Maternidade

Sobre filhos ou Sobre a educação dos filhos ou Sobre o conceito de família ou Segunda tentativa de “virar para fora”

Os trabalhos de casa são sobretudo uma forma de “reprodução das desigualdades sociais”. Ou seja, para quem tem pais preparados, com tempo para ajudar ou meios de pagar um ATL, os trabalhos de casa podem ser uma forma de crescimento. O problema são os alunos, cujos pais não têm tempo, meios ou preparação suficiente.

O único problemas é o facto dos pais não terem tempo.
Educar um filho exige tempo.
Se quando um casal decide ter um filho discutisse coisas tão importantes como “quem é que o vai levar a passear à rua”, “como fazemos nas férias” e “será que quando crescer vai ter espaço no apartamento” seria tudo mais fácil.
Ter um filho e não ter tempo não faz sentido. Uma criança precisa de tempo, precisa de presença. Independentemente da condição social dos pais. A minha avó tem a 4ª classe, era pobre, e a minha mãe é licenciada em Física. A minha avó passava horas ao pé da minha mãe. Presença. Muitas vezes basta isso. As dúvidas poderão ser tiradas no dia seguinte com o professor. Todos sabemos que a condição essencial do sucesso passa pela capacidade de sentar o cu a estudar.
Não acredito numa sociedade que continue a adaptar os horários das escolas aos das empresas em vez de obrigar as empresas a terem condições para que os empregados possam existir noutras dimensões da sua vida – neste caso paternidade/maternidade.
Mas, mesmo considerando empresas com condições ideais – part-time, trabalho a partir de casa, horário contínuo – existe uma outra [e fundamental] questão: quando se tem um filho existem cedências obrigatórias, ou seja, é necessário tempo.
Um pai e uma mãe que invistam da mesma foram na sua profissão não podem ter tempo para um filho. Eu acredito que, no conceito de família face a um filho, uma das partes terá que ceder. Quando decidi apostar na minha profissão conversei com o pai do G. e acordámos que, neste fase, ele teria tempo.
Não abdicarei de ver os cadernos do meu filho mesmo que ele não traga trabalhos para casa. E não abdicarei de ouvi-lo a ler a primeiras frases e a ajudá-lo a decorar a tabuada, os reis de Portugal ou a fazer cábulas para os verbos em Francês.
Ninguém compra um cão se estiver sempre em viagem, se não souber quando o pode levar à rua para fazer as necessidades. Os filhos exigem muito mais do que isso.

Comentários (12)

  • Bravo!

    A crise de valores que a sociedade atravessa actualmente tem mesmo a ver com isso, designadamente com o facto de as mulheres terem deixado de ser mães, passando a ser trabalhadoras.

    Podia deixar assim e esperar o espancamento. Mas não, vou clarificar: como diz, e muito bem, a lady, a presença é fundamental. Não necessariamente a presença da mãe, pode ser o pai. Mas o facto de nenhum estar presente é, de certa forma, a maior causa da crise de valores que a nossa sociedade atravessa.

    Esta frase diz tudo: “Não acredito numa sociedade que continue a adaptar os horários das escolas aos das empresas em vez de obrigar as empresas a terem condições para que os empregados possam existir noutras dimensões da sua vida – neste caso paternidade/maternidade.”

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  • Não discuto a excelência do texto.
    Apenas chamo a atenção para o seguinte pormenor.

    Escreveste o seguinte:

    «Se quando um casal decide ter um filho discutisse coisas tão importantes como “quem é que o vai levar a passear à rua”, “como fazemos nas férias” e “será que quando crescer vai ter espaço no apartamento” seria tudo mais fácil.»

    Um leitor mais incauto e desprevenido poderia de repente julgar que estavas a falar de um cão ou outro animal doméstico…

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  • Pois é! Enquanto professor do 1º ciclo digo e repito:a Sra. Miinistra da Educação só deveria estar alguns dias numa escola para perceber a importância dos trabalhos de casa! É óbvio que as crianças não necessitam de trabalho todos os dias, mas o problema é que quando existem pais que não comparecem nas reuniões, que não comparecem depois da reunião para saber as notas do filho e também conhecer os trabalhos que este realizou durante um período, como será quando estas crianças não tiverem alguns trabalhinhos em casa! Tenho pais d alunos meus que nunca apareceram na escola durante o ano! É Verdade que alguns também não vêem os trabalhos de casa, mas então o porquê de levar trabalhos para casa? Talvez porque dê algum sentido de responsabilidade, talvez porque dê algum noção do que é ter regras, trabalhos e tarefas para cumprir aos alunos! O Professor não é pai, nem mãe! O professor numa sala de aula é e deve ser professor, amigo e companheiro. Deve saber dar o apoio quando ele é necessário, deve saber dar reforços positivos e negativos, não educar na totalidade uma criança quando esta tem pai e mãe! Mesmo não tendo os dois ali, a tempo inteiro, o professor não tem que dar a educação toda! Concordo Lady,quando refere que a escola está a mudar em função dos empregos dos pais e não os empregos em função da escola? Como poderemos ter uma sociedade mais instruída, cívica e preocupada, mais responsável e produtora? Nunca, porque se antes, e reconheço que assim o era; alguns professores não faziam nada, agora têm de fazer tudo!
    O que vai acontecer a nível futuro na educação: o insucesso escolar vai subir, a desmotivação vai ser geral a nível de professores e alunos, os pais vão acabar por trabalhar mais pois os seus filhos já trazem tudo feito da escola! Penso que até poderiam pagar um pouco mais aos professores e estes acabavam por ficar na escola, davam de jantar, banho e adormeciam os alunos! Beijos

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  • A honestidade é sempre a melhor lente para ler o mundo. Nada como a maternidade – mais próxima e sentida que a paternidade, e eu estou à vontade para afirmá-lo porque sou pai -, para destruir o conceito alternativo de «tempo de qualidade». Ou há. Ou não há. Pais, têm de estar presentes. Não há pais ausentes. Isto é provavelmente o verdadeiro problema social português. Grave. Para o qual o senhor José Socrates não tem sabido dar resposta. Em Londres, ninguém trabalha na City às sete da tarde. Não conseguirêmos erguer a cabeça sem um correcto avanço social. E isso começa pelo tempo para a família. Viraste mesmo para fora. Sim senhora!

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  • Muitas vezes me deparo com todas essas questões.
    Quando decidi ter um filho, já sabia que não poderia te rmuito tempo para ele porque trabalho longe e, quando chego a casa já venho bastante cansada e terei ainda de fazer o jantar, tratar dele e da casa. Mas acredito que vou conseguir dar-lhe aatenção de que ele necessita, nem que seja ao fim de semana.
    É triste mesmo é quando uma mãe/pai têm tempo para os filhos e não lhes dão atenção ou, porque têm possibilidades económicas, têm mais que um filho para, depois, os mesmos serem criados com pessoas estranhas. Os nossos filhos precisam de todo o nosso amor, carinho a apoio. Nunca tive uns pais que me apoiassem em nada e continua a ser assim e, por isso mesmo, quero dar ao meu filho tudo aquilo que não tive, nomeadamente muito amor e carinho.
    O que digo pode ser um pouco contraditório mas não tenho outra forma de expressar o que sinto em relação ao que escreveste.
    Só te posso dizer que tens razão em tudo.
    Joquinhas
    Sofia

    http://www.piolhitolindo.blogspot.com

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  • Concordo na integra :o)

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  • os meus pais não se sentavam comigo para fazer os trabalhos de casa mas estavam sempre lá quando eu tinha dúvidas.

    e eu adorava levar trabalhos para casa (principalmente na primária). nem sei explicar o porquê mas o certo é que gostava imenso de me sentar na minha secretária, no meu quarto, em silêncio e com tempo a fazer os trabalhos.

    tudo isto para dizer que concordo plenamente contigo.

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  • Querido Rasputine, alguns pais podiam fazer as mesmas perguntas que fazem antes de ter um cão.

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  • Raspa,
    Penso que a discussão se centra, precisamente, aí: algumas coisas que se fazem antes de se comprar um cão, devem, de tão básicas, também ser feitas antes de ter uma criança.
    O que a lady pretende dizer – se bem a entendi – é que, eventualmente, há pessoas capazes de ter essa preocupação antes do cão, mas que não pensam nessas coisas antes da criança.

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  • Acrescentando ao facto de que comprar um cao da’ menos prazer que praticar para filhos. E esse mesmo factor acaba por ser determinante na propagacao da nossa especie… O racionalismo acaba por ser condicionado pelo egoismo (onde o egoismo assume varias formas)

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  • A maior parte dos pais entende os filhos como propriedade sobre a qual mais ninguém deve ter nada a dizer. E claro que no processo educativo toda a sociedade intervém. Com um papel especial dos pais e da restante família, dos amigos, dos professores. O problema é que a maioria dos pais não tem este entedimento. Certamente que devem ser os pais a mediar o processo, a ver o que interessa ou não. Mas cada vez mais os pais não admitem que há mais pessoal com um papel importante na educação dos filhos. E cada vez mais os pais retiram competências aos professores não lhes admitindo que eduquem os filhos mas exigindo que estes saiam da escola educados.

    Se os pais me podem avaliar a mim, então eu também os quero avaliar a eles.

    Os pais avaliam os professores,os professores deveriam avaliar os pais.

    Tenho a certeza que chumbariam muito mais pais que professores.

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  • Sim, Glory. Tem toda a razão! Pelo menos na escola onde estou não precisava de falar pessoalmente com alguns pais para os chumbar!Uma mãe que não se preocupa em ter roupa limpa para o filho vestir, que não se preocupa com a sua alimentação(limita-se a dar lhe as chaves de casa para ele almoçar e nunca verifica se este chega a relamente almoçar), que não tem um par de meias igual, mas sim uma de cada nação para o filho usar, que não se preocupa com a existência de cadernos para este trabalhar, como pode então avaliar um professor? Mas a verdade é que isto vai acontecer! Enfim é triste, muito triste!!

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