mãe de uma menina
o meu diário

porque não queria ser mãe de uma menina?

Sou mãe de uma menina, sou mãe de uma menina, sou mãe de uma menina! São tantas as madrugadas em que acordas para mamar, em que te beijo a testa e te cheiro o cabelo e penso, incrédula: sou mãe de uma menina. São tantas as manhãs em que te visto, às vezes com a roupa que herdaste dos deus irmãos, outras com um laço rosa bem no alto da cabeça, e digo baixinho como se quisesse acordar de um sonho: sou mãe de uma menina.

A verdade é esta: eu não queria ser mãe de uma menina.

Durante a gravidez  afirmei muitas vezes: “é-me indiferente desde que tenha saúde”. E sentia exactamente isso mas esperava que – como das outras vezes – encontrassem um pilinha na ecografia. “Sou mãe de rapazes.”  Essa era a minha certeza.

Eu não queria ser mãe de uma menina. E eu explico-te porquê. Porque tinha medo de não ser menina suficiente para ser a tua referência. Não sei maquilhar-me, não pinto as unhas, sou demasiado despreocupada com aquilo que visto. Não fui a menina que recebia elogios, era demasiado “rapaz” para isso. Era maior do que as minhas amigas, mais bruta que as minhas amigas, menos “menina”. Cresci com a amizade dos rapazes, com o “és cá dos nossos”, “és mesmo fixe”. “Sou mãe de rapazes”, pensei sempre, como se isso me protegesse de todas as questões que ficaram por resolver na minha adolescência.

Duas ecografias e nada de pilinha, “quase de certeza que é uma menina”, garantiu a médica. O meu marido e o meu filho adolescente comoveram-se. E eu fiquei muito quieta, em pânico.  “Uma menina.” “E agora? Uma menina? Mas eu sou mãe de rapazes!”

O Afonso, o meu rapaz de cinco anos, teve um período de negação. Ajudou a esconder a minha. Depois aceitou: “eu afinal gosto de meninas e quero a mana”. Eu ainda demorei.

Tenho medo de ser mãe de uma menina apenas porque sou mulher e sei que isto do género ainda significa que muitas coisas são diferentes. Porque este mundo ainda assiste a situações gravíssimas em que as mulheres são maltratadas apenas porque são mulheres, porque ainda confundimos defender os diretos das mulheres com não poderem ser vaidosas ou mostrar o corpo. As mulheres não querem ser iguais aos homens, somos fisicamente diferentes, mas querem poder ser mulheres, da forma livre que o decidirem ser – suaves ou brutas, mães ou não, trabalhadoras em casa ou sem conseguirem ir a casa pelo cargo importante que têm, discretas ou despidas, cheias de pudor ou vergonha nenhuma, princesas ou camionistas.

Agora sou mãe de uma menina. E espero conseguir que sintas essa liberdade e esse mundo de possibilidades.

Comentários (12)

  • Um Bom dia para a mãe de “1menina ” e um Bem haja como escreve e expressa os seus sentimentos que sao tao tambem os nossos.Eu sou mãe de 2 meninas e um rapaz e adoro “ser a mãe “.
    Muitas felicidades

    MRosario

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  • […] Durante a gravidez … Ver artigo completo no Blog […]

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  • E que linda é a tua menina! Encantadora. Beijinhos

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  • Tocou-me profundamente este texto … nem sei porquê… eu …que sempre quis ser mãe de uma menina…e sou!

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  • Ainda bem que é mãe de uma menina.
    Acredito que se é mãe de menina é porque de facto tinha de ser.
    E também acho que a Luiza é afortunada por ter uma mãe com tamanha noção da realidade, da desigualdade de género, da violência que ainda somos vítimas apenas pelo sexo.
    Acho que seria bom para todas nós termos uma mãe princesa e camionista como a Catarina.
    Um beijinho para toda a família tão encantadora de real que é.

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  • Tenho 2 e a certeza absoluta que se for ao terceiro terei 3! Uma certeza como a tua. Certeza de quem vive com um pequeno camionista dentro de si.
    😉

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  • Escreves de uma forma tão suave e delicada que não consigo imaginar uma Catarina bruta! Gosto muito de te ler! E engraçado que eu sou precisamente o contrário, nunca me imaginei mãe de um menino, sempre disse que iria ter uma menina. E assim foi! Não sei se irei ao segundo filho, mas gostaria de mais uma menina! Beijinhos

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  • Pois eu sempre me imaginei mãe de menina para pôr os lacinhos os vestidos, mas cá estou sou mãe mas de um menino que eu amo mais que tudo nesta vida, mas no dia em que soube que era um menino até chorei, não queria porque não havia roupas giras e não sabia comprar coisas para menino, o meu bebé tem agora 4 meses e anda sempre bem vestido com tudo a conduzir, não sei se terei outro bebé mas se tiver e se for menino já não me vou importar. Obrigada pela tua partilha

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  • Um texto magnífico. Obrigado pela partilha. Tenho todos esses sentimentos medos e dúvidas. Não consigo maquiar sozinha sou desorganizada e isso torna me desleixada. A dança das hormonais fementidas é algo difícil de suportar sempre alegre. Sempre quiz ser mãe de uma menina mesmo sabendo os desafios de ser mulher mas queria mesmo ser mãe de menina. Não sou tenho um menino lindo que é o meu sopro de vida. Ainda olho para ele e penso como é que sou mãe de um menino. Como é que o vou encaminhar em quanto homem se eu sou mulher? E o pior sinto que as preocupações duplicaram tenho que cuidar mais de mim enquanto mulher. Não quero que ele me tenha como imagem de referencia e acabe por se unir a uma esposa desleixada. Quero que através da minha imagem possa aprender a respeitar as mulheres e valorizá-las de forma livre sem combranças. Ser bem é o maior desafio de vida

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  • Porque gostaria de ser mãe de uma menina e deus presentiou me com dois lindos meninos….que me orgulham e iluminam o dia…e hoje não me imagino a ter uma menina😉…os homens reinam na minha vida…so tenho irmãos(rapazes) e agora filhos (rapazes)….

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  • Como a percebo! Boa sorte!!!!

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  • Sei o que é. 😀 Tinha a certeza que ia ter rapazes até porque na família do meu namorado são todos rapazes em duas gerações. Eu fui complicada e sempre receiei a “complicação emocional” das meninas. Falo por mim.
    Quando o médico disse que era uma menina, perguntei-lhe 3 vezes se estaria a ver bem. Menina.
    Dois anos depois… outra menina.

    E eu, que só me visto de preto, não me sei maquilhar nem andar de salto alto, vivo imensamente feliz num mundo de princesas cheio de tules e de cor de rosa. Nem me consigo imaginar mãe de rapazes. E confirma-se que as raparigas são complicadas mas são também extremamente meigas, carinhosas e umas verdadeiras princesas capazes de tornar a nossa vida brilhante e colorida todos os dias.

    A minha vida é mais ou menos isto: http://www.vinilepurpurina.com/as-vezes-ter-duas-filhas-e-mais-facil-279520

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