Relações

por todos os professores

por todos os professores

Por todos os professores…

Estranhámos o dia em que não veio. Nunca faltava e era dia de entregar os últimos testes. A professora de sociologia não era simpática, não sorria muito, mas era uma mulher justa, constante e sabia cativar quase três dezenas de adolescentes ensonados. A professora de sociologia era a minha professora preferida. Por me ensinar as coisas que mais gostei de aprender e porque, num momento difícil dos meus 17 anos, teve um papel importantíssimo na minha vida. 

Estranhámos o dia em que não veio. Estranhámos os testes que nunca nos foram entregues e estranhámos mais ainda que, apesar da ausência, as notas de sociologia estivessem na pauta afixada num dia quente de verão. Fomos informados nessa mesma tarde que a nossa professora de sociologia se tinha suicidado. Antes de se matar a professora de sociologia corrigiu os teste e deu as notas.

Guardo a professora de sociologia nas minhas memórias com uma dor imensa por nunca lhe ter agradecido aquilo que representou na minha vida. Felizmente, há outros, a quem pude dizer como foram importantes.

Arrisco dizer que me lembro de todos os meus professores: os chatos, os fixes, os intelectuais, os divertidos, os que nunca se enganavam e os distraídos, os que faziam parte da mobília e os estagiários. Foram, todos eles, uns mais que outros, fundamentais na minha vida.

Sei quanto ganham os professores, sei as horas que trabalham. Cresci no corredores de uma escola, entre fórmulas de Física, enquanto esperava pelo fim das reuniões, sentada à porta do gabinete em que a minha mãe tirava dúvidas aos alunos. Sabia que na luz acesa pela noite fora estava a minha mãe a corrigir testes. Zanguei-me muitas vezes pelas ausência da minha mãe: “ainda está na escola”. Mas zango-me muito mais com aquilo que a minha mãe ganha depois de mais de 40 anos de trabalho.

As lutas fazem-se nos dias em que têm impacto. Assim como o senhor Primeiro Ministro escolhe as oito da noite para discursar à nação, não querendo com isso prejudicar todos os que alteram os seus horários para acompanhar o acontecimento, mas porque a abertura dos telejornais tem impacto.

Não conhecem os professores, os governantes que os acusam de marcar uma greve num dia em que está marcado um exame para prejudicar os alunos. Não conhecem os professores, os governantes para quem investir no ensino é apenas brincar às leis e mudanças. Não conhecem os professores, os governantes que, antes de fazerem contas e tomarem decisões, deviam voltar à escola.

Por todos os professores, pela minha professora preferida, pela profissão da minha mãe, pelo ensino público e pelo país, que se faça a luta.

 

Comentários (27)

  • Muito comoventes as tuas palavras. Que texto. Que professora. Lamento a morte dela…
    Também eu sei o que é vida de professor, também assisti a horas imensas à noite a corrigir testes, a preparar aulas. Tempo roubado à família e a ela própria, tempo que a minha mãe sempre dedicou aos alunos e à sua "arte". Felizmente sempre foi reconhecida pelos colegas e alunos. Ao menos isso. Porque os governantes nunca o fizeram. É uma profissão muito mal tratada (falo dos professores do secundário por exemplo e nao dos universitários), mas tão necessária. Vamos a ver o que trazem os próximos tempos. bjs e obrigada pelo texto

    Responder
  • Obrigada pelo texto. Houve outras pessoas a dar testemunhos como os teus e os professores seriam vistos pela sociedade de uma outra forma. Mas infelizmente os testemunhos que aparecem são sempre para denegrir a imagem daqueles que tanto prescindem de si e das suas famílias para tudo dar aos seus alunos. Sou professora e mãe de filhos "potencialmente prejudicados" pela greve. Mas se chegamos a este ponto foi porque não nos deixaram alternativas.

    Responder
  • Afinal há mesmo coincidências. sigo o teu(desculpa tratar-te por tu, mas imagino que seremos da mesma idade) blogue há algum tempo.No outro dia cruzei-me com uma mãe acompanhada de 2 pequenitos (Afonso, o mais pequeno e Guilherme o mais crescido) no parque infantil do Macdonald´s de Oeiras. Tive vergonha de abordar a senhora e perguntar se eras tu. Hoje deparo-me com este texto e..também eu tive uma professora de sociologia que se suicidou…a descrição que fizeste dela correspondia e fiquei a pensar se não seria a mesma pessoa!!! a minha chamava-se Ana Maria.

    Responder
  • Chorei a ler o seu texto Catarina! Sou professora, ou era, antes de estar "sem colocação". Adoro ensinar, é o que me faz mais feliz apesar de faltar à escolinha dos meus filhotes no dia da Mãe, da família, no dia da criança…Os meus alunos muitas das vezes mereceram-me mais tempo do que os meus filhos mas nunca me arrependi e os meus filhos sabiam que tinham uma mãe feliz. Agora, sem escola, também estou solidária com os colegas. Os professores colocam, na sua maioria, os alunos acima de quase tudo e nada fariam apenas para os prejudicar. Muito mudou no ensino e, não é com turmas de 30 alunos, com a crescente falta de respeito pela classe, pela insegurança, pela falta de meios para combater a violência e o desinteresse crescente dos alunos, que nada vêm de positivo na escola, que a Escola Pública será melhor. Piora a cada dia. Tenho pena que a opinião pública não veja o quanto se deixa para fazer em prol da escola e dos alunos, as aulas extra, os apoios que ninguém nos paga, os materiais que levamos para a escola, o tempo que ficamos no intervalo a ouvir o desabafo dos alunos e até, as actividades culinárias. Os professores deveriam ser estimados e acima de tudo respeitados por tudo o que dão de si. Se estão em luta é porque desejam, acima de tudo, um futuro para os seus alunos e se estão em luta, também os estão a ensinar a manifestarem-se pelo que acham justo e correto. E tudo o que eu desejo é que a Escola seja melhor, pelos alunos mas acima de tudo, pelos meus filhos. Um beijinho e obrigada pelo seu texto.

    Responder
  • Tenho a mesma admiração que descreve pelos professores, e sou também filha de uma professora. São na maioria pessoas dedicadas e fundamentais nas nossas vidas. Não têm sido bem tratados pelos governos e a quantidade de burocracias que se lhes exige é absolutamente aberrante.
    A luta tem justificação mas, na minha opinião, também tem de ter limites. Greve a exames só prejudica os alunos, é indiferente ao Governo e serve apenas para incendiar os discursos sindicais. Fica-lhes mal. Podiam manter as outras acções todas mas greve a exames implica prejudicar directamente os alunos de forma um pouco gratuita:não é isso que vai mudar nada na vida deles mas muda, de certeza, muito na vida dos alunos (que são as principais vítimas desta guerra).

    Responder
  • um sentido obrigada. é bom saber que existe um reconhecimento do nosso trabalho. bjs

    Responder
    • Muito Obrigada, Princesa!

      Responder
  • Obrigada.
    Que bom sentir o humanismo das usas palavras.
    Também sou professora e adoro os meus alunos. Estou farta de guerras de palavras que não levam a nada. Vivemos uma época em que todos olham apenas para os seus umbigos e isso tem de terminar.

    Responder
  • Felizmente nem toda a gente se limita a olhar para o seu umbigo. Partilho neste link o texto que uma aluna do 12º ano escreveu a propósito da greve.

    http://alheiaatudooutalveznao.blogspot.pt/2013/06/roubei-este-texto-uma-aluna-do-12-ano.html

    Responder
  • Pois eu concordo com isso. Mas infelizmente as injustiças não chegam apenas aos professores. Exactamente por conhecer muitos professores não gostei de ver a atitude de ontem. Alias muitos professores que conheço, incluindo a minha mãe, não fizeram greve por dizerem que nunca envolveriam os seus alunos numa guerra que não é a deles. Passou 1ano a tentar prepara-los da melhor forma e não é agora que os iria prejudicar.
    Quando numa guerra se usam as crianças como armas, esta-se muito mal.
    Neste caso, não ponho as culpas todas nos professores, também não acho que o Ministro pudesse fazer outra coisa em relação à greve. Acho vergonhosa a manipulação da Fenprof. Não é inocente nem sequer zela pelos interesses dos professores. Tem uma agenda política e os professores deviam distanciar-se disso.
    As medidas que se contestam aplicam-se à função publica e para toda a função publica esta marcada uma greve geral. Porque não a fizeram nesse dia?
    Foi um dia triste, eu acho.
    Nada se ganhou, apenas os alunos perderam

    Responder
  • Aplaudo, de pé.

    Responder
  • wow, simplesmente…wow

    Responder
  • E não conhecem os professores, os sindicatos que eles julgam que os representam, mas que estão na verdade ao serviço e às ordens do PCP, que são tão somente departamentos de um partido que, não conseguindo eleger nas urnas deputados suficientes para derrubar os sucessivos governos de direita (sim, para o PCP o PS é tão direita quanto o PSD ou o CDS), gerem os sindicatos (aqueles que os professores julgam que existem para os defender) a seu belo prazer para fazer cumprir a sua agenda política.
    Julgando os professores que são defendidos e representados por quem somente os manipula, chegará o dia em que perceberão que foram somente usados, que nada na sua situação profissional mudou para melhor, que a “luta” é afinal outra, e, nesse dia, sentir-se-ão, tão somente, traídos.
    O que digo para os professores é, em minha opinião, válido para todas as classes sociais e para todas as sucessivas greves a que temos assistido.
    (Sim, estou em absoluta concordância com o seu ponto de vista. Mas não, acho que o ponto fundamental não é esse. E, por isso, sim, concordo com a Alva Quase Transparente.)

    Responder
  • =) Adorei o texto!!!
    Não tenho o dom da escrita, por isso agradeço todas as palavras deste texto que tanto exprimem tudo o que sinto! Obrigado

    Responder
  • Sou professora e estou emocionada com o que acabo de ler.
    Obrigada por estas palavras tão bonitas e sentidas que tanto valorizam o nosso papel.
    Estava mesmo a precisar disto… nada me deixaria mais para cima após 10 horas de roda de papéis!!!
    Obrigada querida!!!

    Responder
  • Obrigada 🙏 😊

    Responder
  • Tão bom este texto … sou professora e fiquei de coração cheio, que bom seria se todos pensassem assim .
    Beijinhos 😘 e obrigada

    Responder
  • Grata pelas suas palavras…
    Continuam atualizadas…

    Responder
  • Obrigada pelo seu texto. Tenho 20 anos de serviço, querem atirar metade da minha carreira para o caixote do lixo. Custa-me muito que o façam, nunca fiz nada semelhante com o meu trabalho, sempre procurei respeitar os meus alunos e o seu trabalho. Vamos lutar por melhores dias!

    Responder
  • Muito obrigada, querida Catarina. Pelas suas palavras que me encheram os olhos de água e pelo reconhecimento que elas transportam. Beijinho e estamos na luta pelos Professores e, principalmente, pela Educação.

    Responder
  • Li este texto do princípio ao fim arrepiada… sou professora e ler isto deu-me uma força tremenda 🙂 obrigada 😉

    Responder
  • Obrigada! Pensei no meu filho que odeia a minha profissão!

    Responder
  • Obrigada Catarina!
    Por ter partilhado, com emoção, o que sente pela sua querida professora e por nós.
    Ainda bem que conseguiu dizer a tantos outros o quanto os apreciava e pode crer que já tive a sorte da gratidão tanto de alunos como de pais.
    Não é isso que nos move mas, ajuda muito e cai tão bem, mesmo no fundinho do coração qual abraço prolongado.
    O que me move é mesmo o querer partilhar o saber que fui acumulando e sentir que me querem ouvir. E querem mesmo!
    Obrigada, mais uma vez e montes de vezes!
    E para si, a maior felicidade do mundo.

    Responder
  • Obrigada, Catarina, pelo reconhecimento, pela partilha da sua experiência e, sobretudo, pelo RESPEITO, que é tão escasso há tanto tempo. Bem haja.

    Responder
  • Tenho a certeza absoluta de que o meu filho subscreveria em absoluto! Obrigada, Catarina Beato.

    Responder
  • Parabéns pelo texto. Intemporal! Comovi- me pela simplicidade, clareza e verdade da mensagem….. obrigada 😊

    Responder
  • A sua história realmente é uma realidade, eu não sou Professora,sou mãe e já vivenciei a vida escolar e sei que a escola é a segunda casa (família) dos nossos filhos, por tal os Professores são sem dúvida muito mais do que números na vida e educação dos alunos !!! Devem ser valorizados, não só os Professores,mas no momento é o que estamos a defender!

    Responder

Escrever um comentário