o meu diário

Voar

Mesmo ao lado da janela da cozinha há uma pomba aninhada aos seus ovos. Eu não gosto de pombas mas esta coisa da maternidade comove-me sempre. Se pudesse escolher sonhava todas as noites que estava grávida a sentir o G. na barriga. Podia intercalar [sim, mãe, tive que ir confirmar se o ‘e’ vinha antes do ‘r’] com o sonho em que consigo voar como se nadasse bruços.Na vida-real-aquela-em-que-não-preciso-dos-sonhos senti exactamente o mesmo prazer de voar quando na capela-da-Lapa toquei a quatro mãos. Com a professora jugoslava a gritar em servo-croata. E eu, deixei de ter oito anos, deixei de estar zangada com a senhora que descobriu que eu precisava de usar óculos porque ela lê tão bem e anda a trocar as notas.Na capela-da-Lapa conheci uma menina, não menina como eu mas menina à séria, filha de um americano e de uma dinamarquesa que se conheceram em Paris e vivem em Lisboa. Noutra vida, posso não saber voar sem ser em sonhos, mas quero uma história assim. Cheia de mundo. Porque o meu mundo [concluí enquanto descia da Lapa para a Estrela] são as manifestações e os sindicalistas. Porque enquanto como pasteis de nata na Lapa nunca encontro ninguém e demorei meia hora a atravessar a multidão de reformados e funcionários públicos porque os conhecia quase todos.

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“Queres café?”

Se alguém que já tomou mais de três refeiçoes comigo me perguntar se quero café é porque nao gosta de mim. Nao estou a falar de amor, nem de homens. Estou a falar de gostar. Eu acredito que a atençao é a forma mais genuína de gostar. Se alguém compra Nutella (faz bolo de chocolate, encharcada ou morangos com mascarpone..) porque eu vou lá a casa, gosta de mim. E será oportuno neste momento dizer que nao existem frigorífico e armários tao perfeitos como os de um italiano. Se alguém – que pode – me vai buscar ao aeroporto num Fiat 500 mesmo que isso implique deixar o Spider na garagem, gosta de mim. Se alguém me for comprar pato à pequim antes de me visitar, gosta de mim. Se alguém me perguntar se quero café – vou dar o desconto – depois de tomar cinco refeiçoes comigo – com excepçao para o meu sempre-sogro que faz disso piada – é porque nao gosta de mim. Eu acredito – mesmo – que a atençao é a forma mais genuína de gostar.

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[Numa casa de tabique os sismos não se sentem. Dissipam-se.]

paredes de tabique: obtidas pela pregagem de um fasquiado sobre tábuas colocadas ao alto, sendo o conjunto revestido em ambas as faces, com reboco de argamassa de cal.
Eu vivo numa casa de tabique. Os meus vizinhos de cima – plural e não faço ideia em que número – vivem comigo. Eu agradeço-lhes a companhia. Ouço-os de calçarem os sapatos e correr pelas escadas quando o relógio se aproxima demasiado das 8h45. Ouço-os tão próximos que é exactamente como se estivessem a entrar-me pela casa e a desejar-me bom-dia. Ouço-os à noite e já descobri que descem do sotão num único salto. Sei a que horas saem nas noites de quinta-feira e agradeço-lhes as gargalhas quando regressam. Ás vezes olho para o relógio – há uma semana que posso dizer relógio e não telemóvel porque ainda não o tirei desde o dia em que me ofereci uma prenda de Páscoa – e controlo a hora a que chegam porque à noite sou sempre mais mãe que adolescente. Acho – tenho quase a certeza – que quando procurei casa pedi um T2, no bairro mais bonito de Lisboa, numa rua onde ouvisse os carros. E pedi companhia porque à noite tenho medo. Pedi uma casa de tabique.

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a última etapa para o estado-zen-completo

o meu actual estado de não-ansiedade sob todas vertentes da minha existência permitiu-me ir visitar a terra da minha mãe. a ligação entre estes dois acontecimentos só faz sentido porque estamos a falar de mais de três horas de viagem, uma casinha linda com menos de 30m2 , um aglomerado populacional inferior a 20 pessoas e nenhum foco de dispersão. o mesmo estado – com que me comprometi no meio do mar há uma semana e um dia – tem-me permitido os dias mais serenos dos últimos 27 anos [data a partir da qual guardo memórias].
mas esta conversa toda era só para chegar a um outro compromisso – directamente relacionado com a compra de um disco externo onde tenho estado a descarregar fotos – e que me permitirá alcançar o estado-zen-completo [e quem me conhece não pode começar a rir e a dizer que é impossível porque o estado zen anterior também parecia impossível e aconteceu]: eu tenho que parar de comer compulsivamente.
e pronto. era só isso.

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