segredo
o meu diário viver família

sobre o cansaço. ou sobre o segredo que tem de deixar de ser um segredo.

tenho andado brutalmente cansada. naquele ponto em que tenho a sensação que a cabeça vai rebentar. naquele ponto que me apetece chorar e gritar. não choro porque não consigo e não grito porque o ruído seria pior ainda. é um conjugação explosiva entre cansaço e problemas. na confissão deste estado mandaram-me este texto da Ang Porter no Huffington Post. revi-me nestas palavras. e concordo com tudo o que ela diz: não só temos de conseguir admitir que sim, que estamos cansadas, exaustas, quase a quebrar, como temos de parar de tentar fingir que está tudo bem. temos de parar de gozar. e temos de encontrar soluções e pedir ajuda. temos de ter um tempo que seja só nosso – mas a sério, de qualidade. temos que juntar a tribo. foi isso que fiz este fim-de-semana. temos de quebrar o segredo. 

 

“Muitos de nós, pais, temos um segredo. Nós gozamos com este segredo. Rimo-nos casualmente, como se não estivéssemos a falar a sério.

Depois vamos à casa de banho e fechamos a porta. Sentamo-nos no nosso spot secreto. Talvez agarremos no telefone, num livro, talvez fiquemos só a olhar para a parede da casa de banho. Há água a correr. Conseguimos ouvi-la a bater na porcelana. Cai, cai, cai.

Quando a torneira solta um gemido gutural lembramo-nos de que são os nossos olhos que estão a correr. E as nossas lágrimas estão a cair na porcelana.

Se tivermos sorte, estamos a fazer isto sem as mãos a agarrar na porta, sem alguém a gritar o nosso nome, sem ouvir coisas a partirem-se na sala.

Mesmo enquanto nos sentamos na nossa casa de banho, com lágrimas a inundarem a nossa cara, e a fazer este barulho – que só acontece quando soluçamos – nós sentimos o nosso segredo: somos inadequados. Estamos exaustos. Há dias em que estamos completamente quebrados.Quando estamos sozinhos, andamos às voltas pelo super mercado e entramos num semi estado de transe. É tão comum os pais reconhecerem e terem consciência disto!

“Sem filhos hoje, ham?”. Brincamos. Às vezes os nossos companheiros dizem coisas como “porque é que estas tão stressada? pudeste sair sem os miúdos ontem!”Os nossos companheiros não estão a ser rudes. Nem é falta de consideração. Eles estão a ser completamente sinceros. Estamos tão sobrecarregados que estar numa loja rodeado de produtos embalados é considerado consolo.

Gozamos com isto. Todos os nossos amigos concordam, fazem like no facebook ou põem um coração no instagram. Mas é preciso começar a agir.

Mais uma tarefa, certo? Dêem-me mais alguns minutos para me explicar.

Gostava de ser capaz de simplificar isto e fazer-vos lembrar da saúde mental das comunidades que não enfrentam a pressão social do dia a dia com que nós temos de lidar. É um sonho utópico e sonhador, mas há por aí muitos blogues a dizerem o mesmo.

“Nós precisamos de uma tribo”. “Precisamos de trazer de volta o sentido de comunidade”. “Antes, outra mulher podia cuidar do nosso bebé e nós podiamos dormir”.

Quero muito que todas estas coisas sejam possíveis para nós. Todos os dias imagino isto – e é, normalmente, enquanto fixo a parede da casa de banho, enquanto sonho com um copo de vinho.

Ainda assim, vamos trabalhar com o que é possível, com os recursos que temos.

 

Comunidade online
Todos temos uma, seja de que forma ou feitio.

Ajuda profissional
Não quero só dizer de saúde mental. Contratem uma empregada, uma pessoa para ajudar, alguém para passear o cão. Descubram o que é que podem fazer e quanto é que podem pagar. Se tiverem 40€ para o serviço de lavandaria que vos entrega tudo limpo e passado de duas em duas semanas, que seja.

Dormir
Não se riam. Eu sei que quem me conhece está a rir-se. Eu raramente durmo. Porquê? Porque acordo quando os miúdos acordam e quando eles vão para a cama à noite eu quero descanso. Esse descanso faz com que eu fique acordada até ás 4 da manhã… e 3 horas depois estou de pé. Não só estou mentalmente esgotada, como vivo de café.

Mantras
Escrevam-nos. Pintem-nos enquanto estão acordadas à noite. Colem-nos ao espelho ou na parede da casa de banho para onde costumam olhar. Gozem comigo e façam-nos durante duas semanas. Depois digam-me como correu.

Verdade
Guardei esta para último porque acho que é o que mais precisamos. Se tudo o que fazemos é gozar com a situação, então não estamos a ajudar-nos nem a nós, nem a outros pais.

É completamente aceitável admitir que estamos cansadas, que há dias em que não queremos ser mães ou pais, e, sim, que há até dias em que consideramos fugir para outra cidade.

Se pudermos começar a normalizar estes sentimentos, então podemos começar a descobrir como ajudar-nos uns aos outros, como ajudar-nos a nós próprios e como ajudar-nos a ser melhores pais para as nossas crianças.

As pessoas antes ajudavam-se. Agora? Agora temos vinho, Xanax e pouca noção do que é ou não é aceitável.

O que não é aceitável é que os pais enterrem os sentimentos de forma tão profunda. Que escondam o seu segredo, a soluçar e a atirar água fria para a cara para disfarçar. O que não é aceitável é que o momento alto das nossas vidas seja ir à mercearia sozinhas.

Portanto vamos inverter a situação. Pedir ajuda, oferecer ajuda, tratar das mãos e fazer massagens enquanto alguém está a tomar conta dos miúdos, sem pesos na consciência.

Temos de parar de nos esconder. A nossa vida depende disso.”

 

 

e está em falta um texto meu, prometido no instagram, sobre isto de “pedir ajuda”, sobre as alturas em que não é assim tão fácil pedir ajuda e sobre os momentos em que, apesar de todo o cansaço ainda não somos capazes de largar a cria. 

Comentários (9)

  • Bom dia Catarina. Realmente há momentos em que simplesmente sobrevivemos e isso é tão pouco para o bom que é estar-se vivo. Eu peço muitas vezes ajuda, ajuda ao meu companheiro, ajuda à minha mãe e ajuda à minha sogra… porque tem de ser. Deixei de ir de férias sozinha, vou em comunidade, com a família e, que bem que me sabe. Sobre o dormir algumas vezes isolo-me num quarto da casa e peço ao meu companheiro para assumir todo o controlo da situação. Não é o ideal mas a minha sanidade mental fala mais alto. Temos simplesmente de encontrar estratégias. Vamos a isso? Força e sem dúvida, mais vida em comunidade!

    Responder
  • Olá Catarina, por acaso hoje sinto-me assim, tenho dores de cabeça o que é raro, mas dormi mal, isto é sonhei muito, sonhos sem pés nem cabeça e acordei super cansada, por essa razão não vou postar nada, não tenho “cabeça” para pensar e não ia escrever nada de jeito, sendo assim paciência, quando me sentir melhor faço dois ou três posts seguidos. Hoje não. Sei que estou a iniciar e devia postar à bruta mas….
    #maedocoracaosoueu.blogs.sapo.pt#

    Responder
  • Tão bom o texto e tão real a sensação. No meu último dia de trabalho antes de férias cheguei a casa, sentei-me numa cadeira na cozinha, respirei fundo e chorei tanto, mas tanto que nem me conheci. Senti que tinha chegado à exaustão e tudo o que me apetecia era a inércia e o silêncio total; claro que isso é impossível de acontecer: mãe “sozinha” com uma criança de quatro anos insulino-dependente que precisa de olhos em cima dela constantemente; sou a única pessoa que cuida dela, para além da educadora e não são raras as vezes que penso até quando vou aguentar. Depois, minto-me, e digo aos outros que está tudo bem, tem de estar; a vida tem de seguir, mas caramba há dias que até o ar me falta.

    ler este texto fez-me sentir menos incompreendida, obrigada.

    Responder
  • Acho a Catarina muito bonita, tem um cabelo lindo, mas detesto tatuagens, só isso 🙂

    Responder
  • Obrigada…

    Hoje… a semana que passou… e esta… parecem-me assim 😔😔😔

    Responder
  • oh Catarina… nem sei por onde começar…sou mae de uma menina linda e sorridente de 4 meses que me traz mta alegria mas é tudo o que a Catarina descreveu.. o cansaço..os dias atras de dias seguidos sem noçao do tempo, dia da semana, mes… somo so nos as duas e o pai ao fim do dia…nao ha a quem pedir ajudas..nao ha empregada, nem lavandarias nem mae,(vive noutro país) nem sogra (é como se nao existisse) nem amigos…sou mae, esposa, trato da casa, da comida, da roupa..ha que dar todos os dias o maximo e o meu melhor e é tao dificil as veezes.. mas depois ha uma onda de força que sentimos e pensamos.. tens sido uma guerreira apesar de tudo.. é o que me da forças para continuar. e sim a minha saida é a ida ao supermercado todos os sabados..
    Obrigada pela partilha e por ver que nao estamos sozinhas com estes sentimentos. beijo grande

    Responder
  • Vanessa 😊 ao seu comentário vou só acrescentar mais um filho de 5anos 😍, o resto é igual 😍 estamos juntas 😘 Catarina parabéns vamos a luta 😂😘

    Responder
  • Que post tão bom!!! Muitos Parabéns

    Tenho dois filhos com 2 e 4 e ultimamente tenho sentido tudo o que escreveu… estou sem vontade de nada, só tenho vontade de chorar, eu sei que alivia mas espero que esta nuvem não fique por estes lados muito tempo.

    É bom saber que não somos as únicas.

    Beijinhos grandes

    Responder
  • Olá Catarina, já te leio há muito, hoje em dia vejo-te mais do que te leio (Instagram). Raramente comento, mas ao ler este texto aoeteceu-me.
    Ando cansada, não o cansaço físico, mas também por causa dos filhos. Outra fase. A vida foi tão preenchida por eles em pequenos, que quando crescem fica um vazio. Tão grande.
    E é esse esforço para preencher esse vazio que me cansa.
    E revejo-me nestas palavras que li. E sei que também tenho a minha tribo. Algures por aí.
    Beijinhos
    Sílvia

    Responder

Deixe um comentário