Sonhos

Saberá o que o desemprego significa apenas quem passa por ele

desemprego

Neste mês de maio, que agora começa, reparo que, pela primeira vez desde há quatro anos e meio de desemprego, desde o dia em que entreguei os papéis naquela cave do centro de emprego de Alcântara, que as contas ficaram pagas, sem dívidas, sem atrasos, sem pedidos de ajuda à minha mãe (e que privilegiada sou em poder contar com a sua ajuda).

Pela primeira vez, neste mês de maio voltei a ter projetos suficientes. Para receber o suficiente para mim e para os meus filhos. Mas, além do dinheiro, esse de que preciso, neste mês de maio respirei fundo. Porque, finalmente, já não tenho medo de não servir para coisa nenhuma.

Leio muitas coisas sobre desemprego, sobre os números do desemprego, assim como sobre a necessidade de combater os seus números. Leio tudo isso escrito por estudiosos e políticos que não estão desempregados. Leio muito sobre o impacto que o desemprego tem sobre a economia. Mas quase nada sobre o que o desemprego faz à cabeça das pessoas. Sobre o vazio que nos deixa no peito, sobre essa sensação arrasadora de falta de valor.

Saberá o que o desemprego significa apenas quem passa por ele. Tento que as memórias fiquem lá atrás, mas, às vezes, lembro-me e ainda dói. Ficar desempregado significa deixa de acreditar em nós, significa, mais do que salário zero, auto estima nula. Não entenderão os estudiosos e os políticos que estar desempregado é a destruição de cada pessoa na sua essência como força de trabalho.

 

Eu quero que o desemprego acabe, assim mesmo, desemprego nenhum. Não me interessam as teorias que afirmem que isso é impossível. Eu quero que cada pessoa capaz de trabalhar, e obviamente com vontade, o possa fazer e sinta que é útil e necessária. Eu quero que ninguém, mesmo ninguém, saiba o que significa estar desempregado.

E esta, além de uma crónica de memórias dolorosas, é também a minha homenagem às lutas de quem trabalha e ao dia 1 de Maio.

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Comentários (13)

  • eu concordo com este titulo… eu quando fui mãe fiquei desempregada, e os tempos seguintes foram imensamente dificeis… mas consegui dar a volta… mas com 30 anos já somos velhas para muitos empregos… e se fores mãe pior ainda. Enfim… eu digo não ao desemprego… sei dar valor ao trabalho que tenho hoje em dia.

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  • 🙁 Foi por este motivo, o desemprego infelizmente, que hoje coloquei uma mood dedicada a alguém no meu blog, porque sei que como tu disseste "Ficar desempregado significa deixa de acreditar em nós, significa, mais do que salário zero, auto estima nula.". Quero levantar o astral de alguém novamente no desemprego, não resolve mas espero que ajude a levantar o animo desta sombra. Beijinhos Catarina

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  • tal e qual!

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  • Obrigada por este post. Obrigada mesmo. Eu digo isto tantas vezes, mas acho que ninguém acredita em mim… O que o desemprego faz à cabeça das pessoas, à sua auto-estima… é mau de mais. As vezes é irreparável.
    Estive desempregada dois (!!) anos. Durante esse tempo perdi-me, deixei de saber quem era, de saber o meu valor, de acreditar em mim. Faz dois anos que voltei ao ativo, tenho o emprego que sempre sonhei, tenho voltado lentamente a encontar-me e a acreditar em mim. Mas os fantasmas (aqueles que só que passa por isso sabe quais são…) ainda não foram embora…

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  • Ter emprego hoje em dia é quase uma sorte…trabalhar na área que se ama é uma felicidade.
    Quando acabei a faculdade começou a crise. Deixaram de haver anúncios à farta, salários bons e começaram haver estágios não remunerados. Não aceitei nenhum. Fui a imensas entrevistas.
    Hoje passados alguns anos, trabalho no que gosto, na minha área de formação. Pensei muitas vezes em desistir. Em procurar trabalho em qualquer coisa (que para isso muitas vezes é necessário ocultar a nossa formação) mas felizmente, consegui sempre encontrar.
    Nunca é fácil. Hoje as empresas exigem tanto de nós e os salários não são aqueles que sonhávamos quando andávamos na faculdade… mas pelo menos, tenho prazer no que faço todos os dias.
    Apelo então para que nunca desistam. Procurem sempre melhor. Procurem sempre melhorar.

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  • Subscrevo. A minha crença em dias melhores está a dessipar-se.
    Obrigada Catarina

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  • Concordo plenamente porque ainda hoje me considero uma desempregada. Apesar de ter criado a Lima Limão há 2 anos ainda hoje luto para que seja sustentável e para que tantos outros acreditem no projeto como eu acredito. Não é uma luta fácil, há dias em que só apetece desistir e mandar tudo ao ar. Mas quando se quer, acredito que, tudo se consegue. Desde que me licenciei que travo uma batalha difícil contra o desemprego e muitas vezes já me senti como descreveste e por saber o que o desemprego pode fazer a alguém é que acho importante lutar. Lutar sempre. Muito. Porque quando queremos acabemos por conseguir. E eu, assim como tu, quero e quero muito. E verdade seja dita, se continuamos a lutar, apesar de tudo, então bolas(!!!) merecemos. E muito!
    Beijinho
    Cris

    http://www.lima-limao.pt

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  • Não sabem mesmo o que o desemprego nos faz Catarina. Da luta diária fora e dentro de quatro paredes para nos sentirmos úteis. A necessidade de estar bem para quem nos rodeia muitos "nãos" depois. A força de nos levantarmos todos os dias da cama mesmo sem horário para cumprir.

    Joana, desempregada há 10 meses.

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  • O problema não é o desemprego é a falta de dinheiro. Lembra-me o fado da Amália: "É ou não é
    Que o trabalho dignifica
    É assim que nos explica
    O rifão que nunca falha?
    É ou não é
    Que disto, toda a verdade,
    Que só por dignidade
    No mundo, ninguém trabalha"
    O problema é que o trabalho cada vez tem menos valor e como diz o Boss AC na sua música "Sexta-feira":
    "E receber uma gorjeta que chamam salário/Eu não tirei o Curso Superior de Otário" e conclui "Oh mãe fazias-me era rico em vez de bonito".
    O trabalho bem pago e com regras faz sentido, agora o tipo de cultura que se alastra de baixos salários e ausência de direitos, torna o trabalho para muitos uma sujeição, algo a que tem que se sujeitar por extrema necessidade. Uma parte das pessoas não gosta do seu trabalho, mas recebendo um salário minimamente digno e tendo direitos, desempenha o seu papel, enquanto sonha com o euromilhões. Agora no cenário atual, o significado e a etimologia da palavra trabalho aproxima-se cada vez mais:"origem latina: tripalium (três paus) – instrumento utilizado para subjugar os animais e forçar os escravos a aumentar a produção."

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  • "Leio muito sobre o impacto que o desemprego tem sobre a economia e quase nada sobre o que o desemprego faz à cabeça das pessoas, sobre o vazio que nos deixa no peito, sobre essa sensação arrasadora de falta de valor."

    "Ficar desempregado significa deixa de acreditar em nós, significa, mais do que salário zero, auto estima nula."

    Estas expressões parecem-me bastante reducionistas, embora compreendo o que quer dizer.
    Agora julgo que não se refere ao emprego, mas sim à falta de dinheiro. Porque até pode ter emprego, mas ser explorado, como sucede por exemplo, a muitos licenciados que se sujeitam a ganhar o ordenado mínimo por falta de melhores oportunidades. Será que se sentem valorizados? Será que contribui para a sua auto estima? Será que deixam de acreditar neles?
    Uma pessoa não vale pelo trabalho que desempenha, a pessoa não pode deixar de se estimar e de acreditar em si por não trabalhar. A pessoa deve sim deixar de acreditar no modelo económico e social, reconhecer as suas limitações e exigir mudanças na altura de votar. Tenho uma pergunta para si? Um chinês vale mais do que um português porque trabalha mais horas por dia? Uma pessoa a quem sai o euromilhões, totoloto, etc e decide pôr o dinheiro a trabalhar para si a maior parte do tempo, será que deixa de ter valor, deixa de acreditar em si e perde a auto estima?

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  • Catarina, gosto tanto, mas tanto, de te ler…
    Desejo-te a maior sorte do mundo! Mereces ser muito feliz.
    Bj
    Joana

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  • […] pensei nos últimos quatro anos e meio. tenho a sensação que foi uma vida, uma eternidade. foi no momento em que olhei para estas fotografias que a crónica desta semana foi escrita na minha … há quatro anos e meio, bem fingido, de sorriso na cara, a tentar inventar tudo e mais alguma coisa […]

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  • “Saberá o que o desemprego significa apenas quem passa por ele”…mesmo!
    Saberá quem pondera que os filhos não mecerem a mãe que têm, por ser uma inútil ou imprestável para trabalhar…qualquer trabalho! Aqueles trabalhos que não te aceitam por teres qualificações a mais, aqueles que não te querem por já não seres “nova”, aqueles que…enfim…
    As horas intermináveis em centros de emprego, onde ninguém te dá respostas nem ajudas, mas te tratam como um indigente em apresentações semanais, qual arguido com T.I.R. (porque é que se pensa sempre que quem está com subsídio de desemprego, está a querer aproveitar-se??!!??) E quando acaba o subsídio?? Vêm perguntar-te se tens dinheiro para comer? para comprar pão, para ti ou para os teus filhos?? pois…
    Saberá quem pensa não ter qualquer valor para a sociedade, por todos estes fatores, que tudo o que sabe e quer fazer não chega, não serve, não é o que procuram…mas sabe tanto, quer tanto e pode fazer tanto!
    Quem enche os centros de emprego não é quem precisa ou quer, muitas vezes. Os RSI (perdoem-me) na maioria das vezes promovem apenas a inércia em jovens, e os números divulgados do desemprego nunca são reais – ou porque baixam em épocas altas onde os empregadores vão buscar pessoas para trabalhos precários, ou porque inscrevem as pessoas em cursos ou formações “à força”, porque estando em formação não contam para as estatísticas. Devíamos todos acordar de vez!!!
    Um beijinho! E obrigada pela partilha e pela “exposição” deste tema, tão subvertido pelos políticos e, até, pela própria sociedade civil.

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