raquel fortes
perguntar a quem sabe

Raquel Fortes: “A obesidade é a doença do século e um grave problema de saúde pública”

gosto muito da Raquel Fortes, da história dela e daquilo que ela defende. nesta altura que tenho falado tanto sobre equilíbrio, sobre não ceder a fundamentalismos mas sem esquecer a saúde, falar com a Raquel foi perfeito.

como todas nós, a Raquel já teve uma relação com a balança pouco saudável – ligava demasiado aos números. hoje sabe que os números não refletem o nosso verdadeiro estado. hoje a Raquel importa-se mais em dar coisas boas ao corpo. em sentir-se forte. em sentir-se bem. é da área da comunicação, mas este novo interesse cresceu tanto que a levou a tirar um mestrado em nutrição clínica. a corrida também entrou na vida dela. no inicio custou, doeu, mas hoje já não passa sem este desporto. tanto que criou um grupo de treino e é frequente estar a preparar-se para participar em maratonas.

todos estes novos interesses geraram novas iniciativas. a Raquel é autora de dois projetos muito giros: do blogue “It’s Up to You” e é coautora do livro “Crianças Saudáveis, Famílias Felizes“, com a Luísa Fortes da Cunha, do “My Casual Brunch“. neste livro, além de muitas receitas pensadas para os miúdos, luta-se contra os números assustadores da obesidade infantil, uma das maiores doenças do século. promove-se uma boa educação alimentar, consciente e equilibrada, que deve começar na mesa de casa, junto dos pais.

leiam. porque vão aprender e ficar a pensar em coisas importantes.

 

1. Quando é que a tua relação com uma alimentação saudável deixou de ser puramente de ordem estética para começar a pesar numa maior consciência de saúde e de bem-estar?

Estava eu na fila de um supermercado quando li na capa de uma revista “Sumos Detox para uma semana, com lista de compras incluída” e pensei logo que tinha chegado o momento de perceber se os sumos verdes não eram apenas uma moda. Passadas duas semanas de começar o dia com um sumo de frutas e legumes crus percebi que a energia e boa disposição com que ficava nos dias em que bebia era muito superior aos dias em que não os tomava.

2. O que é que desencadeou esta mudança de visão?

Passei a dar mais atenção à qualidade dos alimentos, origem e composição nutricional dos mesmos, e sua combinação, e menos à quantidade ingerida ao longo do dia. A cozinha passou a ser um local de prazer, onde aproveito para descontrair a inventar receitas e a testar as substituições por alimentos mais saudáveis.  Perceber que fazer uma escolha consciente dos alimentos a ter em casa é uma forma de cuidar da família, mudou por completo a minha visão em relação à comida. Nunca nos podemos esquecer que o que comemos hoje, influencia a nossa saúde amanhã.

3. Como é que é hoje a tua relação com a balança? E como é que era antes?

Sempre tive uma relação de amor/ódio com a balança, diariamente presente na minha vida, pronta para me dar boas ou menos boas notícias. Quando olho para trás penso que se tivesse passado por alguma situação de fragilidade emocional durante a adolescência teria sido uma forte candidata a ter uma doença do comportamento alimentar, porque gostava de ter um grande controlo sobre o que comia. Quando comecei a correr, ao contrário da maioria das pessoas, aumentei de peso com o ganho de massa muscular, e confesso que foi difícil ao inicio assumir esses novos números na balança. Preferi manter a prática de exercício físico e deixar de me pesar todos os dias.

 


4. Como é que surgiu este interesse pela alimentação, que te levou, inclusivamente, a frequentar um mestrado em nutrição?

A curiosidade do efeito dos sumos com alimentos crus, fruta e legumes, levou-me a procurar mais informação sobre os alimentos, para perceber o verdadeiro poder que têm no nosso organismo. Comecei por frequentar vários workshops de alimentação saudável, mas achava sempre que ficava a faltar alguma informação mais científica. Sendo a minha formação e experiência profissional na área da comunicação, senti a necessidade de aprofundar os meus conhecimentos na área da investigação, com a frequência no Mestrado de Nutrição Clínica, de forma a dominar melhor os conteúdos e temas que abordo no blog.

5. E a corrida. Porque é que te comprometeste a correr todos os dias? Qual é o truque para esta experiência deixar de ser dolorosa para passar a dar prazer? Fisicamente, que diferenças é que sente?

Assim como aconteceu com os sumos matinais, percebi que nos dias em que corro fico muito mais bem-disposta, resultado do poder das endorfinas. E quem é que não prefere passar o dia feliz e relaxada em vez de stressada e com pouca energia? Esse é o truque que mais me motiva a correr. Saber que o esforço do momento é largamente compensado a seguir.

Depois há a questão da superação pessoal, que descobri em provas de corrida. Corremos por nós e não para sermos melhor do que os outros. Definimos um objetivo que sabemos que apesar de difícil é possível de atingir com esforço, foco, dedicação e determinação. Chegar ao dia e superá-lo é uma sensação indescritível, que fica para a vida e que se quer repetir, com novas provas, que nos leva a não parar e continuar a treinar de forma regular.

Outro truque é fazer parte de um grupo que nos motive. Foi com o propósito de partilhar bons momentos com quem também gosta de correr que criei o grupo Team It’s Up to You, onde vamos buscar as “good vibes” necessárias naquelas alturas em que parece que não há truque que funcione para nos levar a sair de casa para correr.

Mas, o mais importante é encontrar a atividade desportiva que nos dá mais prazer e felicidade, porque só assim vai ser possível praticá-la de forma regular.

6. Que medidas é que deveriam ser implementadas para prevenir e impedir aparecimento e evolução de casos de obesidade infantil?

Havendo dados oficiais que confirmam que a obesidade é a doença do século e um grave problema de saúde pública, que uma em cada três crianças sofre de excesso de peso e que crianças obesas transformam-se em adultos doentes é fundamental haver uma mudança de mentalidade, acompanhada de uma oferta diferente, com alternativas saudáveis, nas escolas e restauração. Mais vale prevenir a doença do que tratar.

No livro “Crianças Saudáveis, Famílias Felizes”, do qual sou coautora com a Luísa Fortes da Cunha, falamos do que consideramos serem os sete passos para combater a obesidade infantil, que passa sobretudo por uma mudança de atitudes comportamentais, nutricionais e sociais, que deve começar em casa e continuar na escola.

É imperativo que a restauração, instituições de ensino e saúde tenham consciência que o excesso de sal e açúcar, e o consumo de gordura trans presentes nos produtos processados, como bolachas, batatas fritas, salsichas, pizzas, e em tudo o que se traduz em junk food, são os principais responsáveis pelo aparecimento e desenvolvimento da obesidade infantil.

É fundamental que estas entidades passem a ter uma atitude responsável e consciente na altura de adquirirem os alimentos e de os confecionarem. É possível cozinhar com menos sal, optando por utilizar mais ervas aromáticas e especiarias, por exemplo, ou substituir o açúcar refinado por adoçantes naturais, e trocar as gorduras saturadas, como batatas fritas e manteiga, por alimentos de ricos em gorduras saudáveis, como os frutos secos, abacate e sementes.

7. E os pais? Como é que devem agir? É difícil encontrar um equilíbrio entre ser demasiado restritivo ou demasiado permissivo…
A alimentação tem duas funções principais, a nutritiva e a social. Quando queremos saber como os nossos filhos se devem alimentar recorremos a um profissional de saúde, mas quanto à função social cabe-nos a nós começar por incutir os hábitos de vida e alimentação saudável em casa e em família, que é o nosso primeiro ambiente social.

O equilíbrio, apesar de nunca ser fácil, a meu ver centra-se muito em não haver fundamentalismos. Não viver com o peso na consciência quando os filhos vão a uma festa de anos e comem tudo o que nós já sabemos… é normal acontecer quando é uma exceção à regra.

Depois, como referimos no livro “Crianças Saudáveis, Famílias Felizes”, a saúde dos filhos começa à mesa dos pais, e somos nós que devemos dar o exemplo, do que comemos e como o fazemos. A alimentação em família é muito mais do que o tempo que passamos à mesa das refeições. Vai desde a escolha e compra dos alimentos, o tempo que se passa a cozinhar e no final da pirâmide, que o tempo passado à mesa seja de qualidade.

8. Como é que lidas com os seus filhos nesta questão?

A experiência com os meus filhos traduz-se no meu modo de estar na vida, agir com coerência, persistência, consistência e de preferência com um sorriso na cara. Não é uma missão fácil, mas foi o propósito de vida que escolhi, de há uns anos para cá. Complica-se ainda mais quando tenho filhos com um peso normal, que acham que não há razão aparente para terem um especial cuidado com a alimentação. Já aprendi a viver com a célebre frase “não há nada para comer em casa”, desde que os pacotes de bolachas desapareceram da despensa lá de casa.

Mais uma razão para os cuidados começarem na gravidez e manterem-se nos primeiros mil dias de vida, altura em que os bebés necessitam de uma alimentação específica que forneça os nutrientes necessários para assegurar um crescimento saudável.

9. O que é que costumas ter sempre no frigorífico e despensa de casa?

As compras de supermercado ficaram muito facilitadas desde que houve uma mudança de hábitos alimentares, centrando-me em poucos e bons alimentos, como fruta, legumes, iogurtes com pouco teor de açúcar e gordura, cereais integrais (aveia por exemplo), leguminosas (grão e feijão), sementes, azeite, alho, cebola, ervas aromáticas, especiarias, alguns peixes gordos, carnes brancas e ovos. Ah, e o chocolate 70% cacau, que nunca falta!

10. Defendes a criação de iniciativas que promovam a inovação e empreendedorismo direcionado à área da promoção da alimentação saudável. Em concreto, que tipo de iniciativas consideras fundamentais?

Todas as ideias inovadoras que tenham por base a consultoria e formação direcionada à promoção da alimentação saudável contribuem para o aumento da literacia das diferentes populações. Há que definir o público para quem estamos a comunicar e em seguida procurar os profissionais certos para fazer chegar a mensagem, uns de carater mais científico, outros com experiência de contacto com o público, tendo como principal objetivo facilitar a implementação de hábitos de vida e alimentação saudável.

Por exemplo, há cerca de dois anos, com o objetivo de elevar o nível estético da “pegada digital” quando o tema de pesquisa nas redes sociais é comida saudável, criei em conjunto com a Samanta McMurray, o workshop “Style Up Your Food” uma formação de fotografia de comida em ambiente mobile e food styling, que ensina a tirar boas fotografias a comida saudável, prontas a serem partilhadas no momento, acompanhado a tendência do “aqui e agora”.

Como “os olhos também comem” acreditamos que esta formação contribuiu para inspirar mais pessoas, ao melhorar a qualidade da informação disponível ao consumidor, inspirando-o para escolhas alimentares saudáveis.

vejam ainda a entrevista com a Francisca Guimarães, do blogue Miss Kale.

Comentários (3)

Deixe um comentário