ainda sobre alimentos
viver saudável

ainda sobre alimentos: o lado negro dos alimentos saudáveis

ainda sobre alimentos, encontrei este artigo no site da Visão – originalmente publicado na versão em papel – e achei que era muito pertinente partilhar aqui no blogue. fala do outro lado da alimentação saudável, mais concretamente no impacto que alguns dos tão aclamados superalimentos têm, não só no ambiente, como na própria dinâmica dos produtores locais, de países em desenvolvimento. porque a alimentação não tem impacto apenas na nossa saúde mas também na saúde da economia. por exemplo, quando comemos um abacate – e eu adoro abacate – ou um prato cheio de quinoa estamos a dar coisas boas ao corpo, claro, é inegável. mas as repercussões destes consumos estendem-se muito além da nossa saúde. têm impacto sociais, económicos e ambientais noutras zonas do planeta.

“Os países ricos têm descoberto supostos produtos milagrosos longe de casa, em regiões menos desenvolvidas. Alimentos que são muitas vezes uma parte importante da dieta dos povos locais. Em alguns casos, o súbito aumento da procura, aliado ao aparecimento de novos produtores, torna os preços mais instáveis, e as populações não se conseguem adaptar à montanha russa de subidas e descidas. Há situações em que é o ambiente que sofre. Há até histórias de tráfico de armas associadas ao transporte de alimentos.”

 

vamos ver três alimentos com impactos graves diferentes:

abacate

sabemos que o abacate é um fruto mexicano, cheio de vantagens para a saúde. não tem açúcar, é rico em gorduras boas e entrou na nossa alimentação como se sempre tivesse por cá andado.

mas, como explica a Visão, “o que pouca gente sabe é que o abacate se tornou tão valioso devido à procura que é hoje uma importante fonte de rendimento de gangues de droga mexicanos. No estado de Michoacán, a região que produz mais abacates em todo o mundo, e onde o fruto ganhou a alcunha de ouro verde, vários grupos criminosos montaram um complexo esquema de extorsão dos produtores. Um dos maiores cartéis de droga do país, os Caballeros Templarios, por exemplo, exige a cada agricultor uma “taxa de proteção”: o equivalente a €0,9 por cada dez quilos de abacate produzido, mais €99 por hectare – e €215 no caso de ser para exportar.”

as consequências de não ser capaz de pagar esta taxa são inenarráveis: “Quem não paga, corre o risco de ter os filhos raptados e mortos (entre 2006 e 2015, houve 8 258 homicídios em Michoacán). Entretanto, nos últimos quatro anos, os produtores de abacate organizaram-se em grupos de autodefesa, armados com metralhadoras, transformando a região num palco de guerra.”
mais: para produzir um quilo de abacate gasta-se 123 litros de água.

quinoa

a quinoa não é propriamente barata, certo? aquilo que talvez não saibam é que este alimento – da Bolivia e Peru – serve de base alimentar aos mais pobres nestes paises. o facto de ser cara já fez com queas populações locais não pudessem comprar este alimento. porém, esta febre já melhorou e a produção da quinoa chegou mesmo a enriquecer o país.

mas nasceu outro problema: a par da queda do valor da quinoa, agricultores da Europa e América do Norte começaram a produzir este cereal de forma barata e eficiente – “usando, claro, maquinaria pesada para arar a terra, em vez de bovinos”.

“Em resposta à queda de valor, os produtores do Peru e da Bolívia começaram a reter o produto, na esperança de que os preços subissem novamente. E os outros, então, fizeram o mesmo. O braço de ferro tem derrotados anunciados: o custo do quilo de quinoa já está abaixo do que é considerado o mínimo para um estilo de vida condigno nos Andes. Os agricultores originais não têm forma de competir com os novos adversários. Basta recordar que a batata também nasceu nesta região, mas globalizou-se, e hoje Peru e Bolívia nem se encontram entre os maiores produtores mundiais.”

a perca-do-nilo

explica a Visão que o caso da perca-do-nilo é dos mais graves. este peixe que pode chegar aos dois metros de comprimento, foi introduzido no lago Vitória, em África, o segundo maior reservatório de água doce do mundo, com 69 mil quilómetros quadrados. tornou-se automaticamente no predador e dizimou “centenas de espécies nativas, base de alimentação dos povos da Uganda e da Tanzânia que viviam nas margens do lago.

ao mesmo tempo, o valor comercial deste peixe “tornou-a incomportável para as populações locais, que se limitam a ficar com os restos do peixe, quase incomestíveis­.

o artigo termina assim: “Um documentário chamado O Pesadelo de Darwin (nomeado para um Oscar de melhor documentário em 2006), revelou esta realidade. E outra: os mesmos aviões russos usados para transportar perca para os supermercados europeus transportam, no regresso, armas. Na prática, a perca não alimenta só gente – também alimenta guerras em África.

 

vale a pena ir pensando na alimentação em equilíbrio, também para o mundo em que vivemos.

Comentários (9)

  • Olá Catarina, tenho a sensação que todos nos tornámos muito intolerantes em relação às opiniões e formas de estar e viver a vida dos outros, principalmente em algumas matérias como a parentalidade e a alimentação. Eu própria não estou isenta disso, apesar de me considerar bastante tolerante com as formas de pensar alheias. Posso não concordar, posso fazer diferente, mas não tenho de opinar e muito menos mandar abaixo por isso. Cada um vive a vida como entende, desde que não interfira na liberdade alheia.
    Confesso que já pensei nas tuas contradições várias vezes – e chego a pensar se é só contradição natural, como todos temos, ou se é fruto de precisares que o teu blog seja lucrativo, pois é obviamente (também) o teu trabalho. Seja como for, pensei nessas contradições para mim mesma, e não as gritei na caixa dos comentários porque achei desnecessário. Não é preciso magoar os outros, simplesmente porque se pode. Com ou sem contradições, gosto de te seguir e gosto que sejas super humana. Nunca conseguiria ser tão frontal a falar da minha vida, pois sou muito reservada, mas gosto de saber que há pessoas que têm as mesmas dúvidas, questões, problemas, que eu tenho. obrigada por partilhares, sempre, concorde ou não com o que escreves.

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  • Isso e grande parte da Amazônia que foi destruída por causa da plantação da soja por exemplo. Quando houve há uma anos atrás o boom de pessoas vegetarianas. Indirectamente acabaram por matar animais defendendo outros. Isto é sempre um pão de dois bicos. Pelo menos o abacate dá-se cá. Em Lisboa há vários quintais com abacateiros.

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    • Sónia, então está a dizer que o a destruição da Amazónia é culpa do “boom vegetariano”? Talvez se devesse informar melhor, pois mais de metade dos solos cultivados no mundo inteiro são de facto plantações de soja… mas que se destinam às indústrias pecuárias. Sim, porque os animais são alimentados à base de rações de soja. Talvez o mal da destruição da Amazónia não sejam os vegetarianos, mas sim os carnívoros.
      E atenção, eu não sou vegetariana. Tento ter uma alimentação saudável mas sem cair em radicalismos. Mas não como carne. Pelo meu bem, e pelo bem do nosso mundo. Mas também não consumo soja.
      Apenas tive de responder ao seu comentário pois assentou em algo que não corresponde à realidade. Desejo-lhe tudo de bom.

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      • Não estou a dizer que seja só pelos vegetarianos como é óbvio. Mas sendo neta de agricultores sei que é impossível sermos todos vegetarianos. Os terrenos precisam de pousio. E há plantas que desgastam demasiado os solos. Há animais que precisam de plantas. É por aí fora. Cadeia alimentar blá blá. O mundo seria bem melhor senão tivéssemos evoluído. Eu como pouca carne, pouco peixe e muitos vegetais. O mal da destruição da Amazônia é dos humanos sem rótulos. Essa soja então não é para consumo humano ok.

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    • Sónia, a destruição de uma parte significativa da Amazónia por causa da plantação de soja não tem nada que ver com um suposto boom de pessoas vegetarianas; a maior parte da soja produzida no mundo destina-se à alimentação de gado (especialmente de gado bovino mas também de outros animais, incluíndo peixes de viveiro), não para consumo humano.
      Poderá consultar informação sobre o tópico aqui http://www.greenpeace.org/international/en/news/Blogs/makingwaves/soy-farming-devastating-amazon-soya-moratorium-renewed/blog/56418/ ou aqui https://www.nature.org/ourinitiatives/regions/southamerica/brazil/explore/brazil-china-soybean-trade.pdf?redirect=https-301

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      • Obrigada
        Mas não só para os animais mas para os humanos. Directamente ou indirectamente é sempre para o consumo humano. O mal está aí.

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  • […] ainda sobre alimentos, encontrei este artigo no site da Visão – originalmente publicado na versão em papel – e achei que era muito pertinente partilhar aqui no blogue. fala do outro lado da alimentação saudável, mais concretamente no impacto que alguns dos tão aclamados superalimentos têm, não só no ambiente, como na própria dinâmica dos produtores locais, de países em desenvolvimento. porque a alimentação não tem impacto apenas na nossa saúde mas também na saúde da economia. por exemplo, quando comemos um abacate – e eu adoro abacate – ou um prato cheio de quinoa estamos a dar coisas … Ver artigo completo no Blog […]

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  • Ainda bem que eu tenho a minha horta onde planto e semeio tudo o que preciso e duvido que esses “super alimentos” sejam melhores que os da minha horta. Vou fazer 60 anos mas toda a gente acha que eu ainda tenho pouco mais de 30 e sou super saudável… Enfim, não podemos andar atrás de modas e temos de descobrir por nós mesmos o que é melhor para nós!

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  • Acabei de comprar dois abacates no lidl de origem portuguesa. É já há quinoa de origem portuguesa também. Temos que estar atentos da origem dos alimentos que queremos comprar, mas também não nos podemos esquecer da roupa que vestimos que infelizmente a grande maioria das marcas também exploram quem as produz já que grande maioria não é produzida no país que a compra. Infelizmente nos dias de hoje quase nada é produzido no mercado justo,. Temos que ser nós consumidores a sermos exigentes com o que compramos e a rejeitar o que não achamos correcto.

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