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6 objectos. 3 histórias. Saudades variadas

saudades variadas

Vamos falar de saudades variadas.

Comecemos pelo meu trauma de infância – em paralelo com a capa do carro (sim, eu sou do tempo em que o carro ficava tapadinho e protegido, todos os dias, depois uma manobra bastante demorada e chata).

O meu pai era dado a rituais. Ele dizia “equipa que ganha não se mexe”. Por isso uma coisa que tinha que ser feita, tinha que ser feita sempre. A capa do carro tinha que ser posta mesmo que estivéssemos cheios de pressa ou fossemos conduzir novamente dali a uns minutos. E a protecção em baixo da toalha da mesa tinha que ser posta mesmo que fossemos lanchar, assim uma coisa básica como pão e manteiga. A capa lá estava, dobrada de forma perfeita, e imaculadamente branca, para sempre posta antes da toalha, sempre.

Saudades.

Agora o termo. E reparem que este da imagem é lindo e novinho (adoro a cor). Eu defendo as marmitas mas sou a pior pessoa nessa arte. Quando finalmente me dedico a planear refeições nunca me apetece o que lá está… E repetindo que defendo as marmitas – por questões de saúde física e económica, guardo as melhores memórias dos almoços com a minha mãe, também fraca nessa arte.

Como adorava – ainda adoro – os almoços com a minha mãe, rodeada de gente crescida, a falar de coisas de gente crescida. E eu ali, a brincar com as minhas coisas, a sentir-me importante.

Saudades.

 

Aprendi a beber café aos quase 40 anos. Por desespero. Agora ganhei-lhe o gosto. Embora continue a preferir um chá verde bem forte (adoro aquela chaleira).

Em minha casa, na casa onde cresci, o café era feito naquelas cafeteiras (como a preta). E eu, que ainda nem sabia se gostava de café, adorava o cheiro que ficava em casa. Era o cheiro do meu pai misturado com o bolo de maçã, feito pela minha mãe. O meu pai cheirava a maçãs, café e erva doce.

A minha mãe guarda o cheiro da nossa casa. Cheira a bolo de maçã acabado de fazer. Com muita canela e acúcar mascavado.

 

 

Podem ver cada objecto carregando em cima da imagem.

foto: Lia Rodrigues

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