vida
viver saudável

como o melhor na nossa vida pode ser o que corre menos bem

Não correu como esperado? ainda bem!

A vida será o bem mais precioso que temos e ao mesmo tempo consegue também constituir o maior dos desafios. Todas as coisas vivas são imperfeitas, ainda assim persistimos em busca de uma vida perfeita, com uma juventude eterna, sem fim. Procuramos pelos lados cor-de-rosa, querendo colocar de lado o que dói, o que é feio, o que é efémero. Mas tudo é finito, todos os seres vivos, mais cedo ou mais tarde, conhecem um fim.

Mas se o corpo físico desaparece, a experiência e a memória ficam, e essas sim, nunca morrem. O ser humano terá muitos defeitos, mas certamente consegue em alguns momentos viver de forma plena, com todos os sentidos ativos, retirando o máximo partido de cada segundo. E quando vivemos assim, sintonizados connosco e com tudo aquilo que nos habita, permitimo-nos a errar, mudar de direção, alterar a perspectiva, actualizar valores e objectivos. Cometer erros é uma parte essencial da nossa vida; não só podemos aprender com eles, como nos aproximam de nosso verdadeiro Eu. Em alguns momentos aceitar esta parte da vida humana pode tornar-se particularmente desafiante. Aprender com os nossos erros pode constituir uma tarefa verdadeiramente olímpica. Aceitar o que não controlamos e focarmo-nos no que está no nosso campo de acção, sem culpas nem ressentimentos, é um desafio.

Importante é ter em mente que a beleza, o sucesso e a prosperidade são apenas bons quando acompanhados pelos seus lados complementares, neste caso, a ausência de beleza, de sucesso e de prosperidade. Neste jogo da dialética emocional, quando se perde aprecia-se mais verdadeiramente o se que tem; é a dor que possibilita melhor reconhecer o conforto; é a experiência de tensão que leva à identificação do relaxamento. As verdadeiras mudanças, os reais encontros connosco mesmos, dão-se muitas vezes após momentos de enorme crise e desconforto, as maiores convicções surgem após períodos de dúvidas esvaziantes, os maiores sucessos ocorrem após derrotas sucessivas.

Vale a pena, por isso, aprender a surfar as ondas que aparecem, aproveitando o mar que vai existindo em cada dia. É esta postura de flexibilidade e humanização que nos conduz a maiores níveis de satisfação e bem-estar.

É importante darmos um significado ao que nos acontece. Dar um sentido às dores e às vitórias experienciadas. Não é possível retirarmos cirurgicamente alguns momentos de falha, derrota, traição, desilusão, e chegarmos ao mesmo Eu. Não é possível vivermos sem ser nesta dialética.

Assim, é também através da dor que encontramos felicidade, é na escuridão de algumas etapas que tomamos decisões que nos levam a fases paradisíacas da nossa vida. Por isso quando olhar para trás sorria, e conclua que tudo o que aconteceu foi necessário para ser hoje quem é. E esse é o momento que recordará a sua infância difícil como necessariamente difícil para ser a pessoa que é, que se relembrará da importância de ter devorado comida para hoje saber comer com consciência, que olhará para o seu coração magoado ou para o coração de outro que magoou como um momento de viragem, que se rirá por ter ficado sem trabalho e como isso o permitiu descobrir o que realmente lhe dá gozo fazer.

A vida é incrivelmente complexa, a vida no seu todo e as nossas vidas dentro da vida. Existem tantas aspetos e particularidades que fazem de nós o que somos, a cada momento, que não é possível mantermos tudo rigidamente equilibrado, sempre. Os momentos de perda, vazio, destruição são inevitáveis. E por vezes essa destruição sinalizará desvios que fomos fazendo daquele que é o nosso caminho de bem-estar. Só aí é possível começar de novo.

Nesse instante, em que descobrimos que é possível nos mantermos em movimento sempre, mesmo na tristeza, na zanga, no medo, na descrença, é o momento em que nos tornamos perfeitamente imperfeitos e percebemos como o melhor na nossa vida pode ser o que corre menos bem.

 

 

Ideias-chave para guardar:
Aprecie e aprenda com todas as experiências do dia-a-dia, mais ou menos prazerosas;
Foque-se em gerir mais a forma como encara o que lhe acontece do que em controlar o exterior – essa legenda da realidade é que será determinante;
Independentemente das circunstâncias, tem sempre a possibilidade de escolher como quer lidar com a dita realidade – foque-se nesse poder de escolha;
Treine a sua flexibilidade mental no dia-a-dia, procurando segundas hipóteses de leitura e de perspectiva de situações que vão acontecendo: “Posso interpretar isto como A ou também como B”;
Dê sentido às suas experiências e emoções, faça com que sejam produtivas ao invés de destrutivas.

 

Filipa Jardim da Silva – Psicóloga Clínica e Formadora

Comentários (1)

Deixe um comentário