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dieta das princesas viver saudável

Não aceita o seu corpo tal como ele é? Este texto é para si

Existe uma imensidão de fotografias de “antes e depois” partilhadas nas redes sociais. No “antes” vemos um corpo mais pesado, mais flácido, menos trabalhado. No “depois” um corpo mais leve, tonificado e fit. Um dos objectivos mais frequentes é inspirar outras pessoas, mostrando que a mudança é possível. Pessoas comuns dão generosamente o rosto e o corpo por este movimento, que pretende um contágio motivacional positivo. Esta é uma perspectiva para estas partilhas.

De outro ângulo, estas fotos comparativas podem afectar ainda mais uma auto-estima – já por si só diminuída – pela interpretação de que toda a gente consegue emagrecer e ter um corpo mais definido. Neste caso, o impacto não será positivo. Muito pelo contrário: tenderá a reforçar emoções como a frustração, a falta de esperança e pensamentos críticos e absolutos como “só eu é que não consigo”. É uma outra perspectiva.

Nas duas perspectivas, as fotografias de “antes e depois” são analisadas meramente do ponto de vista físico. Será isso o que mais nos interessa? A esta pergunta podem responder-me que dependerá dos objectivos presentes. Verdade. Ainda assim, mesmo que estejamos a tentar perder peso, a tonificar ou até a começar competições de fitness, para além de um corpo, existe uma pessoa. Nesse sentido, importa olharmos para estas fotografias a 360º: além da diferença de centímetros e músculos, como é que sentimos a pessoa? Qual a sua expressão facial? Que fotografia é que transparece uma auto-confiança real? Se pudéssemos entrar na cabeça de quem observamos, que pensamentos estariam por lá? Como tem sido o seu comportamento alimentar e estilo de vida?

Mais do que mudanças físicas, interessam-nos mudanças completas – físicas e psicológicas, em que a auto-estima é verdadeiramente fortalecida e não apenas aumentada provisoriamente porque o número de calças é outro. Caso contrário, as crenças negativas persistirão porque, quem passa por isso, acreditará que as pessoas novas que se aproximam só o fazem porque está mais magra e bonita, pelo que se engordar voltará a perder todas essas pessoas e afectos.

Nesta linha de pensamento, tenho encontrado novos tipos de partilha de fotografias “antes e depois”. Fotos em que o antes mostra uma pessoa mais magra e em que no depois surge uma pessoa com um corpo menos trabalhado; fotos de um antes com muita maquilhagem e um look pensado ao pormenor e de um depois com uma imagem mais natural e descontraída, imagens em que no antes surge um corpo perfeito trabalhado com Photoshop e em que no depois surge um corpo perfeitamente imperfeito à luz natural, sem efeitos especiais. Estas fotos fazem-se acompanhar por legendas que ajudam a clarificar a sua ordem para aqueles que acreditam que houve um erro de edição na ordem do antes e do depois. Neste novo tipo de partilhas, a versão “corpo perfeito” vem acompanhada de uma legenda que clarifica aspectos como o nível de auto-estima, o significado daquele corpo e a satisfação global com a vida. Em algumas partilhas podemos encontrar um corpo mais magro associado a insegurança, em que o investimento no físico é o foco central da vida, em que existe um comportamento alimentar doente que visa a todo o custo não ganhar peso e em que existem poucos mais interesses ou ambições. E nessas mesmas partilhas, a foto do depois com um corpo menos trabalhado vem associado a liberdade, a maior confiança, a outros projectos pessoais que privilegiam saúde em detrimento da estética, a verdadeira felicidade.

Não existe apenas um modelo de corpo perfeito e somos muito mais do que um conjunto de centímetros e gramas. Somos uma história, um conjunto de vivências e aprendizagens diárias, o reflexo de pessoas que nos marcaram. Somos um conjunto de valores e de sonhos. Que todas estas partilhas de fotografias de “antes e depois” possam ser olhadas de forma flexível e contextualizada à vida de cada pessoa. Um corpo mais magro e tonificado pode estar associado a maior auto-estima e bem-estar? Sim, pode. Outros tipos de corpos podem traduzir saúde e segurança? Sim, também podem.

Mas, acima de tudo, que possamos olhar ao espelho com respeito pelo que somos e por quem somos no aqui-e-no-agora. Que possamos perseguir mais saúde, mais liberdade de escolha, mais vontade de viver e não apenas menos quilos, menos centímetros e menos rugas.

Filipa Jardim da Silva

www.filipajardimdasilva.pt

 

 

uma boa oportunidade para relerem este post. 

e mais uma fotografia da Marta, da Dreamaker [obrigada*].

Comentários (4)

  • […] De outro ângulo, estas fotos comparativas podem afectar ainda mais uma auto-estima – já por si só diminuída – pela interpretação de que toda a gente consegue emagrecer … Ver artigo completo no Blog […]

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  • acredito que nem sempre a solução é sermos magras. eu nunca vou ser magra… posso ser mais tonificada e mais saudável por opção, mas não vou ser magra.
    tenho umas ancas largas e um rabo gigante, que já vêm da minha mãe e de não sei quantas gerações atrás. não gosto claro, mas porque sempre fui gozada ou confrontada com o facto de que nunca vou ser magra.
    sim pratico exercício… não, não faço dietas rigorosas e como muito daquilo que acho que mereço. há dias em que temos mais cuidado e há outros que apenas nos apetece comer qualquer coisa que seja “proibida”. acredito que somos aquilo que comemos e por isso mesmo, serei uma mistura.
    só agora, aos poucos, ligo menos ao tamanho do meu traseiro genético. cada vez mais ligo à minha felicidade interior… mas a verdade é que sinto que há muito caminho a fazer. e sei também, que não são todos os livros de auto-estima nem de busca interior da felicidade, que me vão ajudar. sou eu… e as pessoas que estão à nossa volta.
    se calhar, se houvesse menos pessoas mal-formadas e que passam a vida a criticar, não havia tantos problemas de auto-estima… mas isto sou eu a atirar para o ar 🙂

    um beijinho e obrigada pela companhia 🙂

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  • Catarina, vou fazer 50 anos em Outubro, mesmo no inicio. Sofro de hipotiróidismo e entrei na premenopausa (que parece estar cheia de pressa de deixar de ser pré). Coloquei o Mirena e aparentemente a coisa terá sido mal calculada, porque desde aí já aumentei mais de 15 quilos (e isto foi há coisa de três meses). Não era magra, embora já o tenha sido; inclusive sofri de anorexia antes de engravidar da minha filha, há 27 anos atrás, pesando 45 quilos.
    Hoje pese-me e inaugurei os três dígitos,
    Não tenho dúvidas que amanhã sou capaz de acusar menos um quilo e meio, assim as minhas hormonas queiram, a minha barriga de stress não se manifeste e o meu corpo decida não fazer retenção de líquidos. Se calhar, dois quilos.
    O meu psicanalista não quer que faça restrições alimentares.
    Achas tu que vou para um ginásio? Nope! PT? Alguém de não lhe poder pagar, também o que me consigo mexer não o justifica. Tenho de me motivar para as caminhadas de 30 minutos aqui no Seixal, e uns asanas de yoga, mas querida, está difícil. Falta acreditar.
    Cada caso é um caso… não dá, de todo para generalizar! Quando se entender isso, vai haver mito mais gente a viver com um bocadinho demais leveza.

    (tenho consulta de endocrinologia marcada para Setembro, para avaliar tudo e fazer um noves fora nada…)

    Deste lado, B’jinhos e uma boa noite

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  • […] 1. Não aceita o seu corpo tal como ele é? Este texto é para si – Dias de uma Princesa […]

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