Relações

Os dias em que me custa ser adulta…

custa ser adulta

Há dias em que custa ser adulta. E está tudo bem! Não estou cansada (mesmo que pudesse sempre dormir mais um bocadinho). Não estou farta de ser crescida (nem sequer há muita roupa para tratar). E cá por casa, falando da minha condição maternal e das pequenas criaturas que me conferem esse estatuto, estamos numa fase daquelas boas, sem pressa nem preocupações.

Custa ser adulta porque sou eu que tenho de tomar decisões. Eu tenho saudades de quando alguém tomava as decisões por mim. E nem me custa a responsabilidade. Custa porque quando o meu pai tomava as decisões eu tinha a certeza absoluta que tudo corria bem. E agora é isso que isso que esperam de mim: que as minhas decisões correspondam a essa certeza de que nada pode correr mal.

 

Um post recuperado. E uma foto do meu pai sem barba (coisa rara).

 

Mesmo ao lado da janela da cozinha há uma pomba aninhada aos seus ovos. Eu não gosto de pombas mas esta coisa da maternidade comove-me sempre. Se pudesse escolher sonhava todas as noites que estava grávida a sentir o G. na barriga. Podia intercalar (sim, mãe, tive que ir confirmar se o ‘e’ vinha antes do ‘r’) com o sonho em que consigo voar como se nadasse bruços.
Na vida-real-aquela-em-que-não-preciso-dos-sonhos senti exactamente o mesmo prazer de voar quando na capela-da-Lapa toquei a quatro mãos. Com a professora jugoslava a gritar em servo-croata. E eu, deixei de ter oito anos, deixei de estar zangada com a senhora que descobriu que eu precisava de usar óculos porque ela lê tão bem e anda a trocar as notas.
Na capela-da-Lapa conheci uma menina, não menina como eu mas menina à séria, filha de um americano e de uma dinamarquesa que se conheceram em Paris e vivem em Lisboa. Noutra vida, posso não saber voar sem ser em sonhos, mas quero uma história assim. Cheia de mundo. Porque o meu mundo (concluí enquanto descia da Lapa para a Estrela) são as manifestações e os sindicalistas. Porque enquanto como pastéis de nata na Lapa nunca encontro ninguém e demorei meia hora a atravessar a multidão de reformados e funcionários públicos porque os conhecia quase todos. Afinal a América do meu pai era o norte e a Dinamarca da minha mãe era o sul. Almada podia ser Paris porque vivo em Lisboa. E toquei a quatro mãos.

 

Custa ser adulta. E do que que temos saudades do tempo em não éramos mães?

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