Maternidade

“As crianças para crescerem precisam de correr alguns riscos”

"Crescemos Juntos". Para crescerem os miúdos precisam de correr riscos

Educar será de longe o trabalho mais desafiante de uma vida. Ter filhos significa ter uma quantidade imensa de alegrias, mas significa também enfrentar medos e inseguranças tremendos. A linha entre a protecção excessiva e o extremo oposto é ténue, mas existe e é o local ideal. O importante é pensar e refletir. O que é que importa neste processo? Importa que as crianças se preparem para a vida, felizes, mas que os pais possam acompanhar e interferir neste processo de uma forma saudável, recompensadora e alegre. É como em tudo: é uma questão de equilíbrio, de ouvirmos as nossas intuições, mas de contrariamos a vontade de controlo absoluto. Educar pode ser um caminho repleto de leveza e de coisas positivas, ensinaram-me os meus filhos.  Ao terceiro já o consigo sentir assim, mas sei o quanto custa. E assim crescemos juntos.

A Inês Afonso Marques faz parte da equipa da Oficina da Psicologia desde 2005 e é especializada em Aconselhamento e Psicoterapia Comportamental e Cognitiva, com crianças e adolescentes. Acaba de lançar o livro de parentalidade positiva e feliz, que com muita alegria e prazer vou apresentar, em conjunto com a psicóloga Filipa Jardim Silva, na Fnac do Alegro Algraide, amanhã, 25 de outubro, às 18h30. Chama-se “Crescemos Juntos” e reúne centenas de inspirações para que as famílias procurem evoluir em conjunto, de forma harmoniosa e serena, conhecendo-se e respeitando-se, e combatendo um dos maiores problemas da atualidade: a falta de tempo, mas, sobretudo, a falta de tempo de qualidade. Foi esta o tema sobre o qual falámos nesta entrevista.

 

Do ponto de vista do desenvolvimento para uma vida adulta saudável, qual é o maior perigo que uma criança corre quando os pais percorrem o caminho por ela?

Uma criança que não percorre “os seus caminhos” é uma criança que tenderá a crescer mais insegura e mais dependente, com um autoconceito mais fragilizado (porque interiorizaram que provavelmente sozinhas não são capazes). As crianças precisam de percorrer de forma autónoma, ao seu ritmo, correndo alguns riscos (não perigos!) os seus trajetos, as várias tarefas de desenvolvimento inerentes à sua fase de desenvolvimento. Precisam de nessa caminhada sentirem-se acompanhadas pelos adultos de referência. Percorrer os seus caminhos não significa fazê-los sozinhas, sentirem-se desamparadas… Percorrer os seus caminhos significa terem oportunidade de experimentar coisas novas, explorar o mundo, fazer novas descobertas, com os adultos significativos por perto, disponíveis para elas, para lhe devolver sempre que necessário confiança, segurança, incentivo.

Muitas vezes os pais, na melhor das suas intenções, fazem pelos filhos aquilo que eles já sabem fazer, ou que precisam de fazer, sozinhos para desenvolverem novas competências e ganharem sentido de mestria, para desenvolverem o sentido de autoeficácia e tornarem o seu autoconceito mais robusto. A lógica inerente costuma ser a da proteção, para evitar que “sofram” ou simplesmente porque é mais rápido ser o adulto a fazer. A verdade é que todas as crianças para crescerem precisam de correr alguns riscos e precisam de conhecer os seus ritmos e os seus limites. Precisam de errar e de sentir que o erro é aceite, como forma de aprendizagem. Ser rejeitado numa brincadeira, chegar atrasado, ir para a escola sem o material necessário, ficar com um banho menos bem tomado, cair, viver um desgosto de amor são tudo situações que os pais viveriam pelos filhos ou resolveriam por eles.

Contudo, são as situações desafiantes, as que se fazem e vivem pela primeira vez, as que obrigam a colocar os pés fora de zonas de conforto, as que mais contribuem para o desenvolvimento de recursos pessoais, do ponto de vista cognitivo, social, emocional e físico.

 

E para os pais? Quais é que serão as consequências disto?

As principais consequências são mesmo para as crianças… O significado de um registo de funcionamento de sobreprotecção está muitas vezes na calma que os pais conquistam em relação às suas próprias inseguranças e na conquista de uma ilusão de controlo. Obviamente que educar uma criança implica lidar com níveis de desconforto internos, nomeadamente medos, dúvidas, vergonha… Tenho medo que a minha filha sofra. Não sei o que será melhor para ele, a ou b? Não vou conseguir deixá-la ir para a escola com os tpc por fazer. Faço-os eu.

Não permitir que os filhos experienciem os desafios inerentes às mais variadas etapas do crescimento é uma forma de sobreproteção. E isso é, muitas vezes, dar-lhes a ilusão de uma realidade que não existe – uma realidade sem problemas, sem contrariedades, sem emoções desagradáveis.

 

Em oposição, fala em ensinar os filhos a ler um mapa para a vida. Que elementos é que compõem este mapa?

No fundo os mapas são os desafios da vida. Os desafios inerentes às várias fases de desenvolvimento e às experiências de vida de cada criança, e que implicam assimilar novidades e acomodar respostas, adaptando respostas antigas ou desenvolvendo novas competências ao repertório. Esses mapas são as novidades que a vida vai introduzindo e que acarretam quase sempre novas aprendizagens. Os pais funcionam como guias, ajudando as crianças a perceber as situações e como lidar com elas, orientando-as… Organizar o estudo, resolver o conflito com um amigo, preparar um pequeno almoço, lidar com uma nota mais baixa num teste, perder algo, mudar de escola… Tudo isto são possíveis mapas. Os pais não têm de estar ausentes, aliás, não devem estar ausentes. Podem traduzir as situações, dar sugestões, modelar comportamentos.., Mas é fundamental que deem espaço para que a criança experimente…

 

Crianças que crescem com pais que os “ensinam a ler mapas” têm potencial para se tornarem em que tipo de adultos?

Adultos mais confiantes, seguros e resilientes. Adultos com um kit de recursos pessoais (cognitivos, emocionais, sociais e motores) que favorecerão a sua adaptação aos vários desafios da vida. Adultos mais proativos, com maior capacidade de resolução de problemas, com uma inteligência emocional mais robusta.

 

 

Daquilo que observa, é comum que os pais se esqueçam de conhecer os filhos no longo caminho que é educá-los o melhor possível?

Nalguns casos sim… Não é assim tão pouco frequente, nas consultas, pais e filhos encolherem os ombros quando lhes pergunto: o que mais valoriza no seu filho? Quais são as qualidades dele? O que o acalma? O que o deixa feliz? O que é que ele mais gosta de fazer? Como achas que a/o mãe/pai te vê? O que achas que os pais mais valorizam em ti? De que mais gosta o/a pai/mãe? Por um lado, às vezes existe um excesso de foco no negativo, no disfuncional, nos problemas surgindo pouca margem para se apreciar a criança de outras perspetivas, como um todo.

Por outro lado, os pais estão por vezes tão focados nos seus ideais, ou nas pressões sociais, que se esquecem de sintonizar emocionalmente com os filhos, de compreendê-los, de conhecer coisas importantes do mundo deles, de os apreciar enquanto seres únicos, especiais…
Fico desolada quando nas consultas tenho pais e filhos que não se conhecem…

 

Isto interfere com uma dinâmica familiar saudável? Porquê?

Interfere, porque acabam por estar desligados uns dos outros… Se não conhecemos verdadeiramente as pessoas com quem partilhamos os nossos dias, torna-se mais difícil conseguirmos nutrir vínculos fortes e que contribuam para a satisfação e bem-estar globais. Se estou desconectada, estou menos disponível para o outro, tenho maior dificuldade em conhecê-lo e logo não estou sensível às suas necessidades, sendo potencialmente menos competente a dar-lhe aquilo de que precisa para se sentir bem.

 

Qual é o grande propósito de Crescemos Juntos?

No consultório recebo frequentemente famílias cansadas, desorientadas, desligadas, desesperançadas. Pais e filhos que se sentem reféns da velocidade e das obrigações que preenchem o quotidiano, das exigências variadas e constantes, da dispersão da atenção, das pressões sociais… Pais que precisam de algumas orientações e “colo”, pais que para além das orientações práticas enquadradas no desenvolvimento infantil, na psicologia e na pedagogia, manifestam alguma necessidade de “calibrar a bussola” da parentalidade, reenquadrar os valores em que acreditam e fortalecer a sua confiança.

Decidi neste livro recorrer a uma linguagem simples mas potencialmente impactante, com conteúdos que tocam temas transversais à maioria das famílias, como a gestão emocional, a gestão do tempo, o brincar, o desenvolvimento infantil, a aprendizagem, o bem-estar, os valores, a autonomia, a autoestima…

O meu propósito é tentar tocar no coração dos pais e devolver-lhes confiança e esperança. Gostava que o livro funcionasse como uma espécie de abraço reconfortante diário. É um livro escrito como uma espécie de homenagem a todos os pais que procuram dar o melhor de si todos os dias. Apesar de desafiante, a parentalidade é um lugar verdadeiro mágico que merece ser vivido em pleno.

 

Crescemos Juntos inclui inspirações para uma parentalidade feliz. De todas as que vêm no livro, qual é que a tem maior peso para si? Recorda alguma frase que a tenha marcado mais e que resuma melhor esta ideia?

Esta é mesmo uma pergunta muito difícil… Acredito que todas as inspirações têm um valor muito próprio que, no seu conjunto, transmitem uma mensagem importante: a parentalidade é uma caminhada que pode ser vivida com imensa satisfação, quando somos flexíveis, confiamos em nós, deixamos de ser reféns do tempo e das pressões sociais, honramos os afetos e nos envolvemos nela de forma mais consciente … E também quando estamos disponíveis para crescer com os nossos filhos…

 

 

Não que tenha mais peso, mas é a inspiração que remete para o nome do livro. “Um pai que ajuda um filho a crescer, cresce com ele.”

Como é que foi todo o processo para juntar as 365 (mais uma) inspirações para o livro? Como é que conseguiu reunir todas estas ideias? Onde é que se inspirou?
As inspirações resultam daquilo que a ciência, nas áreas da Psicologia, da Educação e do neurodesenvolvimento demonstra, daquilo que as Famílias, as crianças e os adolescentes com quem trabalho diariamente me têm ensinado e daquilo que a minha Família me tem ajudado a descobrir. Procurei escrevê-las numa linguagem simples, direta, descomplicada, que apelasse tanto à reflexão como à ação. Frases que na maioria dos casos pudessem ser autoexplicativas e que favorecessem uma espécie de “eco interno”.

 

No mundo em que vivemos, quais é que são os maiores obstáculos para uma parentalidade feliz? Como é que se podem ultrapassar?

Acho que um dos grandes desafios se relaciona com o ritmo / agenda dos dias das famílias, com pouco espaço para encontros com significado emocional (embora eles estejam potencialmente sempre presentes, mesmo nos momentos de rotina como o acordar, uma viagem de autocarro ou uma refeição). Contudo, mais importante do que a quantidade do tempo que é passado em conjunto, aquilo que é determinante para um crescimento harmonioso e para o desenvolvimento de laços afetivos fortes é a qualidade desse tempo. A disponibilidade para se ser pai vai muito além da disponibilidade de tempo. Em grande medida a disponibilidade emocional é tão ou mais importante do que outra formas de disponibilidade. Mas tem de existir tempo em interação, de contacto!

Um outro desafio relaciona-se com a pressão externa e interna para “se ser o melhor”, pressão essa tantas vezes absorvida pelos miúdos. Há no livro também várias inspirações que convidam a reflexão sobre este tema. Os pais que diariamente dão o melhor de si são pais que estão disponíveis, que genuinamente escutam os filhos, que estão atentos às necessidades dos filhos, que respeitam e valorizam as suas idiossincrasias, que dão espaço de segurança para que a expressão emocional e de pensamento ocorra, que usam o bom senso, que cuidam de si próprios. E que mimam muito os seus filhos!

 

Daquilo que nota num contexto profissional, o que é que é mais urgente para as famílias?

Sinceramente, e embora seja tema amplamente falado, o mais urgente é colocar as famílias em sintonia, em conexão. Por tudo o que abordámos nas outras questões, as pessoas parecem viver muitas vezes em piloto automático, desconectadas delas, dos outros e do mundo. As famílias precisam de tempo em qualidade que favoreça laços emocionais fortes. E as crianças precisam de mais liberdade para crescer.

 

 

Crescemos Juntos vai ser apresentado amanhã, 25 de outubro na Fnac do Alegro Alfragide. Apareçam!

 

Comentários (1)

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