Sonhos

o T2 dos nossos sonhos…

t2

Os meus pais começaram do zero. Nada de nada, zero mesmo: sem conta bancária, sem poupanças ou ajudas da família. Nem um T2.

Casaram-se e trocaram os quartos alugados por um T1. Decorado com móveis feitos de caixas de cartão, um sofá cor de laranja, uma cama e um rádio. O meu pai, regressado da guerra colonial, conseguiu um emprego compatível com o curso tirado na IBM. A minha mãe, miúda linda e licenciada em Física, ultrapassou uma dura entrevista com o diretor da escola. Deu-lhe um lugar de professora de matemática.

Os meus pais foram tremendamente felizes nesse T1. Estabilizaram nos seus empregos para a vida e decidiram, passados oito anos, ter um filho.

No final dos anos 70, com o país aberto ao mundo, nasciam prédios muito altos nos subúrbios de Lisboa, que cresciam à medida que a capital se enchia de oportunidades. Nesses prédios, tremendamente altos, surpreendentemente altos, surgia uma nova tipologia de sonho, essa que incluía para além dos quartos, um escritório.

Os meus pais, agora classe média, construída com rigorosas e disciplinadas poupanças, queriam comprar uma casa e queriam um T3.

Foi exatamente nesse T3 que fui feita e para onde regressei depois de nascer na freguesia de São Sebastião da Pedreira, tirando à minha existência qualquer espécie de originalidade.

E foi essa quarta assoalhada que aprendi a odiar desde que me lembro de ser gente. A existência de um escritório tornava normal que os serões se passassem com a família dispersa. Em cada final de dia que o meu pai entrava naquele escritório eu sonhava com uma casa com uma sala e quartos. Só isso: sala e quartos.

O T2 onde vivo, exatamente como o T2 onde vivia antes, é uma casa pequena onde todos nos vemos e ouvimos estejamos em que divisão estivermos. O nosso T2 é a casa dos meus sonhos. E ainda bem que alguns sonhos têm exatamente a mesma dimensão do nossa conta bancária.

 

Crónica original Dinheiro Vivo: o T2 dos nossos sonhos.

Comentários (18)

  • 🙂

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  • Gosto do que escreves. Gosto muito. E obrigada por me deixares ler…

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  • Adorei a tua partilha, como adoro sempre, mas estas nostalgicas tocam-me, eu sou do passado…..cresci numa quinta nessa zona a sul em crescimento, uma quinta que no tempo dos meus avós viram-na cortada ao meio e com a casa destruida com a passagem da A2, a casa construida com restos do que foi destruido e com os escassos materias que haviam ficou uma casa pequenina, casa que viria acolher os meus pais qd casaram, foi a forma que os meus avós encontraram para que a minha mãe não acompanhasse o meu pai imigrado no canada e que se conheceram numas férias dele em que ficou alojado na casa dos que viram a ser meus tios,nessa altura a minha mãe começou a imaginar que quem a incinava costura iria ser sua cunhada.

    Tb os meus pais começaram do zero, mesmo o meu pai tivesse trazido alguns dolares que deram ajuda a vida foi feita devagarinho subindo degraus que se sentia que valia a pena o esforço, que se sentia que se conseguia subir, e que o topo estava quase lá. Aos meus 6 anos já tinham construido uma moradia modesta mas o meu pai habituou-se ao campo, ele senhor da cidade, e não conseguia deixar aquela vida, cresci com tanta liberdade, fartura, natureza, convivio, amor, e aquela casa na quinta pequenina era sempre tão grande, mas ao crescer o meu pensamento mudou e o facto de não ter um quarto, de dormir na sala, que inicialmente achava uma maravilha ter a TV só para mim, tornou-se em algo amargurado, e pior a não entender pq tinham os meus pais construido uma casa qd continuavamos a viver ali.

    Agora casada já há 14 anos, a onde o esforço não compensa, a onde não existem degraus para se subir, e em nada tem a ver com esta crise, existe alguém que se acomodou com aquilo que recebeu do pai, que tb como o meu lutou e alcançou, e aqui estamos os 4 num t2 tb como descreves a onde todos parecemos estar na mesma devisão e torna-se complicado com elas crescidas e a necessitarem tb de espaço, tenho alturas que me sinto claustofobica, e necessito de espaço para arrumar, para conviver, para me sentir livre, para me sentir feliz.

    Estranhos estes sentimentos qd me deveria sentir feliz e abençoada pela vida que vivo como quero e escolho 🙁

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  • Em nossa casa somos 4, temos 3 quartos e escritório, mas temos regras…os quartos são para dormir, o escritório para arquivos/livros e a sala é o nosso mundo, onde convivemos os 4, não há isolamentos. Não há TV nos quartos. Tentamos ao máximo partilhar o tempo que estamos juntos. 🙂

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  • Acho incrível teres a idade que tens e saberes tanto…
    Eu cá tive te passar pelas coisas para saber que nem todos os sonhos são o que nós precisamos.

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  • Adorei esta crónica. beijinhos

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  • Sempre gostei bastante de casas pequenas e, há pouco tempo, conclui que o meu problemas é, precisamente, não gostar de casas com corredores… Talvez seja mais simbólico do que propriamente a questão física e por isso revi-me no que escreveste!

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  • Gostei MUITO do artigo que por sorte vi no facebook…cheio de verdades e muito bem escrito!
    beijos

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  • Ser feliz é um estado de alma, uns conseguem ser feliz com muito pouco, outros não conseguem quando têm tudo…

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  • Adorei!

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  • Gostei tanto deste post! Bjs

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  • Gostei tanto deste posto! Bjs

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  • Olá Princesa,
    Vivo em Maputo e comecei a seguir o teu blog à pouco tempo.
    A minha realidade começou por uma casa muito pequena e vivi até casar a sonhar com espaço. Consegui ter a casa que queria e apesar de acontecer à minha família o que tu dizes, ou seja estarmos cada um no seu espaço dentro da mesma casa, consegui encontrar a zona de refeições como o momento de convívio familiar, sei que não é muito mas com filhos adolescentes é aquilo que tenho! em Maputo vivo num espaço mais pequeno onde estamos mais presentes e aí concordo contigo mas a minha opinião continua a ser diferente da tua, gosto de casas grandes, com espaço.
    Tenho a máxima de que "podemos estar presentes e não estarmos juntos"
    bjs

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  • Olá Princesa,
    Vivo em Maputo e comecei a seguir o teu blog à pouco tempo.
    A minha realidade começou por uma casa muito pequena e vivi até casar a sonhar com espaço. Consegui ter a casa que queria e apesar de acontecer à minha família o que tu dizes, ou seja estarmos cada um no seu espaço dentro da mesma casa, consegui encontrar a zona de refeições como o momento de convívio familiar, sei que não é muito mas com filhos adolescentes é aquilo que tenho! em Maputo vivo num espaço mais pequeno onde estamos mais presentes e aí concordo contigo mas a minha opinião continua a ser diferente da tua, gosto de casas grandes, com espaço.
    Tenho a máxima de que "podemos estar presentes e não estarmos juntos"
    bjs

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  • Concordo inteiramente, a dimensão da casa pouco importa, o importante é quão felizes as pessoas são lá dentro. Cá em casa também não há escritório, só quartos e sala, onde todos nos reunimos à noite para passar o serão e é o melhor momento do dia.

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  • Concordo inteiramente, a dimensão da casa pouco importa, o importante é quão felizes as pessoas são lá dentro. Cá em casa também não há escritório, só quartos e sala, onde todos nos reunimos à noite para passar o serão e é o melhor momento do dia.

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  • Simples,bonito e honesto! O que se quer <3

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  • Fui criada numa casa enorme, com poucas pessoas dentro. Agora moro sozinha. Por isso compreendo bem o que diz.
    Também sei que quero, daqui a uns anos, uma casa sempre cheia e que tenha a nossa medida certa.
    Adorei o texto!

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