Maternidade

adolescência [Fala com elas]

sobre a adolescência [Fala com elas]

as minhas primeiras conversas com a Alexandra foram sobre amamentação. depois disso já conversámos sobre quase tudo. fiquei apaixonada pelo projecto Nheko assim que soube da sua existência. depois da entrevista que demos tornou-se ainda mais especial.

a Alexandra escreveu este post e eu percebi que tinha que o trazer para o blog. porque a adolescência é um tema que me encanta e porque está, todos os dias, em minha casa, nas minhas rotinas e nas minha preocupações.

“Muita coisa se escreve sobre a adolescência e os adolescentes, quando esta fase ainda estava longe eu romanceei muito sobre ela e cheguei a convencer-me que ia conseguir vivê-la sem os normais sobressaltos que afectam a maioria dos pais.”

a filha adolescente da Alexandra trouxe as amigas e falaram sobre a vida, a família, o futuro e o presente. a promessa ficou feita: a seguir serão os rapazes. e existirão muitos outros posts roubado à Nheko.

 

Nheko: Como são as vossas famílias?

Rita, 15 anos: Eu vivo com os meus pais e os meus três irmãos, o meu pai é músico e passa muito tempo fora, a tocar ou a jogar golf, as minhas irmãs são gémeas mas muito diferentes, uma gosta de desporto e de estudar, a outra adora cozinhar e cuidar do nosso irmão mais pequeno, somos bastante unidos e passamos muito tempo juntos.

Madalena, 16 anos: A minha família não é muito chegada, cada um está para seu lado, não falamos muito uns com os outros, tenho uma irmã com menos um ano que eu e antes discutíamos muito, agora já nos damos melhor.

Mariana, 15 anos: A minha família tem uma história curiosa, os meus pais separaram-se há uns anos e o meu pai começou a namorar com a minha actual madrasta que já tinha sido casada e tinha um filho daquele que, passado uns tempos veio a ser o meu padrasto, o ex marido da minha madrasta é o actual companheiro da minha mãe, é confuso mas é assim. A minha mãe teve mais dois filhos por isso tenho três irmãos mais um “emprestado”.

Na casa do meu pai somos mais distantes, eu tenho uma relação melhor com a minha mãe.

Maria, 15 anos: Eu tenho um irmão mais novo com 10 anos, temos a típica relação de irmãos. Eu dou-me melhor com a minha mãe do que com o meu pai, discordo muito com a forma como o meu pai pensa e com o seu comportamento comigo. De resto somos muito distantes do resto da família, tios, avós…

Carolina, 15 anos: Eu vivo com os meus avós, com a minha mãe e com os meus dois irmãos que são mais novos. Os meus pais separaram-se há pouco tempo mas eles nunca se deram muito bem portanto acho que nunca tive uma estrutura familiar normal. Dou-me bem com o meu pai mas sou distante dele, tenho uma relação mais próxima com a minha mãe, também me dou bem com os meus avós mas temos muitas discussões, mesmo muitas, com os meus irmãos também. A minha família no geral é uma grande confusão mas sempre que precisamos uns dos outros estamos lá para nos apoiarmos, é uma família difícil mas gostamos muito uns dos outros.

 

Nheko: Quando pensam no futuro como é que se imaginam, que tipo de família idealizam e o que é que não querem para vocês?

Madalena: O meu pai não é católico e a minha mãe é, eles fizeram um acordo antes de terem filhos, se nascessem rapazes não teriam uma educação católica, se fosse meninas teriam uma educação católica. Nós somos duas raparigas e fomos ambas baptizadas e eu fico feliz por isso, eu quero que a minha família seja católica praticante, a minha mãe não é praticante mas leva-me à missa todos os domingos, eu vou sozinha. Esta era uma coisa que eu gostava para a minha família.

A minha casa é muito grande e isso permite que quase nem nos cruzemos, eu vou querer uma casa pequena e aconchegada que faça com que a família esteja mais junta.

Mariana: Com a experiência que tenho vivido eu vou tendo noção de que algumas coisas que eu não vou mesmo querer repetir com os meus filhos.

Carolina: Vou querer uma marido de quem goste mesmo muito e não me vou separar dele para que os meus filhos não sofram com essa situação. E vou ser uma mãe muito rigorosa (risos), não vou ser tipo a minha avó mas vou controlar os meus filhos e não os vou deixar fazer tudo, não quero que se percam.

Rita: Eu acho que o mais importante numa relação entre pais e filhos é a confiança, sem isso não se vai a lado nenhum. Sem confiar nos filhos os pais ficam sem saber o que podem ou devem permitir e vivem sempre preocupados.

Não mentir aos pais é fundamental, além da nossa consciência ficar mais leve podemos contar com a confiança dos pais.

Madalena: Quando os pais proíbem e não deixam fazer nada os filhos acabam por se revoltar e fazer ainda pior.

Maria: Elas tocaram num assunto que acho muito importante, os pais não deixarem fazer as coisas e os filhos revoltarem-se, eu não estou a dizer que me vou revoltar ou que me revolto mas o meu pai não me deixa fazer grande parte das coisas que quero e a minha mãe deixa, ora isso acaba por motivar muitas discussões em casa e eu sinto-me muito mal por ser o motivo dos conflitos.

A minha mãe confia em mim mas o meu pai não, eu acho fundamental que os pais confiem nos filhos e penso que os filhos vão sempre retribuir, se os pais confiam eles não mentem e fazem tudo para manter essa confiança. Se os pais são abertos com os filhos estes também vão ser mais abertos na relação que têm com os pais.

 

 

Nheko: De uma maneira geral acham que os adultos são justos convosco?

Madalena: Acho que até são mas nós não queremos aceitar. A maioria das vezes tem a ver com a nossa segurança, se o meu pai diz que não posso ir a determinado sítio é porque ele pensa que alguma coisa pode correr mal e eu como quero ir nunca vou pensar nas possíveis consequências. Eu só vejo um lado e os meus pais só vêm o outro.

Maria: Os pais deviam preocupar-se mais em explicar as suas razões, sem se zangarem e deixarem-nos explicar também as nossas vontades e razões, se nos ouvirem nós vamos conseguir ouvir também.

Os adultos deveriam esforçar-se mais por nos dar conselhos e não ordens, por nos ajudar a ver as coisas e não nos proibir de fazer o que vamos fazer na mesma.

Rita: Eu acho que cada um é dono de si próprio e devia poder ter a última palavra, fazer o que achar melhor, as consequências são sempre do próprio. Se eu não estudar e chumbar sou eu que vou sofrer as consequências no meu dia a dia, para os pais é mau mas pior é para o próprio. Os pais podem-nos ajudar a perceber o que nós não estamos a ver, podem-nos orientar e nós devemos confiar neles mas na verdade nós vamos acabar por fazer as coisas à nossa maneira, arranjamos sempre forma, pode ser é ás claras ou ás escondidas.

 

Nheko: Vão ser pais diferentes dos que têm?

Maria: Eu vou ser mais liberal, vou querer que os meus filhos confiem em mim e poder confiar neles, vou querer construir essa relação.

Rita: Não muito diferente da que tenho, eu vou querer ter uma relação com base na confiança, gostava que a minha filha me contasse tudo sem vergonhas ou esquemas, queria que fossemos como amigas.

 

Nheko: O que vos impede de ter essa relação “ideal” com os vossos pais?

Carolina: A vergonha e o medo das reacções.

Madalena: A forma como nos tratam. Por exemplo se eu recebo um teste mau eu não fico preocupada com a nota em si, eu fico preocupada é com as consequências, com a reacção que sei que os meus pais vão ter, vou ficar de castigo. Isto não é base para uma boa relação.

Maria: Eu acho que se os pais não se zangassem tanto se calhar até tinhamos mais brio pessoal na escola, eu preocupo-me em ter boas notas para poder fazer as coisas da minha vida e não para saber mais, aprender e ser boa aluna. Acho que isto não faz sentido nenhum.

Rita: Isso vai-se reflectir no futuro, quando tiveres a tua vida e a tua liberdade vais ter de fazer as coisas por ti e não para agradar aos outros, os pais que têm essas atitudes deviam pensar nisto e perceber o quanto é mau para os filhos.

Maria: Devemos fazer as coisas e esforçar-nos por nós, para nos sentirmos bem connosco.

 

 

Nheko: Qual a vossa opinião sobre os castigos?

Maria: Não servem para nada, é a conversar que se resolvem as coisas, temos de compreender os “porquês” senão não serve de nada.

Carolina: Não sei, se for merecido até pode fazer sentido mas em relação à notas não.

Madalena: Eu estou sempre de castigo, se tenho menos de 13 num teste fico de castigo e não posso fazer nada nem sair no fim de semana seguinte, é muito injusto, até porque há vezes em que estudo imenso e não consigo e fico de castigo na mesma.

Rita: Eu nunca fiquei de castigo, cá em casa não há castigos.

Carolina: Eu, depois de fazer uma festa em casa sem autorização fiquei de castigo e achei justo.

Mariana: Só em pequena é que tive castigos, eu agora não faço nada que “mereça” castigos. Mas sou muito diferente na casa do meu pai e na da minha mãe, eles são muito diferentes comigo e tenho uma relação diferente com cada um.

Madalena: Isso até com os professores acontece, há professores de quem não gosto e não me importo com eles, os que eu gosto esforço-me muito mais e tenho melhor comportamento.

Rita: Os pais que não querem que os filhos façam coisas nas suas costas mas que recusam tudo o que os filhos lhes pedem e nem dão justificação, estão de certa forma a obrigar os filhos a mentir. Se há castigos então são os adultos que muitas vezes os merecem.

Mas também há quem não faça mesmo nada porque tem medo dos pais.

Mariana: Eu tenho medo do meu pai, não que me bata nem nada disso mas tenho medo de piorar a relação que tenho com ele e que tem sido muito difícil de conquistar. Eu era incapaz de fazer alguma coisa “mal”, desobedecer ou sair sem autorização.

Maria: No caso da Carolina que fez um convívio sem autorização eu acho que se os pais dela tivessem abertura para ela pedir nada disto tinha acontecido!

Madalena: Sim, ela ia chegar a um acordo com eles sobre o número de pessoas a convidar, o tipo de festa, etc.

Rita: Claro, ela ia pensar que se os pais estavam a deixar, a colaborar então teria de fazer todos os possíveis para que tudo corresse bem, para corresponder ao que eles lhe estavam a dar – Confiança.

Carolina: É do género, não me deixam fazer mas eu faço na mesma e quero lá saber… não há mais nada a perder, é indiferente.

Rita: Se nos sentimos respeitados, fazemos o mesmo.

 

Nheko: É mais difícil ser adolescente do que foi ser criança?

Madalena: Sim, os problemas com os pais são maiores, há mais conflitos. Eu em pequena era chegada aos meus pais e agora não sou nada.

Mariana: Era tudo mais fácil, menos confuso.

Rita: Eu não acho nada. Gosto muito mais desta fase, sinto-me melhor comigo, estou mais confiante e divirto-me mais. A relação com os meus pais até está melhor agora, mesmo com conflitos e zangas, faz parte, temos respeito uns pelos outros e estamos muito próximos. Antes era pior, vivíamos muito longe da escola e não estávamos tempo nenhum em casa, era pior a minha vida.

Madalena: Eu também gosto de ser adolescente mas acho que é mais complicado.

Mariana: Agora temos mais a noção de tudo.

 

Nheko: O que é que vos preocupa?

Maria: As minhas notas, as médias para entrar na faculdade, o futuro.

Rita: A mim preocupa-me fazer as escolhas certas.

Madalena: É preciso conhecer as pessoas certas, às vezes isso faz toda a diferença na nossa vida, é preciso ter sorte também, fazer as escolhas certas, sim.

Maria: Por vezes mais do que o curso hoje é importante o esforço, a atitude, as ideias e a forma de pensar.

Mariana: O curso é muito relativo, a minha mãe nunca andou na faculdade e sempre trabalhou em coisas que gostava, nunca esteve desempregada.

Carolina: A mim preocupa-me ter sucesso, fazer o que gosto e receber bem por isso, conseguir uma vida estável. Eu gostava de ser estilista, trabalhar no mundo da moda, ter uma marca minha.

Rita: Eu quero viajar!

Madalena: Ter sucesso é poder viajar, conhecer coisas novas.

Rita: Eu tenho uma lista de coisas que quero fazer na vida, quero ter o máximo de experiências possível, gostava de ser hospedeira, modelo, actriz, mas também outras coisa, trabalhar num bar, numa loja, até apanhar lixo na praia, experimentar de tudo até perceber o que é que mais gosto de fazer.

Madalena: Não dá para pensar em fazer só uma coisa, ter uma mesma profissão toda a vida, há tanta coisa.

 

Leiam a conversa completa em Nheko.

 

Novembro 2015 Fotografias Vitorino Coragem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários (3)

  • Obrigada pela partilha, Catarina.
    Embora a minha filhota seja pequena, deu-me que pensar!…

    Responder
  • Ora ai esta um post mto interessante.
    Mark Margo
    http://www.markmargo.net (entretenimento e cinema)

    Responder
  • Fazemmuita falta artigos sobre a adolescencia.O ponto de vista deles é muito importante.Asemoções e até problemas emocionais que possam surgir e dos quais ninguém fala.Obrigada.
    Filomena

    Responder

Escrever um comentário