Fogo: o crime e a impunidade que não compreendo
o meu diário

Fogo: o crime e a impunidade que não compreendo

o fogo é uma doença e um negócio. raramente o fogo é uma catástrofe natural. o fogo é uma doença de pessoas que tiram prazer das imagens horrendas das chamas que correm, destroem e matam. o fogo é um negócio que limpa terrenos e aciona seguros. não tenhamos dúvidas que raramente o fogo é um catástrofe natural. o fogo é quase sempre um crime.

não posso aceitar que, perante um fogo, a consequência seja sempre esta: destruição e mortes. o problema é o “sempre”. como podemos aceitar que isto aconteça e volte a acontecer? como podemos aceitar que não existam formas de prevenção e de intervenção mais rápida e eficiente? como podemos aceitar que algo desta dimensão seja apenas entrega a pessoas – a que chamo heróis – que põe a sua vida em risco de forma voluntária? e para além dos bombeiros, esperamos que sejam apenas as pessoas que vivem nos lugares que ardem que combatam os fogos? aceitamos um país em que quase todas as localidade, perante um fogo, ficam em isolamento é total? é assim que agimos perante a iminência da morte? como se fosse normal?

não quero saber de discussões políticas, se a culpa é deste Governo, do anterior, da Junta de Freguesia, ou de todos juntos, dos anteriores e dos antes desses. a culpa é de quem pode fazer alguma coisa neste momento, é daqueles que podem prevenir o próximo e garantir que as coisas funcionam. não quero que choremos as mortes para pouco tempo depois acontecer exactamente o mesmo, com os mesmos contornos.

é angustiante. é ainda mais angustiante que nada mude.

 

 

“Se as previsões de alterações climáticas se concretizarem, o inferno que nos está a entrar em casa pelas televisões é apenas o começo. A tendência é para que os próximos anos, décadas, sejam verdadeiramente dantescos. É, portanto, altura de compreendermos e aceitarmos que estamos em guerra, com batalhas anuais entre maio e outubro. Em guerra, exige-se medidas excecionais. Em guerra, não colhe o argumento de que os bombeiros não podem acorrer a todos os fogos. Porque em guerra tem de haver meios suficientes, custe o que custar. É para isso que pagamos impostos. Se houve meios incomensuráveis para resgatar bancos tomados de assalto por bandoleiros, é evidente que tem de haver meios para que a Proteção Civil possa resgatar os cidadãos nas aldeias, em tempo útil. Em guerra, ensina-se também as pessoas a protegerem-se e a prevenirem as situações mais complicadas. E coordena-se uma real limpeza das matas. Em guerra, finalmente, colocam-se os melhores cérebros a desenvolver modelos que permitam previsões mais eficazes da evolução dos incêndios. É caro? Absolutamente. É um luxo? Obviamente que não: é uma necessidade.”

Luis Miguel Nunes

 

 

nota: tento sempre que as fotos que acompanham os textos sobre os fogos não mostrem o poder das chamas. acredito que existem pessoas doents que tiram prazer e incentivo nessas imagens e isso deixa-me horrorizada…

 

foto: Paulo Novais, Lusa

 

 

 

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