Quarentena (mas não serão quarenta dias)

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Talvez esse seja mesmo o maior problema: não sabemos quantos dias durará esta quarentena. Confesso que, ao contrário das horas de sono, não ando a contar os dias.

Esta noite dormi uma hora. Não contei os minutos. Quando me deitei o cérebro ligou e decidiu trabalhar a noite inteira.

A minha avó costumava dizer que “a noite não traz nada de bom”. Eu, adolescente, achava aquilo uma mariquice. A idade (e ainda mais a maternidade) tornou-me medrosa. Os últimos dias com a noite trazem o pânico. Muitas vezes nem sequer é o vírus. A noite traz-me uma capacidade criativa imensa mas muito mal aproveitada.

Confesso que os meus dias não são muito diferentes daquilo que eram. Estamos com os miúdos muito tempo. Já estávamos. A Maria Luiza estava na escola a meio tempo desde Setembro. Nessa altura geri o choque. Custou-me a falta da cidade, das luzes, das pessoas na rua. Custou-me o silêncio, o tempo, a lentidão. Na verdade sinto que andei em estágio para estes dias.

Nesta quarentena custa-me o medo. É a regressão em tantas conquistas relacionadas com a mania das limpezas. Leio e releio que lavar as mãos é essencial e dói-me a pele por todas as vezes que as esfrego enquanto conto até 20, 30 ou 40. Eu que já conseguia ir a sítios com muitas pessoas sem levar o desinfectante no bolso. É isso que me custa.

Também me custa não saber quantos dias dura esta quarentena mas só penso nisso quando devia estar a dormir.

Confesso que os meus dias têm uma coisa boa (muito boa). Autorizei-me a ser frágil ou preguiçosa. Acontece muitas vezes e está tudo bem.

Assim será, todos os dias, este blog que nasceu diário.

A imagem linda é de um livro com uma história muito especial. Conheçam o Jota Ginja, o Quase Ninja

3 Comentários
  1. Esmeralda says

    Obrigada pela sua companhia nestes dias difíceis, Catarina!

  2. Maria Eduarda Calvo says

    Catarina, nem sei o que dizer-lhe. Eu sou a eterna optimista, adoro estar sozinha, adoro estar em casa mas confesso que já me começa a irritar o “vai ficar tudo bem”, pq tb sou impaciente, e isto nunca mais passa. Mas a única coisa que me ocorreu quando li o seu post, foi que há uns anos passei por uma coisa parecida por causa do meu filho mais velho, na altura com 22, ou 23 anos, que resolveu começar a deslocar-se de mota. Deixei de dormir. Noites inteiras a imaginar os cenários mais terríveis, com os acidentes mais dantescos, onde ele, claro, era a personagem principal. Isto durou semanas a fio. Ia enlouquecendo. Não podemos deixar de dormir, Catarina. Podemos tudo, menos não dormir. Qualquer médico lhe vai dizer isso. Peça ajuda. Seja ela qual for, mas peça ajuda. Ainda mais quando temos crianças pequenas que precisam de nós nestas alturas. Esta pandemia é uma m….* está a enlouquecer-nos a todos, portanto não convém dar-lhe munições. Faça isso por si e por eles. E calma. Seja frágil, seja preguiçosa, seja tudo o que tiver vontade, tudo é permitido agora, mas se continuar assim, sem dormir, peça ajuda. Porque é a sua saúde mental que está em jogo. Um beijinho.

  3. Inês says

    Por este andar, já falta pouco para os quarenta dias…

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