O Meu Diário

sonhos contra o medo

Aterrei em Londres quando soube o que aconteceu em Paris. Li tudo quanto a rede wi-fi gratuita me foi permitindo. Chegámos ao apartamento onde iríamos ficar num fim de semana de passeio e descanso, ligámos a televisão e vimos as notícias que já apontavam as próximas cidades – também lá estava Londres. Dormi sobressaltada. Ainda em Londres escrevo uma crónica sobre sonhos. E nego-me a falar sobre medos.

Há muito pouco que consiga dizer sobre os atentados terroristas em Paris. Há muito pouco que consiga dizer sobre qualquer atentado terrorista. Não há teorias, explicações lógicas ou generalizações possíveis. É uma barbaridade.

Neguei-me a ceder ao medo. Tapei os ouvidos quando passavam ambulâncias. Senti-me demasiado alerta em lugares com muitas pessoas. Mas tentei que fosse exactamente o fim de semana que sonhei. E é de sonhos que vale a pena escrever.

Atravessámos a London Bridge e ouvimos cantar um fado. Uma voz lindíssima prendia a atenção de dezenas de pessoas, apesar do frio do final de tarde nas margens do rio. Susana Silva ainda não tem 30 anos. Chegou a Londres há oito anos, num quase capricho de miúda desiludida com as realidades da vida.

No final de uma música outra portuguesa aplaude: “Devia estar no Ídolos!” “Nem pensar”, responde Susana. Na verdade já lá esteve, em 2004. Ficou entre os dez finalistas, mas não aguentou a pressão da maquilhagem e de um estilo com o qual não se identificou.

Há oito anos, três meses depois de chegar a Londres, a vida trocou-lhe as voltas e ficou a dormir na rua. Voltou a cantar num instinto de sobrevivência. Susana prefere dizer que a música a transformou. Um outro artista de rua ofereceu-lhe um guitarra velha e ensinou-a a gerir aquilo que ganhava. Zangou-se com ela quando soube que gastava as 5 ou 10 libras em comida de plástico: “Come uma sopa quente e gasta o resto em internet. Pesquisa pautas, estuda, evolui. Canta em pé. Não és uma mendiga. És uma artista.”

Hoje Susana Silva tem consigo o equipamento em que investiu, paga impostos e a licença para actuar na rua, vende o álbum que gravou com o resultado do crowdfunding que, em Portugal, reuniu mais de cinco mil euros, e canta. Canta em português e comove-se quando lamenta que, neste Natal, não vai a casa. Comove-se ainda mais quando o público a aplaude. E sorri, sorri muito, quando me conta que vive da música.

Esta é uma crónica sobre sonhos numa cidade do mundo. Não há sons de ambulâncias, apenas a voz maravilhosa da Susana. Os sonhos servem para aquecer o frio imenso das barbaridades. Ou, pelo menos, para nos fazerem esquecer o medo.

 

Crónica Dinheiro Vivo

 

Comentários (8)

  • Tão bom ler uma coisa tão bonita no meio de tanta notícia e post triste. Obrigada!

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  • Uma voz linda,carregada de sentimentos. O video está maravilhoso. Que os sonhos da Susana se realizem!!!

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  • Tão bonito, Catarina. Tudo.
    Obrigada pela partilha.

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  • Conheco a Susana das ruas de Londres, mas nao conhecia a história.
    Obrigada 🙂

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  • tão bonito 🙂

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  • […] chegámos a Londres era quase sábado. comprei esta viagem há dois meses [os dois bilhetes custaram cerca de 180€]. marquei o alojamento através do airbnb [quando posso, aproveito a casa de amigos que vivem em Londres]. o alojamento em Londres não é barato e eu tinha um limite por noite que não queria mesmo ultrapassar [89€, assim mesmo ]. ficámos a cinco minutos da estação de Hammersmith. a zona é excelente, central e tem tudo o que é necessário para começar o dia ou comprar coisas e jantar em casa. o apartamento era pequenino, limpo e muito confortável. […]

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  • […] sei que é normal ceder ao medo. E sei que o medo do estado das coisas nos fazem ver numa opção radical a […]

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  • […] sei que é normal ceder ao medo. E sei que o medo do estado das coisas nos fazem ver numa opção radical a […]

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