. Era como estar no meio do oceano, sem terra à vista, a remar pela minha vida sem saber se estava na direção certa e tampouco sabia qual era. Como a terra nunca mais aparecia, continuava a dar voltas enormes com a sensação de estar sempre no mesmo sítio, sem rumo definido e sem saber se existia realmente um ponto de chegada.

No livro “Slow Living Yoga” defende que antes devemos mudar-nos a nós e só depois o mundo. Nesta mudança, que aspetos é que considera urgentes, tanto em nós, como no mundo?

Temos de aprender a travar a nossa necessidade de avaliar tudo o que faz parte da nossa vida, que no fundo é subjacente à nossa necessidade de controlo (criando-nos uma sensação de segurança ilusória). Julgamos rapidamente e quase sempre do ponto de vista da crítica (isto ou aquilo “poderia ser” ou “não está”….) Precisamos de aprender a recondicionar a nossa mente, aprender a ver as coisas do ponto de vista daquilo que queremos, para nos sentirmos bem, e não do ponto vista do que não gostamos e/ou que nos aborrece e nos deixa frustrados.

O que significa o conceito “Slow Living Yoga”?

Slow Living Yoga é um conceito tão simples, e ao mesmo tempo, tão difícil de se entender. Deriva da capacidade em termos noção da nossa forma de pensar e de perceber como esta nos prejudica muitas vezes. É a nossa capacidade de desenvolver a nossa autoconsciência para
assumir que temos a responsabilidade de criar pensamentos mais positivos, podendo desta forma criar emoções e sentimentos mais expansivos e satisfatórios, transformando a nossa visão do mundo, o nosso relacionamento com os outros.

Mais do que um livro, é essencialmente uma partilha intimista de pensamentos, sentimentos e emoções… “Ser” humano é uma experiência avassaladora. Todos nós estamos sujeitos às dificuldades inerentes à nossa convivência com os “outros”. Neste livro falo de como consigo
criar uma vida plena aplicando técnicas para gerir o tipo de pensamentos que vou criando, evitando focar nas coisas que não tenho e mantendo toda a minha atenção no que quero conseguir e que me fará mais feliz. Contudo, o maior obstáculo é conseguir parar o turbilhão de emoções no qual navegamos e redirecionar a mente.

Ainda há muita gente que associa o yoga a uma prática aborrecida e parada. Pode desmistificar esta ideia?

Confunde-se a prática de Yoga com a da meditação, quando me fala de Yoga suponho que se refira a aulas comuns que são no fundo práticas de Hatha Yoga (o yoga é um método uma filosofia enquanto que o Hatha Yoga é um conjunto de ferramentas do Yoga). Existem várias
formas de apresentar as práticas, tal como existem diferentes tipos de pessoas, as práticas são influenciadas pela personalidade do seu facilitador podendo ir de ritmos mais lentos e suaves aos mais rápidos e intensos. O meu estilo seria mais este segundo. Umas aulas mais adequadas a pessoas que gostam de estímulo físico, intenso, e de trabalho mental mais desafiante.

O yoga tanto tonifica os músculos, como acalma a mente, devolve-nos a mobilidade articular e estabiliza as emoções. Até parece magia ou demasiado bom para ser verdade!

Que benefícios têm o yoga para o nosso corpo e mente?

Muda-nos por fora e por dentro, quando praticado com empenho e consciência, trazendo-nos resultados positivos e evidentes. Tanto tonifica os músculos, como acalma a mente, devolve-nos a mobilidade articular e estabiliza as emoções. Até parece magia ou demasiado bom para ser
verdade! Também se costuma praticar Yoga como complemento de outras práticas desportivas ou quando não nos encaixamos em mais nada, confundindo-se comummente com alongamentos e/ou aulas de streching. Mas no fundo, o Yoga (neste caso, o Hatha Yoga) é uma forma de recondicionar ao corpo, e é uma preparação possível a atividades físicas radicais. Antes de qualquer prática mais explosiva, dever-se-ia praticar Yoga para ganhar estrutura muscular e mobilidade, e desenvolver consciência corporal. Quando não sabemos onde nos encaixamos, o mais provável é encontrarmos no Yoga uma solução para atingir objetivos pessoais e de bem- estar. Mas de facto, é preciso alguma maturidade e superar as limitações criadas pela nossa mente (e pela dos outros). É preciso ter estrutura mental para integrar a sua ética filosófica, como os Yamas e Nyamas, no nosso quotidiano. A vontade de praticar, procura no fundo, responder a duas necessidades de crescimento espiritual: criar foco para a mente e criar consciência corporal. E porque quero praticar Hatha Yoga? Para manter a mente concentrada, manter a forma física, para fins terapêuticos ou para criar disciplina física/mental.

Introduziu o Hot Yoga. Que vantagem tem esta prática que aparece numa sala aquecida quase 40 graus?

O Hot Yoga apresenta-se como um adjuvante ao detox natural do corpo, habitualmente efetuado pelos rins e o fígado, mas também desenvolve a força, a flexibilidade e ajuda na tonificação muscular. Com um trabalho cardiovascular intenso, impulsionado pelo aquecimento da sala, perde-se muita água corporal, sais minerais e outro componentes (Cloreto de sódio, metilfenol (o-cresol e p-cresol), além de ureia e dejetos de nitrogênio), ou seja, transpira-se muito! Portanto, esta prática destina-se a quem procura um trabalho físico completo: desenvolver a força, a flexibilidade, a tonificação muscular e ter um trabalho de cardiovascular profundo. Uma prática regular irá também ajudá-lo a manter a mente focada, e desenvolver os níveis de concentração no dia-a-dia. O trabalho é tanto por dentro como por fora.

Hoje em dia já não dou aulas de Hot Yoga, estou a dinamizar uma fórmula mais evoluída, mais terapêutica e menos “agressiva” para o coração, o Yoga Pure O2, também realizado em sala aquecida, mas só até 30 graus. O calor permite abordar as posturas de forma mais segura, e embora os músculos fiquem com mais flexibilidade por terem maior irrigação de sangue, o mesmo não acontece com os ligamentos e os tendões que devem ser protegidos nas posições de esforço. O calor aumenta, os batimentos cardíacos e o grau de esforço sobe, exigindo mais do corpo e levando-o a trabalhar mais. Por outro lado, os músculos também ficam menos tensos, e tal como o corpo em geral, a respiração é melhorada, e a mente fica mais tranquila.

 

Inspirem-se ainda com as histórias do Pedro Barbosa, da Marisa e do Zé Maria.

Comentários (1)

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