Sonhos

Adriana (capítulo I)

Acordou cedo. Tomou um duche rápido. Perfumou-se. Vestiu-se devagar. Precisava de tempo para que a personagem entranhasse em todos os seus poros.
Olhou-se ao espelho. Abandonou a sua verdadeira identidade e saiu.
No elevador fez o primeiro telefonema do dia. O inevitável telefonema.
“O que tenho para hoje?”
“Ás 11h30 no Corinthia Alfa Hotel. Quarto 127. É um casal. Deve ser um momento especial.

Sonhos

Cenários

Os meus últimos dias têm sido pautados pela construção de cenários.
Hipotéticos.
Cenários construídos sobre alicerces de insegurança.
De facto os cenários também se constróem de acordo com o nosso estado de espírito.
E os cenários alteram as deixas do personagem.
Impedem a continuação do texto.
Desculpa.

Maternidade

O homem da minha vida.

Durmo praticamente todas as noites com o homem da minha vida.
Durante a noite damos a mão. Damos um carinho.
Dormimos exactamente na mesma posição. Gostamos de abraçar o edredon.
Eu e o homem da minha vida temos muito em comum.
Gostamos de bolachas maria molhadas no leite. Gostamos de brincar na areia.
Gostamos de ver televisão enroscados no sofá.
Durmo praticamente todas as noites com o homem da minha vida.
Antes de adormecermos.

Relações

Amantes (parte II) ou Os amantes e o fim-de-semana.

Existe um dia particularmente difícil na vida dos amantes: a sexta-feira.
Para alguns mais problemática a angústia começa algures durante a quinta-feira.
Outros há (uma pequena percentagem) que vivem toda a semana a sofrer antecipadamente a chegada desses dias.
Assim como há palavras que não são permitidas. Há dias que não lhes pertencem.
A semana dos amantes tem cinco dias.

Relações

Amantes (parte I)

Os amantes combinam num local perdido no meio da cidade. Tão exposto quanto incógnito. Desencontram-se.
Enquanto o carro passa, ela pega no telemóvel.
Naquele parque de estacionamento infinitamente grande o arrumador ajuda-a: Ele foi para aquele lado. (Quantos amantes terá já socorrido nesta fugaz hora de almoço?)
Seguem no mesmo carro enquanto partilham aqueles momentos com a carência de uma intimidade que não existe.

O Meu Diário

Março 2002

Já chegou a Primavera (daquele que seria o mês mais triste da minha vida).
E eu peço que a Primavera traga um sol que me encha o coração e nos devolva o sorriso.
Tento pensar que este sítio é bom porque pode devolver a saúde do homem que eu mais amo neste mundo… Mas não consigo evitar sentir-me farta deste quarto… porque tenho medo que o meu pai deixe de ter a força que tanto admiro nele.