sobre o tempo-sem-filhos *

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quem não está com o pai/a mãe, os pais/as mães dos seus filhos sabe do que falo. existem dias-sem-filhos. os primeiros dias-sem-filhos custam muito. custa a frustração da família que não correu como queríamos. custa o vazio. custa o silêncio. custa um medo quase irracional que deixem de gostar de nós, que nos esqueçam. custa porque ainda estamos a viver um luto e somos abrigados a experimentar uma nova realidade. depois vamos aprendendo a aproveitar o tempo que volta a ser só nosso. aprendemos a gostar do silêncio. aprendemos a fazer planos. aprendemos o gosto do momento em que regressam. os dias-sem-filhos passam a ser pequenos balões de oxigénio em que respiramos aquilo que somos para voltar a sermos apenas um na logística dos dias. os dias sem filhos podem ser apenas dias em que vamos à casa de banho sem ter que responder a nenhuma pergunta ou que nos deitamos no sofá e podemos escolher um canal sem desenhos animados. o tempo sem filhos pode ser apenas a casa arrumada ou uma conversa de adultos sem interrupções. o tempo sem filhos pode ser um filme no cinema ou um jornal numa esplanada. mas o tempo sem filhos é precioso, é valioso, é único. cada minuto sem filhos tem que valer a pena. sei, quando estou sem filhos e sinto a sua falta, que alguma coisa está errada. sei, quando estou sem filhos e sinto que só faria sentido se eles estivessem que, como um alarme estridente e irritante, que alguma coisa tem que mudar.

os meus fins de semana sem filhos têm sido perfeitos: aproveitados e saboreados. os meus fins de semana sem filhos, aqueles em que me esqueço que sou mãe, têm sido exactamente aqueles que me tornam uma uma mãe melhor e uma pessoas mais feliz. e, se não for assim, não vale a pena.

6 Comentários
  1. Sofia Pereira says

    Às vezes não me apetece consumir tempo a tentar explicar em palavras determinadas coisas e é bom chegar e ter o trabalho feito. A mim faz-me falta tudo isso que descreves, vida de mãe de dois sem qualquer família por perto. Falta-me o oxigénio e fico ainda com menos ar por senti-lo, por desejar chegar a casa um dia que fosse e ter silêncio e poder encostar-me e poder planear com a certeza de cumprir (já nem falo uma ida ao cinema, um jantar sosegado, já só peço uma noite seguida ou silêncio, peço o básico). E dói muito ler as "balelas" de quem critica quem deixou de ter vida por ter filhos…é que não deixaram por querer, deixaram porque não têm o back-up de que os outros logram.
    E depois lemos as histórias noticiadas terríveis e cortamos o próprio ar ao sentir-nos tão mesquinhas por termos tanta sorte e ainda assim nos queixarmos. Estás com a mente super saudável com a tua vida, que bom é 🙂

  2. NR says

    tenho 2. há 8 anos que não sei o que é isso de dias sem filhos. mas gosta. muito.

  3. Bi says

    Ai Catarina… estava tão a precisar deste post… 🙁

  4. Dora Ramalho says

    True 😉
    Custa, mas sabe tãoooo bem!
    Bj

  5. MaB says

    <3

  6. Carla Sanlez says

    Como me revejo…! (Ass:mae separada a um ano-aka Carla;)

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