a mulher mais bonita do mundo

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tenho este post nos rascunhos há muito tempo. desde miúda que olho para a Helena Christensen como a mulher mais bonita do mundo. tinha 14 anos e poupava para comprar as revistas onde ela estava. encontrei esta sessão fotográfica e olho para esta mulher com 46 anos com a mesma admiração que olhava quando era miúda, tinha 14 anos, e todos os sonhos do mundo, intactos. isto tudo para vos dizer que não há nada mais maravilhoso do que conseguir, aos 37 anos, sentir exactamente o mesmo do que quando tinha 14 anos. e apesar deste post ser sobre a mulher mais bonita do mundo é também sobre isso, sobre a capacidade infinita de ter 14 anos.

 

Quando eu tinha 14 anos apaixonei-me perdidamente na noite de São João. O Nuno foi o meu grande amor-adolescente. Também tive um no infantário e dois na escola primária. Tenho esses grandes amores arrumados em gavetas forrada a papel de cheiro a baunilha. Doce. O meu grande-amor adolescente, porque quem me apaixonei perdidamente numa noite de São João em Almada e que voltaria para mim na noite de São João do ano seguinte depois de me ter abandonado, cheirava a tabaco e tinha a pele muito suave.

Quando eu tinha 14 anos o cheiro do tabaco e da cerveja eram tão doces como as pastilhas de canela que insistia em comer como hoje, com mais de trinta, insisto em por cremes de baunilha, chocolate e creme burle como se isso me tirasse 15 anos de cima. Aos 15 anos quando o Nuno voltou para mim passei a acreditar – e as coisas em que acreditamos quando somos adolescentes são mesmo importantes – que na noite de São João acontecia sempre alguma coisa muito boa.

Deve ter sido por isso que chorei desalmadamente [que é uma palavra que gosto muito porque tem Almada no meio] quando aos 16 anos discuti com o meu amor-incomparavelmente-mais-longo. Este meu amor tem uma gaveta maior que os outros porque é o único de quem guardo todas as cartas-de-amor. Quando o telemóvel apareceu já só discutíamos por isso as cartas são todas de amor. E os telefonemas e os sms [deve ter sido aí que aprendi a mandar sms a uma velocidade alucinante] perderam-se.

As outras marcas também por isso este meu amor-incomparavelmente-longo foi escondido num canto da casa numa noite de São João e arrumado, anos mais tarde, numa gaveta enorme e cheirosa quando voltei do funeral do meu pai. [Lembro-me sempre do meu amor-blog quando escrevo advérbios de modo porque foi ele que me ensinou que nunca levam acento.] Podia dizer que me lembro de todas as noites de São João mas estaria a mentir. Mas tenho a certeza que todas as noites de São João desejei alguma coisa muito boa como o sabor do primeiro beijo ou as dores de barriga do regresso de um beijo.

Podia dizer que me lembro de todos os meus amores e é verdade. Mas nem todos estão arrumados em gavetas brancas forradas a papel com cheiro a baunilha. Tenho amores escondidos debaixo da cama, atrás das portas, no micro-ondas avariado. Tenho amores que ainda me doem, que me tiram o sono nas noites em que o silêncio me incomoda, que chamam o pior de mim quando só tinha que estar o bom.

A Dia prometeu-me que vai fazer um feitiço para que a vida me corra bem. A Dia conhece pombos-pavões e fala com os santinhos, com as fadas e outras entidades divinas que lhe ofereceram dois filhos que parecem anjos e um marido perfeito. Eu acredito nos feitiços da Dia. E se o feitiço colocar – com muito cuidado – os meus amores desarrumados em gavetas doces, na próxima noite de São João vou voltar a acreditar que alguma coisa muito boa me vai acontecer.

 

a mulher mais bonita do mundo

11 Comentários
  1. Ana Leonor says

    Ai Catarina, que maravilha de texto! Já só falta um mês para o São João (de Almada)…

  2. Rosa Negra says

    Li-te desde o início (literalmente, quando te descobri, fui ler os arquivos, porque me identifiquei com os teus sonhos de menina-mulher) e tenho saudades de textos como este (apesar de compreender que "ser conhecida" obriga a escrever mais com a cabeça e menos com o coração).
    Já agora, para mim a mulher mais bonita do mundo é a Monica Bellucci 🙂

  3. Ana Raquel says

    lindo!

  4. Rita says

    Que texto bonito Catarina! Para mim a mulher mais bonita do mundo é a Sophie Marceau e tem 48 anos.

  5. RITITI says

    Sempre a achei a mais BONITA de todas 🙂

  6. OsMeus Trilhos says

    gostei do texto! A helenita é que já não acho assim tão gira, mas pronto…Deve ser inveja lol!

  7. Ana Cabete says

    Com 46 anos continua estonteante!
    As crianças e as adolencentes que fomos continuam dentro de nós… e ainda bem!

  8. SÓNIA says

    Bonita partilha sobre a capacidade infinita de ter 14 anos. O mesmo se passa com a minha infância. Nunca senti que a tivesse deixado lá atrás no passado, estou sempre de mão dada à doce infância dos meus cinco anos, um mundo paralelo que me acompanha, cheio de tesouros genuínos. Ainda consigo ver o mundo pelos olhos de uma criança e isso deixa-me um brilhozinho nos olhos. Hoje, com um cachopo de 4 anos, essa doce infância acorda e adormece comigo, um presente que desembrulho com o meu principezinho todos os dias.

  9. Dia says

    Ai.

    Só agora te leio – fui sendo sempre interrompida. Por tudo e mais alguma coisa. Até por ti própria, na tv, a tal da caixinha mágica. Será que vai ser dali que sai o coelho encantado? pressinto que tudo se alinha e
    Não sei onde falhei no feitiço, costuma ser tiro e queda. Insistirei com fé e carinho.
    Mas te garanto: Há contos de fadas. Tenho um escaldão nas bochechas de um dia perfeito. nove anos depois de a fada madrinha me ter dado mais do que uma abóbora posso te garantir isso, ainda hoje o senti.
    E junho está à porta. É bom para feitiços, para promessas, para o amor.
    Ps – texto tão lindo este teu.
    Pps – estavas linda na têvê
    Ppps – também sempre achei a helena a mulher mais linda do mundo..

  10. morango says

    E por isso é que wicked games é o teledisco, ou video clip mais bonito do mundo!

  11. ruterata says

    Efectivamente os Santos devem ter qualquer pózinho de amor muito mágico. Também foi com um Nuno que me envolvi nas festas de Santo António em Lisboa, numas escadinhas e lá para os 16 anos. E a coisa dura até hoje. E ainda hoje me lembro como tudo aconteceu…

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