o meu diário

eleições autárquicas: sobre votar

Hoje é dia de eleições autárquicas. Gozem à vontade mas sempre que acabo de fazer as cruzinhas nos boletins de voto e os dobro, cuidadosamente, em quatro, comovo-me. E no momento em que deito os boletins de voto na urna, para além de uma vontade enorme de chorar, sinto-me a pessoa mais importante do mundo.

Lembro-me do “dia de eleições” desde que me lembro de ser gente. Em Almada sentia-se um ambiente de festa, os cafés abriam ao domingo e as ruas enchiam-se de vendedores ambulantes de coisas várias incluindo plastificação de cartões. O meu pai estava sempre nas mesas de voto e saía de casa quando ainda dormíamos. Eu acordava mais entusiasmada que em dias de visita de estudo ou véspera de Natal: ia votar com a minha mãe.

Enquanto andava na escola primária, ir votar com a minha mãe significava visitar a escola que um dia seria minha. E eu, assustada, pensava “é tão grande”. Mais tarde, quando aquela já era a minha escola, ficava encantada por ver tantos adultos a ocuparem os nossos corredores e as salas arrumadas com aqueles biombos que guardavam segredos.

A minha mãe levava-me com ela, num momento solene, de muito silêncio e respeito, deixava-me fazer a cruz onde ela indicava. Eu sentia-me importante por guardar aquele segredo, por estar presente naquele momento das pessoas adultas. E desejava que chegasse o dia em que seria suficientemente crescida para votar.

Recordo lágrimas de tristeza, gritos de alegria e noites eleitorais vividas na rua. Outros dias de eleições ficaram marcados por episódios memoráveis como, em 1986, na segunda volta das eleições presidenciais, quando a minha mãe, depois de demorar mais tempo do que o normal a por a cruz no boletim de voto, me largou a mão e correu para a rua para vomitar. Anos mais tarde percebi porquê. Por muito que custassem as decisões, votar era incontestável. Porque o meu pai e a minha mãe viveram num tempo em que participar nas decisões não era uma opção. E eu aprendi que é isso que distingue uma democracia de outros regimes que não desejamos: poder votar. Poder escolher.

Votei, pela primeira vez, no dia 28 de Junho de 1998, no primeiro referendo realizado em Portugal. E senti-me pessoa crescida e importante por poder fazer parte de uma decisão nacional. E é assim que me continuo a sentir a cada “dia de eleições”. E ficarei sempre comovida quando coloco os meus votos na urna.

 

 

artigos escrito a 30 de Setembro de 2013

Comentários (4)

  • […] Lembro-me do “dia de eleições” desde que me lembro de ser gente. Em Almada sentia-se um ambiente de festa, os cafés abriam ao domingo e as ruas enchiam-se de vendedores ambulantes de coisas várias incluindo plastificação de cartões. O meu pai estava sempre nas mesas de … Ver artigo completo no Blog […]

    Responder
  • Voto em Almada há alguns anos, mas hoje fomos a pé, de casa até à Cacilhas-Tejo, pela primeira vez votar em família. Nunca tinha reparado, mas é mesmo assim – ainda parece haver festa! E aqueles que me conhecem, ou que sabem quem sou apenas de vista, arregalavam muito os olhos a brilhar. Uma senhora disse ao meu namorado, na fila para a mesa de voto (estivémos 30 minutos à espera): “Hoje é rápido, sabemos em quem vamos votar, não é?”.
    O dia em que escreveste este artigo foi a data da primeira vez que votei em Almada. Estava a chegar o Outono (finalmente!) e eu estava a 15 dias de ser mãe. Mudámos de Presidente de Câmara. Gosto tanto desta terra que ainda cá estou, e creio que a força que a lidera tem muito a ver com o sentimento de esperança e alegria que se vive cá deste lado do rio.
    Um abraço, Catarina

    VPB

    Responder
  • Catarina, obrigada pelo testemunho. Nunca falhei com este meu dever e Eu também me emociono sempre que vou votar e não sei explicar porquê! Acho que será sempre assim e sempre que o faço envio uma mensagem ao meu pai a dizer :”Dever cumprido!” Tenho 42 anos e desde que exerço o meu direito é para mim uma emoção. Um beijinho

    Responder
  • Não posso deixar de comentar este post que transmite tão bem aquilo que eu sinto e que sou eu! Também eu ía com a minha mãe votar, visitar o meu pai nas mesas de voto! Era uma emoção. Assistia a todos os debates até à hora que era obrigada a ir para cama.

    Votei pela primeira vez no dia 14 de Janeiro de 2001. Eram eleições presidenciais e o meu voto foi em Jorge Sampaio.
    Sinto-me a cada dia que voto emocionada, por poder fazer parte de uma sociedade livre que se importa com a minha opinião (somos importantes, afinal!).

    E em todas as eleições o que mais me incomoda, o que não consigo compreender, é a abstenção. Como é possível que um número tão elevado de eleitores se deixe ficar em casa, sem sentir culpa? Quando alguém me diz que não vota, não saberá que me está a ofender com toda a certeza. Mas o meu coração torce-se de dor! Faltou-lhes um pai como o meu. Como o nosso, cara Catarina. Eu tenho a sorte de o ter e devo a ele toda a minha consciência cívica!

    Responder

Deixe um comentário