perguntar a quem sabe viver saudável

perguntar a quem sabe: o que um bebé que faz BLW tem que os outros não têm?

“Sem stress, sem purés, em família” é o lema do livro escrito por Gill Rapley (criadora do termo BLW) e por Tracey Murkett (jornalista). Chama-se “Os Bebés Sabem Comer Sozinhos”, foi editado em português pela “Matéria Prima” e já está à venda nas livrarias. Trata de uma das grandes tendências no universo da alimentação infantil: o Baby Led Weaning, um método de introdução de alimentos sólidos que consiste em deixar os bebés explorarem a comida à vontade. Não é a primeira vez que falo deste tema no blogue. Lembram-se do post com o vídeo em que convidei a Dr. Joana Figueira e a especialista em alimentação paleo, autora do “Jocooking“, Joana Moura?

A propósito do livro, achei que seria interessante e útil explorar e continuar a falar do tema, inaugurando, em simultâneo, a nova rubrica do blogue, que vai responder e desmistificar várias questões. Chama-se “perguntar a quem sabe” e vai esclarecer não só as minhas dúvidas, mas também as vossas, com a ajuda de especialistas de diferentes áreas. Sugestões são mais do que aceites.

Que competências é que os bebés desenvolvem? Que alimentos é que devem ser excluídos? Há perigos associados? Se faz sentido incluir este método em todas as refeições? Conheçam todas as respostas para estas perguntas, e mais.

Além da autonomia no ato de comer, que outras competências são desenvolvidas com o BLW?
As competências desenvolvidas como resultado da autonomia do bebé em comer sozinho prolongam-se muito além da hora das refeições. Muitos pais notaram que a coordenação mão-olho e a destreza são mais desenvolvidas em bebés que praticam BLW do que no caso de irmãos ou outros bebés da mesma idade que não tenham praticado este método. Isto não é surpreendente: o BLW dá aos bebés a oportunidade de lidarem – várias vezes ao dia – com uma ampla gama de texturas, formas e tamanhos, que nenhum brinquedo educacional oferece. As habilidades sociais (e possivelmente de desenvolvimento da linguagem) são reforçadas pelo BLW, uma vez que os bebés fazem parte das refeições familiares e podem ouvir e juntar-se a conversas. Em geral, os bebés, cujos pais demonstram confiança nas suas habilidades e escolhas, parecem ser mais confiantes quando confrontados com novas experiências e mais interessados ​​em abordar coisas novas, comparativamente àqueles a quem não é dada esta autonomia. Além disso, investigações já mostraram que os bebés que praticam BLW têm tendência para fazer escolhas alimentares mais saudáveis, tendo também um menor risco de desenvolver obesidade, ao terem uma forte capacidade para controlar o apetite.

Qual é o impacto da introdução de alimentos sólidos no organismo do bebé?
Os sistemas digestivo e imunitário dos bebés estão prontos para se adaptarem a alimentos sólidos por volta dos seis meses. O leite materno e em fórmula é nutricionalmente muito rico, com um forte aporte calórico forte, continuando a fornecer a maioria das necessidades nutricionais do bebé até por volta de um ano. Isto faz com que os bebés tenham tempo para se adaptarem gradualmente aos alimentos sólidos. O BLW permite que eles sigam este caminho natural, de forma a serem capazes de aumentar a sua capacidade de ingerir sólidos, gradualmente, ao seu próprio ritmo, começando, em simultâneo, a reduzir o consumo de leite materno apenas quando estiverem preparados. Esta abordagem opõe-se à tradicional, em que se encoraja a substituição do leite materno por grandes quantidades de alimentos sólidos a um ritmo que poderá ser demasiado acelerado para o sistema do bebé.

O facto do bebé não manifestar interesse em explorar a comida poderá ser sinal de algum problema?
Alguns bebés começam a interessar-se por comida poucas semanas antes dos seis meses e alguns só muitas semanas mais tarde. Como tal, não existe nenhuma razão para preocupações. Trata-se apenas de um reflexo do ritmo individual do seu próprio desenvolvimento – é uma forma de comunicarem que não precisam mais do que aquilo que o leite lhes dá. Por vezes, os pais preocupam-se porque o bebé apenas “brinca com a comida” sem a ingerir, mas isto é normal: os bebés passam várias semanas a familiarizar-se com a comida sólida, aprendendo sobre o sabor, sobre a textura, sobre o cheiro dos diferentes alimentos, bem como sobre a melhor forma de os segurar e mastigar antes de os ingerir.

Mas é importante saber distinguir. Os bebés normais e saudáveis são naturalmente curiosos sobre o mundo que os rodeia e, por isso, querem manusear e examinar coisas novas, incluindo a comida. Um bebé que não demonstra interesse em brincar com brinquedos e outros objectos pode de facto ter um problema que precisa de ser investigado.

Que alimentos devem ser excluídos do BLW?
Sal, açúcar, comida de plástico e outros alimentos pouco saudáveis, como por exemplo aqueles aos quais são adicionados químicos, não devem, naturalmente, fazer parte da rotina alimentar do bebé. É importante verificar sempre os valores de sal em qualquer tipo de alimento: boiões, embalagens, ou na carne, peixe e queijo conservados em sal. É também importante não dar aos bebés alimentos pequenos ou redondos inteiros, como nozes, azeitonas, cerejas e tomate cereja devido à possibilidade de se engasgarem – apenas se forem partidos ao meio, no caso dos últimos dois. O mel não é aconselhável aos bebés com menos de um ano e a dose de peixes que possam conter níveis poluentes elevados também deve ser limitada. Tirando isto, não são necessárias mais restrições. As últimas investigações sobre alergias sugerem que pequenas doses de alimentos potencialmente alergénicos podem reduzir a intolerância a estes produtos se forem introduzidos cedo na alimentação dos bebés.

A que sinais de perigo é que os pais devem estar atentos durante este processo?
Não há perigos específicos no BLW. A probabilidade de os bebés se engasgarem não é maior do que quando são alimentados à colher. Porém, é comum os bebés terem o reflexo de vómito quando se alimentam sozinhos, o que costuma levar os pais a acharem que estes se estão a asfixiar com a comida. Apesar de ser comum em qualquer método de introdução de alimentos sólidos, este reflexo aparece mais cedo nas crianças que praticam o BLW. É uma parte normal no processo de aprender a comer com segurança e não é perigoso. É só importante estar consciente de que os bebés são muito sensíveis a este reflexo e que desencadeá-lo com pedaços de comida é a forma natural de aprenderem a levar a comida à zona certa da boca (a tendência é para colocá-los demasiado ao fundo), com pedaços mais pequenos.

A partir do momento em que o bebé começa a fazer BLW, a rotina deve estar presente em todas as refeições? Incluindo nos restaurantes? 
Quanto maior for a prática do BLW, mais rapidamente os bebés desenvolvem a capacidade para comer e confiar na comida. Assim, o BLW deve ser incluído sempre que possível na rotina alimentar das famílias, independentemente de os bebés comerem ou não. É, assim, importante que ele possa ser autónomo em todas as refeições. Levar a refeição à boca do bebé e, noutras ocasiões, permitir que ele mexa na comida pode gerar alguma confusão. Pratos líquidos, como sopa, podem ser confecionados de forma mais grossa e suave (podem deixar-se pequenos pedaços inteiros, até) de forma a que o bebé a consiga beber ou utilizar, sozinho, uma colher para a levar à boca e explorar. O adulto pode ajudar colocando, por exemplo, a comida na colher e deixar que o bebé a segure. O que interessa é que o bebé tenha o controlo.

Nos restaurantes, a maior preocupação dos pais está relacionada com a confusão e sujidade potencialmente geradas. A solução passa por dar ao bebé uma pequena seleção de alimentos saudáveis e que não sujem muito (sem molhos líquidos). Também poderá ser utilizada uma manta para proteger o chão.

Existem formas de cozinhar mais aconselháveis para fazer BLW?
Qualquer forma de cozinhar, desde que a comida não inclua sal, açúcar ou outros aditivos pouco saudáveis, é boa. Ao contrário daquilo que se diz, muitas vezes os bebés adoram comidas picantes e a variedade de sabores que ervas aromáticas oferecem.

[obrigada Pau Storch pela fotografia]

Comentários (6)

  • […] “Sem stress, sem purés, em família” é o lema do livro escrito por Gill Rapley (criadora do termo BLW) e por Tracey Murkett (jornalista). Chama-se “Os Bebés Sabem Comer Sozinhos”, foi editado em português pela “Matéria Prima” e já está à venda nas livrarias. Trata de uma das grandes tendências no universo da alimentação infantil: o Baby Led Weaning, um método de introdução de alimentos sólidos que consiste em deixar os bebés explorarem a comida à vontade. Não é a primeira vez que falo deste tema no blogue. Lembram-se do post com o vídeo em que convidei a Dr. … Ver artigo completo no Blog […]

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  • Catarina, não há evidência científica sobre o BLW influenciar um maior desenvolvimento ou destreza das crianças. Atenção que eu não sou contra, até sou a favor visto que BLW está associado a uma alimentação mais saudável, mas acho deplorável inventar-se resultados para validar o que quer que seja. Se se praticar o BLW com fast food a criança vai ter tendência para escolher este tipo de alimentação, não é o BLW que influência escolhas mais saudáveis, mas sim o que os pais optam dar.
    Parte muito importante do BLW é isto que a Catarina diz
    “Em geral, os bebés, cujos pais demonstram confiança nas suas habilidades e escolhas, parecem ser mais confiantes quando confrontados com novas experiências e mais interessados ​​em abordar coisas novas, comparativamente àqueles a quem não é dada esta autonomia.”
    “investigações já mostraram que os bebés que praticam BLW têm tendência para fazer escolhas alimentares mais saudáveis, tendo também um menor risco de desenvolver obesidade, ao terem uma forte capacidade para controlar o apetite.” Isto não é exclusivo do BLW, isto aplica-se a qualquer criança que tenha pais conscientes.

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  • O que são essas manchinhas castanhas na cabeça da Maria Luisa? Sinais?

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    • é a crosta láctea 🙂

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      • Ia mesmo falar a propósito da crosta láctea visível na foto. A Mariana tem praticamente o mesmo tempo da Maria Luiza e ainda tem a dita crosta. Há quem diga para se colocar óleo, e passar com esponja, e fazer isto e aquilo… eu tenho deixado sair com o tempo. Como é que a Catarina tem lidado com isso?!

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