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Mulheres: o direito a ser mais do que reprodutoras!

Homens e Mulheres são seres multidimensionais que merecem olhar para si mesmos e serem olhados pelos outros precisamente enquanto tal. Encerramos em nós inúmeras potencialidades que continuam a desafiar limites. É importante não nos reduzirmos nem nos deixarmos reduzir apenas a parcelas da nossa existência.
Enquanto Psicóloga Clínica e mulher confronto-me frequentemente com relatos e situações de invasão da privacidade e liberdade individual. Numa temática em particular, este trespassar dos limites pode revelar-se particularmente doloroso e desafiante: a questão de ter filhos.

Tenho acompanhado diversas mulheres em idade fértil que se confrontam com batalhas para conseguir engravidar, umas mais bem sucedidas do que outras. Outras mulheres enfrentam outro tipo de batalha: afirmar sem vergonhas que não querem ter filhos, independentemente de estarem numa relação amorosa ou não. Parecem-nos realidades muito distintas, ainda que ambas se toquem num mesmo aspecto: o sofrimento causado pela intolerância em seu redor.

Histórias reais

Diana – a luta por um sonho de maternidade adiado

Vou falar-vos da Diana (nome alterado), que tem 33 anos e luta há cinco anos para conseguir engravidar. Já perdeu a conta aos comentários e perguntas invasivas que lhe foram feitas: “Então habituou-se à vida egoísta de namorar e agora não quer filhotes, não é?”, “Tanto trabalho e viagens, e as crianças? Olhe que um dia já vai ser tarde”, “Mulher que é mulher dá filhos ao seu marido!”.

Estes comentários infelizmente não são criados por mim, traduzem comentários reais. Do seu grupo de amigos é a única que não tem filhos. Algumas amigas já vão para o terceiro filho. É fácil num dia-a-dia frenético como o nosso partirmos de pressupostos preconcebidos, julgarmos que conhecemos quem nos rodeia e que somos donos de algumas verdades. Por vezes, de forma mais ou menos distraída, podemos reforçar feridas abertas em pessoas de quem até gostamos. A Diana quando me procurou estava bastante deprimida, a colocar o seu valor enquanto pessoa e mulher em causa, com um projecto de vida em suspenso pela impossibilidade de ser mãe. Os seus últimos anos tinham sido exclusivamente em torno deste sonho, todos os dias.

O seu corpo virou laboratório e alvo de exploração intensa em busca do botão desafinado que travava a mãe natureza de conceber vida. No processo psicoterapêutico que temos desenvolvido, tem sido objectivo devolver identidade à Diana, a possibilidade de se apessoar de si mesma de forma completa e não apenas em torno da sua capacidade reprodutória. Aprendeu a filtrar dentro de si comentários externos, a contar com eles e contextualiza-los ao invés de se surpreender e deixar destruir, a focar-se mais em si e nas suas verdades e menos nas verdades dos outros.

Mariana – quando enfrentamos uma montanha-russa chamada vida

A Mariana (nome alterado) tem 35 anos e conta com duas perdas espontâneas de gravidezes de pouca duração. As redes sociais faziam-na sentir um ser fraco e com defeito. Começou a sentir-se a única mulher incapaz de gerar uma criança saudável. Entretanto ficou solteira e um contra-relógio abateu-se sobre si. Conseguia detectar os olhares de preocupação da família, os comentários condescendentes de alguns conhecidos e as propostas de promoção no trabalho considerando que não tinha “entraves”. Aos 35 anos sentiu-se reduzida a um elemento de identificação: não sou mãe. Tal contribuiu para que mergulhasse num vazio imenso, com perda de prazer e isolamento social. Em psicoterapia tem aprendido a redescobrir dimensões suas que não passam nem pela maternidade nem pelo acasalamento e a dar resposta às suas necessidades emocionais focando-se no que controla e no que está no seu campo de acção.

Petra – a que ousa desafiar o papel reprodutor

A Petra (nome alterado) tem 43 anos e é casada há duas décadas. Nunca quis ter filhos e o projecto de família adaptou-se a essa realidade. Quando fez 40 anos sentiu o mundo a cair-lhe em cima, como se tivesse chegado a derradeira oportunidade de abraçar um projecto de maternidade. As dúvidas instalaram-se mas não partiram de si. As respostas seguras viviam dentro de si, mas foram abafadas por vozes externas. Começou a questionar a sua sanidade mental, a temer as consequências para a sua relação no futuro, a duvidar da sua idoneidade enquanto pessoa. Também neste caso, a psicoterapia revelou-se essencial para a apoiar a entrar novamente em contacto com a sua voz e a reduzir os diversos sintomas de ansiedade que se haviam instalado.

Pessoas diferentes têm necessidades diferentes, sonhos distintos, histórias de vida únicas e desafios particulares.

Que possamos todos treinar a nossa flexibilidade mental para encararmos modelos de família e escolhas de vida como sendo únicas e específicas para cada pessoa. A diversidade enriquece-nos enquanto sociedade. Que possamos mais vezes treinar a nossa capacidade empática e de escuta activa, que nos ajudará a respeitar efectivamente as pessoas à nossa volta e adoptarmos posturas pautadas por sensibilidade. Não se trata de proclamar compaixão e respeito mas sim de efectivamente no dia-a-dia cultivar relações respeitadoras da individualidade. Todas as Dianas, Marianas e Petras que vivem em nós e à nossa volta agradecem.

*escrito pela psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva.

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