o meu diário viver família

sobre amor incondicional [viver com um adolescente]

amamos de forma incondicional os nossos bebés. cheiram a bolachas doces, são macios e fofos como algodão doce. é fácil perdermo-nos de amores pelos nossos bebés. fazem asneiras mas intercalam com gracinhas, barulhinhos e descobertas que nos fascinam. e sorriem. porra, quando sorriem passa o cansaço, a dor de cabeça, e mais nada interessa. são os nossos bebés até muito tarde. crescem mas continuam pequeninos. ainda adormecem ao colo. não sei precisar o ano mas há um momento em que deixam de ser bebés por muito que sejam sempre os nossos bebés.

o meu filho adolescente ainda cheira a bolachas doces enquanto dorme e eu consigo afastar-lhe os auscultares. mas, quase sempre, o meu filho é um rapaz. tem acne e usa desodorizante. refila muito e tem aquele suspiro do tédio que me leva à loucura. procuro uma gracinha que me acalme, uma gargalhada que dobre ou só um sorriso mas, quase sempre, o suspiro do tédio é seguido de outro ainda mais intenso. o meu filho adolescente está feliz no computador ou no telemóvel com os amigos. a voz mudou. e ouço-lhe as gargalhadas de homem.

é um amor incondicional que não pode estar dependente do cheiro bom e da pele suave. as discussões doem e os silêncios doem ainda mais. amar um filho adolescente é a nossa luta interna entre a mãe fixe e a mãe autoritária, consciente que as duas são igualmente necessárias e precisavam de uma precisão milimétrica no instante em que surgem. precisam de nós mas já não precisam e, porra, que esta gestão cansa mais que noites de privação de sono e centenas de fraldas para mudar. amamos perdidamente os nossos adolescentes. mesmo a cheirar a ténis usados, suor e com borbulhas. mesmo com suspiros de tédio. e pedimos que eles também nos amem para sempre.

 

 

[este texto saí das notas do telemóvel depois da minha doce mãe, que chora por tudo e por nada mas nunca perde a calma nos momentos de crise, me ter recordado da frase que a Catarina-adolescente-existencialista lhe disse: posso ter direito a fazer os meus dramas sem tu faças disso o drama teu? era exactamente isso que eu precisava de ouvir. e porque o meu adolescente sabe ler e não sei se anda por aí: amo-te filho. sempre e para sempre.]

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