Vida Saudável

Compulsão alimentar: vamos falar nisto sem vergonha

Compulsão alimentar

Já escrevi várias vezes sobre compulsão alimentar. Quem leu o livro Dieta das Princesas sabe que falo muitas vezes na “fome emocional”, aquela que preenche um vazio mesmo que, à primeira vista, nem percebamos que ele existe.

Há quatro anos perdi mais de 15 quilos. É verdade que encontrei no desporto o meu bem estar e nunca mais o larguei, é verdade que também achei que depois de tantos meses com as compulsões controladas elas nunca mais voltariam.

Percebi que tinha compulsão alimentar com cerca de 19 anos quando, perante um momento pessoal muito duro e a doença do meu pai, comecei a comer para estar calma. Nessa altura achamos apenas que somos comilonas. E eu, que nunca fui uma menina franzina e pequena, achei que era normal numa mulher “grande”.

Mais tarde as coisas voltaram a estar controladas e, aos 34 anos, desempregada, sozinha e com dois filhos, as coisas pioraram .

Consigo ver e analisar isso à distância porque, nessa altura, não tinha consciência do problema. Na verdade fazia aquilo que muitas mulheres que passam pelos mesmos fazem: culpava-me. “És fraca, não te importas de ser grande, vamos fazer piadas com o rabo grande e pronto”.

Nunca tive vergonha do meu corpo – grande ou pequeno. E isso agradeço aos meus pais todos os dias. Porque, de facto, fui criada com a noção de que todos os corpos são bonitos. Aqui a questão não está no número de quilos (excepto no facto deste distúrbio alimentar ser visível quando engordamos).

Mas, antes de continuar. O que é isso da compulsão alimentar? Deixo-vos esta descrição (é muito mais fácil pesquisar sobre o tema no Brasil ou Estados Unidos).

O Transtorno de Compulsão Alimentar (TCA) é caracterizado por episódios recorrentes de descontrole alimentar (compreendido como episódios de perda de controle durante a ingestão alimentar, ou comer exagerado mesmo sem estar faminto ou mesmo episódios de comer tanto “até passar mal”).

Para se caracterizar o TCA como doença, o padrão de episódios de descontrole alimentar deve recorrer pelo menos 1 vez por semana e estar presente continuamente durante 3 meses. A descrição clínica do comer compulsivo é comer vorazmente em um curto período de tempo com a sensação de perda de controle sobre o quê e o quanto se come. Contudo, há descrições mais amplas em que se torna difícil separar episódios claros de comer compulsivamente ao longo de um dia. Além disso, o indivíduo apresenta o sentimento de acentuada angústia por não conseguir controlar a sua alimentação, além de sentimentos de culpa, arrependimento e fracasso. A presença de sintomas depressivos e ansiosos costuma ocorrer também.

 

Não podemos confundir a compulsão com gula, falta de objectivos, “cabeça fraca”, gulosice. Para que percebam num episódio de compulsão não interessa que seja o bolo de chocolate mais bonito que já viram ou uma “panela de arroz frio” (como exemplificava uma leitora).

Os comportamentos são muito idênticos a outro vício. Surge a necessidade, procura-se a solução (que pode passar por ir comprar grandes quantidades de comida), há uma sensação de alívio durante os minutos que estamos a comer, e depois uma ressaca – a física porque o corpo está a reagir ao exagero, e a psicológica cheia de culpa e arrependimento. É assim como uma montanha russa com um alto e um baixo, tudo muito rápido.

Gerir a ansiedade com comida é um caos porque depois vem o dobro da ansiedade e entramos num ciclo muito complicado. Quase sempre estes ciclos correspondem a um aumento de peso e sabemos que “engordar” é visto como uma fraqueza e “emagrecer” como uma coisa das pessoas fortes e focadas.

No Verão passado, num culminar de sitiuações mais difíceis de gerir, entrei num ciclo de compulsão. E eu, que já tinha perdido 15 quilos há quatro anos, que tinha tido um pós parto tão bom (a todos os níveis mas em termos de recupertação física também) a ver a balança subir todos os dias. Ansiedade, culpa, frustação, comida, ansiedade, culpa, frustação, comida…

E os pedidos de ajuda e os conselhos: “tens que ter força de vontade”, “fecha a boca”, “basta quereres”. E a pessoa guarda apenas “és fraca”, “és fraca”, “és fraca”. Acordamos, revemos mentalmente os nossos objectivos: “a saúde, pensa apenas na saúde”. E vamos dormir com a sensação de fracasso porque foi outra vez “um dia mau”.

Não vos escondo, entre Agosto e Março engordei 8 quilos…

 

Continua (sobre compulsão alimentar)…

 

 

Comentários (16)

  • Obrigada pela sinceridade! Este é um tema, o do corpo, muito sensível. Existe muita pressão, incluindo a nossa própria, para termos um corpo magro. Eu lido com a dificuldade em voltar ao peso que tinha antes de estar grávida. Fui mãe à 2 anos e meio, tive uma depressão pós-parto, fiz tratamento, inchei muito e ganhei muito peso (20 quilos). Ganhei peso por causa da medicação e porque a comida foi, para mim, um escape à ansiedade em que vivia. Tive também, e muito, a fome emocional de que falas. Tenho alcançado pequenas vitórias: já desinchei, já emagreci uns quilos, já voltei a conseguir gerir as minhas emoções sem recorrer à comida. Mas isto é um processo, com avanços e retrocessos. Obrigada por falares sobre este tema 😉

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  • Desde há 3 anos qd entrei nos entas comecei a ganhar peso, no início até gostei, pois sempre ouvi que estava mto magrinha ( pesei sempre 49/52kg).

    Agora passado esses 3 anos estou com mais 15kg, não sei se teve a ver com a toma de um medicamento à base de cortisona para alergia no inverno, o certo é que o meu apetite aumento, passei a ter prazer no comer, antes comia só para viver pois nem fome sentia, reconheço que até gosto destas sensações, agora a pancinha é que não era necessário, assim como ouvir “ah tás mais gordinha. ….afinal isto chega a todas…. olha até se notam os papos…”

    Confuso o ser humano 😃

    Estamos na luta 💪💪💪
    Um beijinho 😚

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  • Toda a minha vida andei no “engorda emagrece”, nunca fui magra mas também nunca fui obesa… a minha impressão é que sempre me sabotei… quando a sentir-me melhor, mais magra algum problema ( nem que fosse uma viagem de férias)surgia e a necessidade de comer voltava… começava no “amanhã volto novamente”.. tenho tanto como 3 semanas de hábitos saudáveis e depois se não me controlar levo um mês a comer e a beber tudo o que me aparece… ainda não controlo, não me sinto bem…tenho consciência quando o estou a fazer mas continuo… penso porque estou a fazer isto? Eu é que me mando não é a comida, mas continuo…
    Catarina, obrigada pelas suas palavras…
    Beijinhos

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    • Podia ser escrito por mim… Revejo-me totalmente 🙁

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  • Catarina obrigada por abordar o tema de forma tão aberta, esclarecedora e sincera. Beijinhos.

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  • Também sofro de compulsão alimentar…
    Fui mãe há 2 anos e engordei apenas 9,5 kg. Em menos de 2 semanas tinha recuperado o meu peso original. De seguida ainda perdi mais 6Kg. Entretanto, com uns meses mais conturbados pelo meio já engordei 9kg… Voltando praticamente ao meu máximo “não grávida”. Resolvi tratar do assunto já me inscrevi no ginásio e estou a tentar ser mais consiente na alimentação (sem radicalismos)… 2kg já lá vão.

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  • […] e ainda não voltou onde estava (e onde me sinto melhor) mas o treino tem sido uma constante. Na verdade, não imagino os meus dias sem treinar. É uma espécie de terapia. É o descanso mesmo nos dias de maior cansaço (do corpo e da cabeça). […]

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  • Obrigada pelo post e obrigada por continuar a por fotografias em que continua linda – os kg não interessam. Acho que tenho exactamente o mesmo problema – há dias melhores, há dias piores, mas sinceramente acho que não há uma semana em que não aconteça. As minhas emoções gerem-se através da comida; penso no momento em que vou chegar a casa e sentir-me melhor porque vou comer isto e aquilo. Não sei como mudar isto – sobretudo porque sinto que é um escape e se não tiver este, qual terei? Depois vem a culpa, a gordura, o não gostar de comprar roupa… enfim. Obrigada. Espero o próximo 🙂

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  • Obrigada pelo post Catarina.
    Bastaram estes parágrafos e os comentários para me aperceber que sofro realmente de compulsão alimentar. Não vale a pena continuar a negar a mim mesma, a desculpar-me com “foi só este almoço” ou “foi só hoje”, quando acontece demasiadas vezes.
    3 kg desde Dezembro que não querem ir embora. Vale-me o gosto que ganhei pelo gym e pelo crossfit, senão seriam muitos mais.
    Parecem poucos, mas são os suficientes para não me sentir bem (humm, talvez falte aqui alguma aceitação também… mas o aceitar o corpo não pode levar à ideia de “posso comer, não faz mal porque me aceito assim mais gordinha”?).

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  • Eu engordei 10 kg na gravidez, e no primeiro mês em casa, comecei a perder peso, cuidado com a alimentação, cuidados com a primeira bebé, o resto da licença foi relaxar, não fui ao gym e, claro, voltei a engordar… Voltei agora ao trabalho e, é é tão difícil vestir a mesma roupa, quer dizer, alguma nem serve. Já voltei ao ginásio mas, ainda não consigo deixar de comer coisas que não devo… Obrigada pelas tuas palavras, é a partilha de vidas reais e também faz-nos sentir normal, e não as fracas que não conseguem ter força para emagrecer os kg precisos.

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  • […] falávamos sobre comer compulsivamente (esta semana ainda vem mais sobre o tema) e sobre a necessidade de encontrar um equilíbrio. Hoje […]

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  • […] falávamos sobre comer compulsivamente (esta semana ainda vem mais sobre o tema) e sobre a necessidade de encontrar um equilíbrio. Hoje […]

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  • história da minha vida…desde agosto já aumentei 10kg; e ando sempre neste reboliço mais 10 menos 10… há altuas em que tudo me sabe bem, como tudo o que vejo à frente e depois sinto-me mal, tão mal.

    gostava tanto de manter um peso estável, de ter uma relação saudável com a comida…

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  • […] a leitura integral deste post aqui e […]

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  • Como me revejo…custa admitir, dizemos sempre que amanhã vou começar tudo direitinho, que um dia não são dias…mas a idade passa e se aos 20 perdiamos fácil, aos 30 a tarefa complicou e quase nos 40 nem comento… também vim duma boa fase, perdi 8 kg, estava nas nuvens…a morte de alguém próximo despoletou em força oa velhos hábitos…o pior é que agora a balança nem mexe e isso só piora tudo… é um ciclo vicioso. É uma luta solitária, pelo menos eu sinto isso, sei que existem problemas maiores, mas este é meu e vivo diariamente com isso.

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  • Nunca falei sobre isso. Quando menina já tinha episódios convulsivos e lembro-me de papai fazendo algum comentário a respeito quando me surpreendeu devorando escondido vários pacotes de biscoito. Sei como sempre me senti antes e depois do comer desenfreado e é tal qual como me sinto agora, pois acabei de comer loucamente porções salgadas, doces e mais salgadas e mais doces até não caber mais no estômago. E, como sempre arrependo-me, me sinto mal… Estou em situação de angústia, quebrei de novo a cara e minha auto estima despencou; e aí eis que a compulsão surge igual a um ladrão e fez-me comer de novo como louca. Queria achar a porta de saída disso…

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