Sonhos

sobre o Natal que não compreendo e as prendas que não compro.

Nunca compreenderei o Natal. Não falo da comemoração, da data e do seu simbolismo de forma pura e reinventada. Eu nunca entenderei a loucura das compras de Natal. 
Cresci numa família muito pequena, as prendas desta data resumiam-se a quatro ou cinco embrulhos, que transportávamos no Volkswagen carocha, verde garrafa, entre Almada e a Figueira da Foz. Eram exatamente quatro ou cinco embrulhos que trazia de regresso a casa. Lembro-me que, entre os meus sete ou oito anos, fiquei muito incomodada pelo reduzido número de prendas que tinha para descrever na composição pós-férias. Passou-me depressa.
Nunca recebi mesada suficiente para fazer compras de Natal e, quando finalmente recebi o meu primeiro salário digno do nome, sendo já adulta e com (apesar de reduzida) capacidade de decisão, optei por não dar prendas de Natal.
Admito que terá sido a mais radical das decisões e sei que, até ser uma coisa a que os meus mais próximos estão habituados, não foi uma coisa muito bem vista. Hoje agradeço a tranquilidade que dá a estes dias em que, meio zonza, assisto a uma cidade em reboliço.
Aquilo que não entendo não é a confusão, nem sequer as horas nas filas para pagar prendas, embrulhar prendas, ir ao supermercado, entrar, estacionar e sair de qualquer lugar onde existam lojas. Aquilo que não compreendo são as caras zangadas, os empurrões e os suspiros de saturação. E ainda menos consigo arrumar na cabeça os 12 meses (menos uns dias) que as pessoas passam a maldizer o dinheiro que não existe na carteira.
A economia agradecerá este fenómeno sazonal e eu desejo que o dinheiro que entra calhe aos pequenos comerciantes e também aos grandes que pagam salários. Aqueles que não têm mesmo dinheiro nenhum, aqueles que nem voz têm para se queixarem disso, não estão nos centros comerciais. Mas saberão, certamente que é Natal.
Eu, que não compro prendas, e que me sinto um ser estranho nestes dias, gostava que o simbolismo da data servisse, um dia, para alguma coisa melhor que isto.

Comentários (16)

  • Não podia estar mais de acordo!!

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  • Eu adoro o natal. E comprar presentes para os meus. faço-o com calma, com tempo, com prazer. E, agora que tenho filhos, cada semana do advento é vivida com entusiasmo, com rituais, com novas rotinas. O dia de natal não chega de repente. Houve etapas que se cumpriram até ao grande dia. No dia 24 recebemos a família e fazemos uma grande festa. Vamos dormir. Durante a noite acontece magia e quando as crianças acordam têm as surpresas merecidas. É uma época espectacular. Se soubermos vivê-la. Como tudo nesta vida.
    Beijinhos e feliz natal.

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  • Isso é muito relativ! Sempre comprei prendas e confesso que fiquei orgulhosa quando dei as minhas prendas compradas com o meu salário! Prendas não tem de ser obrigatoriamente trabalho, confusão, desespero, loucuras nas filas e etc…vai de cada um! Eu compro prendas e gosto de oferecer, de oferecer à família, aos amigos, aos desconhecidos, sem abrigo, animais e por ai adiante! Gosto de oferecer nos anos, no Natal, no dia a dia! Seja um prenda grande, pequena, cara, barata! Ofereço o que me apetece e que sei que faz falta. Não dou por dar! Mas o que tenho na cabeça neste dia em especial é a minha família toda reunida à volta da mesa e as crianças ansiosas pela meia noite! E não é por isso que somos mais gananciosos, que damos menos valor às pessoas, ao amor, carinho! Volto a dizer a loucura e valor que damos às épocas e dias do ano vai de cada!

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  • Gosto do Natal, gosto de comprar prendas, de escolhê-las porque quero que quem as receba goste. Não gosto da confusão de última hora mas nem sempre é possível fazer tudo com a calma necessária a esta época festiva. Sim, há confusão, caos, filas… Mas é nesta época que se juntam familiares distantes, amigos de longa data que não se encontram noutra época. É nesta altura que as pessoas estão mais abertas ao outro – não só aos que nos são próximos – mas à solidariedade, à caridade, à dádiva, à comoção, à bondade. O Natal é consumismo. Mas o Natal é também Amor. Tem essa magia. Se não acontecer em mais altura nenhuma do ano, que aconteça agora então.

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  • Eu tb sou das que adora esta época e de toda a azafama que se vive em volta dela. Somos 25 sentados à mesa e na hora da troca das prendas gera-se sempre a confusão. Houve um ano que uma das toalhas que estavam na mesa desapareceu…não sabemos bem o que aconteceu mas provavelmente foi embrulhada com os papeis dos presentes. Agora, com isto do aumento de impostos e cortes nos salários, já não compramos presentes para toda a gente, cada um de nós tem que comprar um só presente no valor que combinamos e cada um de nós recebe 1 só presente. O nosso Natal está menos materialista mas nem por isso diminui a vontade de estarmos os 25 sentados à mesa. Não se perderam as tardes como as de hoje e amanhã em que eu e as minhas irmãs passamos na cozinha da minha mãe a fazer as receitas de Natal. Natal devia ser todos os dias, é certo, mas estes dias são os que sabem mesmo a Natal.

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  • eu gosto muito de ler relatos de Natais felizes. o facto de não comprar prendas não faz dos meus Natais momentos tristes.

    "Aquilo que não compreendo são as caras zangadas, os empurrões e os suspiros de saturação."

    beijos e um Natal muito feliz.

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  • Olha, sabes que mais? Apesar de gostar muito de oferecer prendas aos meus queridos, concordo em absoluto contigo. É que não há pachorra para as caras zangadas e para os suspiros a desejar o fim das festas 🙂

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  • Todos suspiramos de saturação alguma vez no ano, não é só no Natal… Pode acontecer mais nesta altura ou então demonstrarem mais, mas também acontece mais nesta altura vermos a nossa cidade cheia de luz, animação e pessoas fora de casa!Quanto aos empurrões e caras zangadas quem me dera a mim que só acontecessem nesta altura do ano!

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    • Eu suspiro com as obrigações da vida. E escolhi não sentir o Natal dessa forma. Não é uma crítica 🙂

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  • A minha relação com a época do natal está muito ligada à infância. Mais do que recordações eu tenho sensações. Como criança estava muito receptiva à espiritualidade. Era muito fácil acreditar num menino Jesus que vinha de noite deixar presentes na árvore que enfeitáramos. Acreditar em algo transcendente e mágico tornava a época particularmente especial. Não recebia presentes xpto, aliás, eu não pedia nada nem ninguém me perguntava o que queria. Mas acordar pela manhã e ver os embrulhos! Era qualquer coisa!
    Claro que o Natal perdeu encanto a partir do momento em que descobri que os presentes eram oferecidos pelos pais. Contudo, com filhos consegui resgatar essa parte da minha infância.
    Mas observo que quem não teve uma experiência semelhante à minha não valoriza tanto o natal.

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  • Concordo plenamente!
    Este não é o verdadeiro espirito da época! E efetivamente vemos as pessoas um ano inteiro a queixar-se e nesta altura(e ainda bem para o comércio, mas não vive só desta época!!!)é o caos!

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  • Só para desejar um feliz Natal, a ti e aos meninos.

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  • Feliz Natal!

    Filipe
    Correr Na Cidade

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  • Presentear é um prazer para mim. Oferecer algo que porá um sorriso na cara dos seres queridos, algo que sei desejam ou dará jeito dá-me gozo.
    Tenho prazer em pensar nesse presente, tenho prazer ao comprá-lo. E faço-o durante o segundo semestre do ano, ou seja, já nas férias, se viajo para fora, ou nos meses seguintes, quando ando por aí pelas lojas, tenho a família e os amigos presentes em mim e vou comprando com prazer, já com o espírito do Natal. Não preciso de que seja dezembro e haja luzes e decorações natalícias para ter esse intuito presente em mim. Normalmente, no fim de outubro, princípio de nov. já acabei as compras. Assim não corri, não me aborreci e vivo o mês dedicada às outras coisas : a escolher em família a árvore, a enfeitá-la, a gozá-la todas as noites a alegrar a nossa casa e serões, acendemos velas por toda a casa, uma especial por cada domingo do advento (costume dos alemães cá de casa). Gosto de ser original nos presentes, não me custa oferecer a quem amo e não é difícil porque os conheço. Adoro surpresas e adoro surpreender

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  • Também me custa muito que todas estas vontades que surgem no Natal, a de oferecer, de estar com os outros, de mimar, de enfeitar as casas, desapareçam, na sua maioria, no resto do ano, fazendo prova que o seu surgimento não se dá espontaneamente mas por mera imposição de calendário. Ainda assim, felizmente, consigo reunir alguns momentos que me fazem muito feliz nesta altura.

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  • Eu optei para dar às crianças que ainda acreditam na magia do Pai Natal.
    E o Natal passa muito mais tranquilamente…
    vidademulheraos40.blogspot.com.

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