Maternidade

ter”igual aos outros”

ter igual aos outros

Nota prévia: esta não é uma crónica conclusiva, antes pelo contrário. Isto é um conjunto de dúvidas de uma mãe de três filhos. Poderia dizer que é um sinal dos tempos mas estaria a mentir porque passei pelo mesmo.

Quando era miúda, teria 13 ou 14 anos, pedi aos meus pais uns ténis “como os das minhas amigas” – expliquei o formato, a cor e os outros pormenores que achei relevantes. No dia seguinte, ou não fosse o sentido de vida do meu pai fazer-me todas a vontades possíveis, lá estavam em casa uns ténis como tinha descrito. Na verdade eram uns ténis quase como eu tinha pedido, eram uma imitação da marca que as minhas amigas usavam. Agradeci, enchi o meu pai de beijos e saí com eles calçados. As minhas amigas que usavam os ténis de marca gozaram comigo. Eu não me consigo lembrar se voltei a levá-los para a escola mas sei que os usei até não me caberem.

Meses depois todas as minhas amigas usavam as mesmas calças de ganga. Nessa altura já tinha aprendido que a marca era relevante e também tinha noção que as calças eram muito caras, demasiado caras. Poupei a minha mesada até ter dinheiro para comprar umas. Algures neste processo, por aprendizagem, feitio ou exemplo, deixar de ligar a isso das marcas.

Perguntava uma mãe no outro dia: “Devo dar telemóvel ao meu filho? Todos têm.” Perante esta questão, agora como mãe, há um lado a quem apetece dar aos meus filhos aquilo que eles pedem (se puder pagar, obviamente) porque “os outros têm”, porque entendo a necessidade de integração, porque percebo essa vontade de ter “igual aos outros”. Por outro lado, o mais racional e ponderado, sei que contrariar a necessidade de ter “igual aos outros” é uma parte demasiado importante nesta missão de educar, sei que enrijece o caráter e forma os valores. Sei também que, se for realmente importante, a ideia de poupar para algo que queremos muito é importante.

E assim, neste exercício de escrita, respondi à minha questão: não, não é preciso ter porque os outros têm. Pode custar mas o melhor é não ser “igual aos outros”.

 

Crónica Dinheiro Vivo

Comentários (13)

  • Falou tudo o que penso! Não precisamos ter igual aos outros pois não somos os outros e muitas vezes financeiramente não temos as mesmas posses.

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  • Farto-me de explicar à minha filha de 7 anos que realmente o melhor é sermos diferentes dos outros e que nem todos têm as mesmas posses. Por vezes tem as mesmas coisas que os outros,outras vezes terá mais e outras menos. Não é fácil como pais exercer este poder de decisão principalmente se nos lembramos da nossa adolescência. Acho que o ideal como em tudo,é existir um equilíbrio. Dar mas reforçar que é importante dar valor ao que se tem e não dar quando é desnecessário ou quando não se pode. explicando sempre a intenção. A minha filha chora,mas depois de se acalmar acaba por aceitar e perceber o que lhe explico.

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  • Exacto, também sou defensora do valor de que não temos de ter só porque os outros têm. mas isso é para mim, agora como adulta e mão, em que posso ter umas calças da feira enquanto as minhas amigas têm de marca. mas depois temos a questão da integração, a idade dos 13/14 (porque tb sou mãe de um rapaz dessa idade!)….claro que eles têm de perceber o “valor” do dinheiro, mas por uma questão de “integração” acabo por comprar o que o meu dinheiro pode pagar. Até porque tal como a Catarina disse, tb já tivemos a mesma idade e os esmos desejos….

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  • Exacto, também sou defensora do valor de que não temos de ter só porque os outros têm. mas isso é para mim, agora como adulta e mãe, em que posso ter umas calças da feira enquanto as minhas amigas têm de marca. mas depois temos a questão da integração, a idade dos 13/14 (porque tb sou mãe de um rapaz dessa idade!)….claro que eles têm de perceber o “valor” do dinheiro, mas por uma questão de “integração” acabo por comprar o que o meu dinheiro pode pagar. Até porque tal como a Catarina disse, tb já tivemos a mesma idade e os esmos desejos….

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  • Exacto, também sou defensora do valor de que não temos de ter só porque os outros têm. mas isso é para mim, agora como adulta e mãe, em que posso ter umas calças da feira enquanto as minhas amigas têm de marca. mas depois temos a questão da integração, a idade dos 13/14 (porque tb sou mãe de um rapaz dessa idade!)….claro que eles têm de perceber o “valor” do dinheiro, mas por uma questão de “integração” acabo por comprar o que o meu dinheiro pode pagar. Até porque tal como a Catarina disse, tb já tivemos a mesma idade e os mesmos desejos….

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  • A questão da integração é importante,mas por vezes também não é. Falo do meu caso que via os meus colegas com telemóveis e eu claro que também queria e acabei por ter,mas em tantas outras coisas eu era das que tinha menos,não tinha roupa de marca e lembro-me perfeitamente da primeira vez que o meu pai foi comigo a uma loja e comprou dois casacos de marca,ou do primeiro fato de treino da adidas.Tive o primeiro computador quando fui para a faculdade e nunca,mas nunca me deixei de sentir integrada. Se gostava de ter menos dos que todos os colegas?Não,mas nunca deixei de ter amigos por isso.Sempre me rodeei de muita gente e os meus amigos eram sempre mais velhos e podiam inclusive sair para onde eu não podia,ainda assim,nunca deixei de ter amigos ou de namorar. Vivia bem com o que tinha e era feliz assim. E acho até que hoje em dia o ter,leva a que se criem grupos a que não quero que a minha filha pertença. Há uns tempos falava-me que havia um menino na escola que era gozado porque ía sempre com a mesma roupa e eu explique-lhe que se era assim era porque não tinha mais nada para vestir.Disse-lhe para não ser mazinha como os outros e se todos os pais incutissem o mesmo aos filhos,o ter para se integrar deixava de ser assim tão importante.

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  • Como sou vaidosa passei toda a minha adolescência em processo criativo para sair diariamente com looks que disfarçassem a minha falta de roupa crónica. Nada era de marca. Só eu :).

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  • Na minha humilde opinião não é dar porque os outros têm, é dar porque nos dias de hoje o não ter telemóvel ( e aqui a minha opinião do dar é só sobre telemóveis, poderia falar de marcas mas não é essa a minha resposta) é caso para ser considerado o estranho, o anormal, o que não está dentro dos avanços.

    A minha razão principal ao dar tlm às minhas filhas qd adolescente foi o comunicarmos, porque passaram a andar mais sozinhas, ou seja o tlm é só para isso, comunicar( que é raro pq elas teimam em ter o tlm no silêncio nunca me ouvem ?), é certo a Internet tb é uma forma de comunicar , mas será necessário andarem, ou andarmos tb nós pais ?, absorvidos por algo que nos condiciona o dia a dia, as relações humanas, o simples observar a vida

    As minhas filhas ( 13 e 17anos) têm tlm sem Internet, vivem bem sem isso fora de casa, faz nos alguma confusão quando vemos alguém tão absorvido pelo tlm, pelo convívio virtual em vez do convívio real.

    Não nos podemos esquecer que somos o exemplo para os nossos jovens, e tudo o que se vive a nível de relações humanas a onde nos levará?

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  • Realmente é verdade, os bens materiais às vezes, ou mesmo sempre, deixam de ter significado, quando existem coisa tão ou mais importantes como o amor, ou carinho.
    Também sempre liguei a marcas quando era miuda, sempre gostei dos tenis xpto, e tal como o seu pai a minha mãe que foi mão e pai a partir dos meus 10anos ( perdi o meu pai por causa do cancro) sempre me deu as coisas que eu queria e pedia. Ainda hoje ela dá. Ainda hoje funciona assim, porque as mães são assim. Porque a minha mãe viveu toda a vida para mim, e o objetivo de vida dela depois de ter perdido o homem da vida dela, era eu. Mas eu sei perfeitamente que muitas vezes o mais importante não são os ténis da adidas stan smith, nem o iphone 6 plus nem o audi A3, o mais importante, foi e é os valores que ela me ensina que ela me transmite, que ela me oferece todos os dias,e que com o passar dos anos mais significado tem para mim. Ainda não sou mãe. Quero muito sê-lo mas acho que vou ser igual à minha, porque nao quero ser de outra maneira.

    Parabens Catarina são crónicas destas que me enchem os dias!

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  • Acima de tudo, acho que a construção de uma personalidade forte e segura vai fazê-los ver que a questão da marca, vale o que vale.
    O saber dizer não é importante, se bem que difícil. Sei o quão difícil é ver quem amamos triste.
    Mas quantos nãos vão eles ouvir durante a sua vida?
    Eu tenho uma irmã, logo era muito mais complicado satisfazer os nossos pedidos, as compras eram sempre em dobro. Apesar dos meus pais não serem pessoas carenciadas, o meu pai era da opinião que o valor que dávamos às coisas, perdia-se no momento em que as conseguíamos. Não era apologista de nos premiar com bons ténis ou roupas de marca quando passávamos de ano, porque no fundo esse era o nosso trabalho. Mas fazia-nos sentir umas lutadoras, que não era a roupa de marca que nos definia, mostrava-nos o orgulho que tinha por nós.
    Já depois de concluirmos o ensino superior e de começarmos a trabalhar, deu-nos o valor que podia para cada uma de nós dar entrada num carro usado. Foi a única vez que nos «premiou» ou compensou pelo nosso esforço. E eu até hoje agradeço o facto dele o ter feito desta forma. Nunca tive dificuldade em me integrar com o “pessoal das marcas”, tudo o que sou tem bastado.

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  • Obrigada, Catrina.
    Bonito texto…o eterno desafio de mantermos/construirmos a nossa identidade individual, em equilíbrio com a observação/gestão da identidade colectiva.
    Assunto muito interessante.
    Obrigada 🙂 Parabéns!

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  • Adorei e revi-me neste texto que escreveu. Também eu quando andava na escola gostava de ter igual aos outros, ainda que nalguns pontos demorada a gostar de algumas coisas que os outros tinham e quando chegava a gostar a moda já estava a passar. Mas ténis de marca, calças de ganga de marca, quem não gostava de ter… Também a minha filha mais velha (9 anos) gosta de ter igual aos outros e muitas vezes diz-me que quer fazer esta ou aquela atividade porque, diz ela, que gosta (quando eu no fundo sei que ela gostava mesmo de frequentar esta ou aquela atividade porque esta ou a outra amiga anda). Muitas vezes lá estou eu a dizer que temos que ter quando é possível e realmente precisamos (ainda que algumas vezes lhe acabe por fazer a vontade, ainda que mais tarde). Não é fácil no nosso mundo impor este “não ser e não ter igual aos outros”, mas penso que a custo e pouco a pouco – no meu papel de mãe que quer o melhor para as minhas filhas e mimá-las com coisinhas giras – vou conseguindo que ela se demarque deste ter que ser e ter que ter e mostrando que não podemos ter tudo agora porque mais tarde queremos e não podemos – porque já quisemos demais antes.

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  • Olá outra vez, sou a que está sempre a comentar tudo o que escreves. “nomad_family do instagram e Facebook”.
    E Vim à procura do post que me fez conhecer-vos e começar a seguir. O do casamento barato. Como não gastar muito dinheiro. Gostava de casar mas realmente não queria gastar muito dinheiro. É mais pelo simbolismo da coisa. Já li o post e já me inspirei. Entretanto tropecei neste texto com o qual me identifico bastante.

    Andei num colégio e lembro-me da comparação de marcas. Mesmo que fosse imitação davam logo por isso. Lembro-me que comprei umas levis “imitadas” e fui bastante gozada… até que me aconteceu isto também como escreves. “Algures neste processo, por aprendizagem, feitio ou exemplo, deixar de ligar a isso das marcas.” 🙂 E era só isto. Um bom dia aí para casa!! Por aqui também estamos com sono..mas também damos mais beijinhos. :p
    Agora vou só continuar a ler os posts que escreveste sobre viajar com filhos, sobre capsule wardrobe e sobre poupança. Para quem gosta de viajar, como nós, é super importante.

    Optámos por não comprar uma casa ou uma mota mais rápida para comprarmos a autocaravana, ainda que velha. Mas é tão bom!!

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