Estar grávida é um estado de graça? [sobre as transformações físicas e psicológicas na gravidez]
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Estar grávida é um estado de graça? [sobre as transformações físicas e psicológicas]

Estar grávida é, frequentemente, sinónimo de felicidade, sendo uma fase vivida com grande expetativa e com momentos de alegria intensos. Um bebé, mais ou menos planeado, constitui uma nova vida e o amor mais pleno, por excelência. Para muitas futuras mamãs, o processo de gravidez é experienciado com tranquilidade e serenidade, sem muitos sobressaltos nem alterações psíquicas. Contudo, para outras mulheres esta fase das suas vidas é vivida com mais inquietação. É importante desmitificar a ideia de gravidezes perfeitas, de estados de graça plenos, da proibição de queixa de quem está a gerar uma vida. As mulheres grávidas continuam a ser mulheres, não ganham super poderes.

Sendo a gravidez um período de vida da mulher que envolve alterações físicas, hormonais e psicológicas, estas podem ter consequências ao nível da saúde mental. Desta forma, muito embora seja aparentemente um período exclusivamente de alegria e bem-estar, a verdade é que o desejo de abraçar-se um projeto de maternidade não invalida a ocorrência de alterações do humor ou de ansiedade.

Atualmente estima-se que entre 8.5% e 11% das mulheres grávidas experienciem episódios depressivos, sendo que a prescrição de antidepressivos nestas situações atinge também números bastante elevados. Apesar de haver vários fatores que se podem correlacionar com o surgimento de uma depressão durante a gestação, aquele que parece ter maior influência é a existência prévia de depressão ou ansiedade. Muitas vezes, como se pressupõe ser normal que a mulher grávida esteja “emocionalmente alterada”, os sintomas depressivos acabam por ser ignorados ou desvalorizados, acabando por gerar consequências negativas no desenvolvimento da própria gravidez, do parto ou do bebé.

As alterações físicas que se dão ao longo dos nove meses de gestação estão por vezes na base das alterações de humor verificadas. Durante as 38 a 42 semanas de gestação, o corpo feminino passa por profundas alterações anatómicas, fisiológicas e bioquímicas em quase todos os órgãos e sistemas. No primeiro trimestre, a presença de enjoos e sonolência tende a alterar o bem-estar da mulher, podendo em alguns casos limitar-lhe a funcionalidade diária. Pode surgir medo pela possibilidade de perda do bebé. No segundo trimestre, oscilações de apetite, o aumento de peso, a alteração de formas físicas e a sensação de memória de peixe que prevalece são outras das modificações observadas que testam a autoestima da mulher. Por fim, no último trimestre, o aumento mais ponderal de peso, as dificuldades circulatórias e inchaço consequente, e as dores físicas e musculares constituem mudanças impactantes na forma como a mulher se vê e se sente. Neste último trimestre, a futura mãe poderá ainda começar a sentir medo e ansiedade pelo parto.

A própria sexualidade da mulher na gravidez sofre alterações e a forma como gere a intimidade em casal, dependerá da forma como a mulher se percebe, se avalia e se valoriza. Mais do que ser amada e cuidada, dependerá da mulher sentir-se amada, atraente e acarinhada. Em algumas mulheres com uma autoimagem mais vulnerável, a gravidez pode constituir uma situação geradora de alterações no comportamento alimentar, colocando em risco não só a sua saúde como a saúde do feto.

Adicionalmente, poderão ainda desenvolver-se problemáticas ligadas ao stress, principalmente quando a mulher tenta manter o seu ritmo agitado inalterado, como antes de estar grávida, evidenciando dificuldade em lidar adaptativamente com um novo ciclo de mudança de vida. A própria sociedade, levando ao extremo a máxima de que “gravidez não é doença”, por vezes alimenta a ideia de que nada deverá mudar no dia-a-dia da mulher. E não sendo realmente a gravidez sinónimo de doença, requer adaptação e cuidados.

Face a todas as mudanças e desafios inerentes de adaptação por parte da mulher, é necessário que a rede de suporte social em redor da grávida adote uma postura de compreensão e apoio, para que a futura mãe consiga superar estas questões. É da maior importância que a saúde mental da mulher grávida seja alvo de atenção também por parte das equipas médicas. Uma avaliação criteriosa poderá detetar a existência de sintomas depressivos que, tratados atempadamente, poderão evitar ou diminuir o risco de consequências negativas tanto para a mãe, como para o bebé. E desta forma, tendo em conta as descobertas recentes entre a depressão materna e a predisposição genética do bebé para o surgimento da depressão, estaremos também a agir numa ótica de saúde pública e de promoção da saúde mental.

Estar grávida pode ser sinónimo de um estado de graça mas também poderá acarretar desafios vários. E a verdade é que antes de existir uma mãe, existe uma mulher, e é importante que essa identidade não se perca ainda ao longo da gestação. Quanto mais as necessidades físicas e psicológicas da mulher estiverem satisfeitas, mais disponibilidade existirá para abraçar o papel de mãe, que se juntará a outras dimensões já existentes.

Filipa Jardim da Silva – Psicóloga Clínica e Formadora

Comentários (3)

  • Gostei muito de ler este texto. Gostaria de o ter lido na gravidez do meu primeiro filho. Há poucos textos que resumam as alterações que limitam a funcionalidade diária de uma grávida. Ouvi muitas vezes, demasiadas vezes, que a gravidez não é doença, e eu nunca me senti tão doente como na gravidez. Nunca li sobre a perda de capacidades cognitivas. Nunca me senti tão “diminuída” como na gravidez. Se tivesse lido este texto talvez tivesse as pazes comigo mesma nesse momento, em vez de ter demorado uns bons meses, senão anos, até “aceitar” as minhas limitações enquanto grávida. E continuo a sentir que sou uma das raridades que se sentiu doente na gravidez. É bom ler um texto que tão claramente e sem pessimismo, fala sobre o outro lado da gravidez. Obrigada.

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    • Olá Sofia…
      Estou grávida, no início do 2°semestre e sinto exatamente essa sensação que é referida… Constante sensação de doença, cansaço… Digo muitas vezes que tenho saudades de me sentir normal… Dizem me q o melhor está para vir mas a cada dia me sinto igual e mais pesada e mais… Vocês sabem…
      Mas a sociedade não entende e tende a comparar, a dizer que A é melhor que B ou que no “meu tempo, eu….” eu, eu eu e cada um é como casa qual e não há uma gravidez igual à outra mas não se culpe…

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  • Olá.
    Não tenho filhos e infelizmente o facto de cada vez mais as pessoas adiarem a maternidade, faz com que não tenha nenhuma grávida no círculo de amigos, nem na família.
    Ultimamente tenho lido diversos artigos que descrevem a gravidez como sendo algo não tão perfeito como o esperado.
    O que é uma chatice. Principalmente para mim, que embora pense ser mãe a curto prazo, tenho imenso receio de todas as alterações que possam surgir. Porque me custa a adaptar. Porque nunca cuidei de uma criança. Porque tenho receio do desconhecido. Porque tenho medo do parto. Porque tenho medo de não conseguir ser a mãe que quero ser.
    Por favor,, criem comentários, sugestões de como ultrapassar ou lidar com a fase menos boa da gravidez.

    Obrigada.

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