Sonhos

Ser dondoca.

Eu sou dondoca e não tenho um emprego. E de facto tenho uma qualidade de vida invejável. Mas também trabalho! Trato da casa. Passo a ferro. Arrumo e limpo. Pago contas e trato de tudo o que se relacione com papelada (minha e da minha mãe).
Se me dissessem que os 27 anos esta seria a minha ocupação eu teria vomitado de tanto rir.
Aos 18 anos eu imaginava licenciar-me em Economia, tirar um Mestrado. Ser uma executiva. Ter filhos e pôs-los com três meses no infantário. Quando o Gonçalo nasceu eu estava enfiada até aos cabelos no mundo nos negócios (ou atolada em merda para ser mais concreta).
Dois dias depois do G. nascer eu já estava na rua a tratar de problemas atrás de problemas.
Devagarinho fui-me apercebendo que o G. existia na minha vida. Fui-me apaixonando… Depois mudámos para nossa casa e eu descobri que gostava de cozinhar (arrumar e limpar eu já sabia que gostava).
Mesmo quando os dia me corriam pior que mal eu sentia-me feliz e tinha vontade de voltar rapidamente para ao pé dele.
Mesmo quando o G. passava a noite agarrado à minha mama e não me deixava dormir, eu levantava-me com o mesmo sorriso.
Fui-me apercebendo do prazer que me dava dedicar-me à minha casa e ao meu filho.
Descobri a importância de dedicar tempo a mim e aos que mais gosto.
E esta minha viagem de auto-descoberta foi marcada por três momentos fundamentais:
– Quando descobri na carteira do meu pai que ele já tinha marcado as férias para o verão do ano em que morreu (e tomei consciência de que nem ele tinha noção de que ia morrer…)
– O nascimento do meu filho e o nosso processo de enamoramento.
– As minhas dívidas e o drama financeiro em que me vi envolvida sem ter culpa nenhuma (excepção feita à minha ingenuidade).
Foi assim (e isto já está aficar demasiado sério) que descobri a dondoca feliz que há em mim!
Mais do que qualquer carreira, do que qualquer salário chorudo ou bom carro. Mais do que ser uma executiva bem sucedida. Percebi que gosto de levar o meu filho à escola, passar tempo com ele, arrumar a casa e fazer-lhe o jantar. Quero tempo para almoçar com os meus amigos e para cheirar a praia e os dias de chuva. Gosto de ter disponibilidade para quem precisa de mim e tempo para usufruir da minha existência.
Ser dondoca é só uma forma de me proteger do medo que tenho de morrer sem ter vivido.

E já agora aproveito para informar que: procuro marido rico que me queira sustentar!

Comentários (9)

  • Gosto muito do meu trabalho… mas sem duvida que nao me importava nada de ter uma temporada de dondoca…. Jokas

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  • Ehehehe, adorei a descrição…

    A melhora de tudo só depende de nós!

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  • Procuro dondoca para sustentar, os únicos requisitos são: ser dondoca e nunca deixar de o ser .

    Fico expectante por respostas.

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  • Mas sabe que uma dondoca também tem as suas exigências relativamente a quem a sustenta.

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  • Sou capricornio ou aquario, depende da revista que lê.Sou giro ou feio, depende do que gosta.Sou alto ou baixo, depende se é alta ou baixa.Sou introvertido ou extrovertido, depende da ocasião.Sou calado ou falador, depende da companhia.Sou inteligente ou lerdo, depende da sua rapidez de raciocinio.Sou inacessivel ou acessivel, depende da sua simpatia.Sou fácil, e isso só depende de si.

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  • Anónimo, se ler o meu blog sabe que já não sou dondoca…

    E sabe, nem tudo é tão relativo como descreve.

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  • Há verdades que magoam, mas são necessárias para seguir em frente e não desistir.

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  • […] um facto. Sou uma inútil. Não faço rigorosamente nada. Ser dondoca da classe média tem um curto prazo de validade. É preciso dinheiro para poder não fazer nada. […]

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  • […] no século xxi é um verdadeiro broche. Não há pachorra. Nós estávamos tão bem em casinha, na dondoquice e comodidade absolutas, sempre bonitas para o gajo que só chegava ao fim do dia (e com sorte, […]

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