Relações

Novas famílias. A bagagem, a comunicação, os erros e a solução

novas famílias

Voltamos ao tema das “novas famílias”. As férias são tão férteis em gestão familiar. O professor José Gameiro, psicoterapeuta de casais, autor de um dos livros que eu mais adoro – o “Talvez Para Sempre” – falou, numa conferência onde estive presente com o meu “caso prático” sobre novas famílias. Essas, cheias de ramificações, que nunca serão iguais a uma família clássica. Ninguém disse se são melhores ou piores. Mas serão sempre diferentes.

A história é simples: duas pessoas conhecem-se, apaixonam-se e juntam-se, com as devidas bagagens (filhos e ex-mulheres/maridos/namorados).

Vamos imaginar: um casal conhece-se e apaixona-se. Ele está sozinho há dois anos e tem dois filho: a Rita e o Pedro, adolescentes. Ela está há três sem ninguém e também tem três brindes: a Maria o Joaquim e o Manel, com 15, 13 e 8 anos. No início desta paixão também há confusão porque há a bagagem dos dois lados. Mas pronto, dizem para si: “Vai correr tudo bem”. E aproveitam os fins de semana a dois para irem recarregando as baterias (esta história é-me bastante familiar).

Ao final de seis meses vão viver juntos, com os filhos dela.  Os filhos dele aparecem ao fim de semana e à quarta-feira. Criam uma nova família, igual a muitas outras novas famílias. Mas as coisas não foram feitas da melhor forma. Porquê? Prepararam tudo sem dizer nada aos filhos, a quem anunciaram a decisão só na véspera. Resultado: a Rita fechou-se no quarto, depois de uma cena. A Maria e o Joaquim perguntam a pai se têm de ir sempre para casa da nova namorada. O que é que parece? Que os filhos estão apenas a mostrar que são competentes a estragar o novo casamento. E sabemos o poder dos filhos. Estão apenas a cumprir a sua função perante as mudanças (e forma como foram geridas).

Desta situação surgem duas vidas: com os miúdos e os fins de semana de 15 em 15 dias, sozinhos. Sobrevivem aos primeiros embates e recuperam as forças nos momentos que têm a sós. Os filhos parecem mais calmos, mas podem voltar à guerra a qualquer momento.

Mas as guerras, as grande mas também as pequenas , não acabam. O casal começa a baloiçar e a atirar as culpas um para cima do outro. Cada um defende os seus filhos, que assistem ao espetáculo com algum gozo, indo pondo a par os respetivos ex relativamente à situação. A solidariedade entre os dois quebra-se. Os fins de semana passam a ser tensos. A relação começa a ser posta em causa e a organização familiar instala-se.

Esta é a realidade que chega ao psicoterapeuta de casais todos os dias. Todas as histórias são diferentes mas há muitos pontos comuns.

Estará tudo perdido?

Não. Os erros causaram danos, mas ainda é possível salvar a relação. A dinâmica familiar precisa de ser trabalhada. Nas novas famílias é assim.

Ficam cinco dicas que aprendi com o professor José Gameiro e considero fundamentais:

 

É preciso criar espaços de relação de cada um com os seus filhos, o mito da família clássica cai, as lealdades com a família anterior têm de ser trabalhadas e é preciso anular os fantasmas dos ex na relação. A comunicação é chave: é preciso mantê-la com as famílias de origem, respeitar os sentimentos dos filhos e não forçar ninguém a gostar de ninguém. É crucial a atitude de colaboração entre o casal. Mesmo que, em determinadas alturas, as mais extremas, tenham de ser preparar para ser “não pessoas.”

 

As novas famílias são assim. Cheias de ramificações. A comunicação é essencial. E não há passado: a família anterior continua a existir e nunca vai desaparecer. As relações têm de se refazer e têm de ter uma nova forma.  Há muitas coisas boas, mas há também muito trabalho pela frente. Há erros comuns. Há balizas para respeitar. E é preciso saber ceder.

 

E aqui fica a homenagem às pessoas sem filhos que casam com quem tem filhos e aceitam a bagagem nestas novas famílias.

 

 

Escrever um comentário